Chiara Gadaleta: Futuro da moda - TOPVIEW

Chiara Gadaleta: Futuro da moda

Confira a última parte da matéria principal "Vozes que pensam o amanhã", na edição 237 da revista.

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Comunicadora e estilista de formação, é criadora do Movimento Ecoera, que integra os mercados de moda, beleza e design com a sustentabilidade ambiental, social, cultural e econômica. É embaixadora do Pacto Global da ONU Brasil.

A moda reflete – e se transforma – diante de momentos de crise. Quais serão os impactos que esta pandemia vai deixar na moda?
A moda sempre foi um reflexo do seu tempo. Na virada dos anos 2000, para mim, ela tinha perdido o foco. De um lado, estavam o planeta e as alterações sofridas e a sociedade cada vez mais fragilizada, e, do outro, a moda, absolutamente alienada. Foi assim que criamos do Movimento Ecoera, que, desde 2008, dissemina informações e integra a sustentabilidade nos mercados de moda, beleza e design. Na época pré-pandemia, nossa luta foi mostrar para as empresas a necessidade de fazer as mudanças que o mundo pedia. Com a chegada da pandemia, todo o mercado teve que entender na marra que a saúde vem em primeiro lugar: a minha, a sua e a do planeta. A pandemia acelerou a consciência.

O comfort wear vai pegar?
A moda precisa refletir o seu tempo e vamos olhar mais para o essencial e o que realmente nos faz sentir bem.

Muito tem se discutido sobre o revenge buying. Você acha que essa vai ser a postura dos consumidores no Brasil?
Diferentemente de outros mercados mundiais, teremos que olhar primeiramente para a questão econômica e, nesse cenário, vamos ter a chance de valorizar o feito e produzido no Brasil.

O incentivo ao mercado local pode ser uma saída?
No Movimento Ecoera, já iniciamos campanhas de valorização do produto nacional. Dessa forma, iremos garantir empregos.

Como podemos fazer a indústria da moda ser verdadeiramente mais sustentável?
A pandemia acelerou a necessidade de reavaliar prioridades e os consumidores estarão mais preocupados com
a saúde, a sua, a do outro e a do planeta. As empresas que já haviam ingressado em uma jornada mais consciente e responsável e começado a implementar boas práticas em seus processos e produtos estarão mais
aptas a atender esse consumidor. O mercado de moda como um todo será mais atento, desde o plantio da matéria-prima até o descarte. A transparência e a rastreabilidade serão premissas.

A Amazon anunciou o lançamento de uma nova loja para expor designers independentes dos EUA, com apoio da Vogue US e do conselho de designers dos EUA. Como você analisa isso?
Cada mercado terá que se REssignificar e se unir. No meu entendimento, é a única forma de garantir a estabilidade da economia local. Precisamos valorizar o que está ao nosso redor e criar ambientes saudáveis, em termos econômicos, ambientais, sociais e culturais.

Muitas marcas querem ser consideradas “verdes”, usam materiais de menor impacto, mas continuam com a produção em larga escala. Isso funciona?
Para medir impacto, é necessário fazer uma análise de ciclo de vida e cada peça, linha ou marca tem sua cadeia e seus processos. Cada empresa precisa medir seus reais impactos, negativos e positivos. As empresas alinhadas ao desenvolvimento sustentável geram relatórios, publicados em seus sites, com essas informações e estabelecem metas de redução. Tudo isso de for-ma aberta e compartilhada com seus fornecedores, clientes e consumidores finais.

Como evitar o greenwashing?
As empresas precisam analisar sua cadeia de valor, não se amedrontar com possíveis descobertas inconvenientes. Esse é o primeiro passo para fazer mudanças e promover boas práticas. Quando uma empresa está atenta a seus processos, corre menos riscos. Na outra ponta, os consumidores, cada vez mais conscientes, buscam informações nas redes e já conseguem identificar quando as boas práticas são apenas uma jogada
de marketing.

Quais marcas sustentáveis são boas inspirações?
Empresas que usam sua força e governança para inspirar as outras, empresas que se unem em prol da sociedade e do meio ambiente. No mundo pós-pandemia, isso ficará claro e vamos poder escolher quais serão as marcas
que compartilharão nosso guarda-roupa e nossas vidas.

“A pandemia acelerou a consciência.”

*Matéria originalmente publicada na edição #237 da revista TOPVIEW.

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