Sandra Comodaro: uma liderança feminina inspirada por grandes mulheres

Sandra Comodaro: inspirada por grandes mulheres, ela se torna uma liderança feminina

Presidente do LIDE Mulher Paraná, ela é responsável por implementar a sede regional de um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil

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Aos 17 anos, ela conseguiu seu primeiro emprego: uma posição temporária, para cobrir as férias da secretária de um diretor comercial em uma indústria de tecelagem no Brás, um distrito popular na região central de São Paulo. Em 15/20 dias veio a efetivação como secretária executiva titular do presidente da companhia. Ficou lá por 11 anos.

À dobradinha sorte + trabalho – “é sempre essa dupla” –, Sandra Marchini Comodaro, advogada e managing partner da Nelson Wilians & Advogados Associados, presidente do LIDE Mulher Paraná e jurada do Prêmio Personalidades TOPVIEW | Grupo RIC 2018, atribui sua brilhante trajetória. A fonte dessa dedicação à vida profissional provavelmente vem de berço. A advogada cresceu assistindo ao pai fazer carreira em uma empresa de transportes, até chegar à presidência.

Com uma trajetória na advocacia que beira os 20 anos – 15 deles na NW, um dos mais renomados escritórios do país –, foi há 10 anos que ela topou seu maior desafio: sair da zona de conforto, em São Paulo, e tocar em solo curitibano a primeira unidade da NW no Sul do país – a partir do zero. Uma empresa que tem 29 unidades próprias no Brasil, 2.300 colaboradores, 17 mil clientes e 700 mil processos em trâmite.

“Nunca fomos tão acionados com empresas que querem fazer investimentos nos estados. Esse é o termômetro.”

Em Curitiba desde então, ela se diz completamente adaptada à capital paranaense – exemplo disso é o Título de Cidadã Honorária do Paraná que a advogada recebeu em 2017 na Assembleia Legislativa. “Já falo até ‘daí’”, brinca.

Há pouco mais de um mês ela lançou, em um grande evento no Castelo do Batel, o LIDE Mulher Paraná, com talk de Nadir Moreno, presidente da gigante UPS Brasil e cabeça do LIDE Mulher nacional, e Cristiana Arcangeli, empresária e apresentadora do programa Shark Tank Brasil do Canal Sony. Foi escolhida, segundo Heloisa Garrett, CEO do LIDE Paraná, pelo perfil solícito e proativo e por colocar a entidade acima das pessoas.

Entenda, na entrevista a seguir, como a advogada trilhou seu caminho de sucesso, sua análise da posição das mulheres no meio corporativo, as transformações que almeja enquanto presidente do LIDE Mulher Paraná e o que essa workaholic faz para se desligar do trabalho.

“Até 20 anos atrás [as mulheres] mal conseguiam terminar um casamento mal sucedido, quem dirá olhar um cargo lá em cima, a presidência de uma companhia.”

TOPVIEW: Como foi o início da sua carreira como advogada?
Sandra Marchini Comodaro: Enquanto trabalhava em uma empresa de tecelagem, fiz Administração com ênfase em Comércio Exterior e via muito de Direito Internacional, analisava contratos… Quer dizer, o jurídico já estava flertando comigo (risos). Quando me dei conta, vi que precisava fazer Direito. Fiz e precisava, então, me dedicar a passar na prova da OAB. Mas eu não ia conseguir se continuasse trabalhando no ritmo em que eu estava. Trabalhar incansavelmente é um pouco da minha natureza. Queria sair da empresa, mas não queriam me deixar. Eu crio raízes onde eu passo, é assim que eu sei trabalhar. Mas conseguimos negociar e, seis meses depois, passei na OAB. A Nelson Wilians fazia um trabalho ou outro para a empresa em que meu pai trabalhava e ele disse: “Vai lá, fala com eles, é um escritório bom”. Fui e me apresentei ao então sócio do Nelson Wilians, Marcos Rodrigues Pereira, que era o contato do meu pai. Ele falou de uma posição em Curitiba, para ser advogada, e de outra em São Paulo, para cuidar da área institucional, de relacionamento, de trazer novos negócios para o escritório. Pensei: “Meu Deus, não conheço ninguém, como vou fazer relacionamento?”, mas também não conhecia Curitiba nem a passeio… Optei por São Paulo e comecei a descobrir um talento meu que eu desconhecia [de prospectar novos negócios]. Por isso eu falo, a gente tem que pensar fora da caixinha, às vezes tem um talento que nem você conhece.

Hoje, você responde pelo escritório em todo o Paraná. Atende mais de mil clientes, as maiores empresas do estado nos segmentos de educação, construção, transportes, refeições, atacado… Quais desafios enxerga atualmente na sua carreira?
Curitibano é bastante cético, demora muito para acreditar que você vai dar conta do recado, ganhar confiança. O meu objetivo hoje é a verdadeira consolidação do escritório no Paraná, regionalmente falando. A gente tem bons escritórios daqui, tradicionais. Mas estamos no caminho da consolidação. Quando comecei, a gente só tinha a área tributária, hoje já tem cível, cobrança, trabalhista e auditoria trabalhista. Somos um escritório full service, mas atendemos todas as áreas de Direto só em São Paulo e Brasília. Quero trazer esse conceito também para cá.

“Quando eu vou ler ou assistir a alguma coisa, sempre penso ‘o que vou ganhar com isso?’”

Como avalia a evolução do papel da mulher no ambiente corporativo ao longo desses mais de 20 de anos de carreira?
Há uns 10 anos a gente não via tantas mulheres assumindo cargos de liderança ou querendo assumir. Afinal, uma coisa é colocar uma mulher pra assumir um cargo importante, outra coisa é a mulher querer. Hoje, a gente vê que elas estão assumindo por querer, não só porque alguém quis que ela estivesse lá. A mulher luta hoje para estar em pé de igualdade com o homem. O papel do LIDE, nesse sentido, é trazer um conteúdo, é mostrar que ela pode ocupar um cargo de liderança, trazer casos, experiências de mulheres que já deram super certo. E eu posso citar uma pessoa que é simples de tudo – a Rachel Maia, que presidiu a Tiffany no Brasil e a Pandora e agora está na Lacoste. Ela conseguiu quebrar paradigmas. Uma mulher, negra, de família de operários… As mulheres estão nesse afã de transformação e, realmente, até 20 anos atrás elas mal conseguiam terminar um casamento mal sucedido, quem dirá olhar um cargo lá em cima, a presidência de uma companhia.

 
 
 
 
 
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….esta noite, encontro na @marthamedeirosreal a convite do @bancosafra, falando sobre momento econômico do Brasil #conscientização Look @lacoste

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Foi nesse contexto que surgiu o LIDE Mulher Paraná?
A gente tem dois propósitos muito claros: fazer uma agenda intensa de eventos muito qualificados, trazendo pessoas que são referência no que fazem, e promover networking para a geração de negócios. O LIDE global recebe 150/200 convidados. Se há 10 mulheres, é muito! Até ontem eu estava com o presidente de uma companhia que a gente atende e ele falou: “Você acha que vai dar certo, isso do LIDE Mulher? Tem tantas mulheres assim em cargos de liderança?”. Pois é. Tem. Elas só não foram descobertas. Ao lançar o LIDE Mulher, eu vi o tanto de grupos, confrarias, negócios regidos por mulheres que tem. A gente quer criar um grupo sólido de mulheres executivas que estão em grandes cargos para que elas participem também do LIDE Global, convivam com os homens.

Em seu discurso, no lançamento do LIDE Mulher, em Curitiba, você trouxe um dado do Fórum Econômico Mundial que estipula um fim para a disparidade de gênero no mercado de trabalho mundial apenas para daqui 170 anos. Nesse sentido, de que forma o LIDE Mulher pode estimular a criação de um ambiente mais igualitário no mundo corporativo?
Você sabe que eu aprendo mais analisando o que a pessoa fez de certo, de errado, do que em uma aula de MBA e liderança? A gente vai fomentar bastante mentoria aqui, o que deu certo, o que deu errado, debater os caminhos percorridos. É claro que a gente vai trazer também especialistas em liderança, mas as iniciativas, os exemplos, eles arrastam, inspiram. Pessoas que deram certo e possam nos ajudar a pensar um pouco fora da caixinha.

“A Lava Jato transformou o país e eu falo isso expressamente para a Rosângela [Moro]. As pessoas estão pensando diferente.”

Já sofreu preconceito por ser mulher?
Não só senti como sinto. Faço parte de diversos conselhos de classe, do LIDE, de outros grupos, e mesmo na NW, às vezes, eu sou a última a ser ouvida. Percebo até que é involuntário, mas eu percebo. Hoje nem tanto, mas no início, “quem é ela?”, “por que ela está lá?”…

Quais mulheres reais te inspiram?
A Luiza Trajano [empresária que comanda a rede varejista Magazine Luiza] me inspira muito, porque hoje ela não precisava trabalhar e continua lutando à frente do Mulheres do Brasil [grupo composto por mulheres de vários segmentos e que busca discutir e propor ações-chave, do qual Sandra também faz parte]. A Sônia Hess [ex-presidente da Dudalina] também, pois se destacou entre 13 irmãos na presidência da marca, e pelo seu desapego em vender a empresa para a Restoque. Regionalmente, a Clemilda Thomé. Hoje, você olha e acha que ela sempre foi assim, mas ela batalhou muito para estar lá, matando 10 leões por dia. Outra que, sinceramente, não precisava mais trabalhar. Para mim, ela é um exemplo!

Optou por não casar? E quanto a filhos?
Ah, eu tenho sobrinhos (risos). Fui noiva por muitos anos, mas não casei. E não foi por causa do trabalho. Acho que não era para casar, não achei a pessoa certa ainda. Eu cuido de dois estados hoje, Curitiba e uma operação grande em São Paulo, na área de M&A [sigla do inglês para Mergers & Acquisitions, termo referente a processos de fusão e aquisição, objeto atual de estudo dela]. Se eu tivesse casado, eu teria largado ele, ou ele teria me largado (risos). Mas não foi por isso. Foi por não ter achado a pessoa certa mesmo.

“Ao lançar o LIDE Mulher, eu vi o tanto de grupos, confrarias, negócios regidos por mulheres que tem.”

Em algum momento você se desliga do trabalho, certo? E faz o quê?
Massagem. É um boleto que todo mês eu pago (risos). Faço de três a quatro vezes por semana, é maravilhoso, a única coisa que dá tempo.

Netflix, cinema…
Ah, assisto a filmes, vou à igreja, não abro mão, pelo menos uma vez na semana [ela é evangélica]. Passeio no Parque Barigui quando dá tempo… Adoro o Pobre Juan e o La Varenne [ambos restaurantes no Pátio Batel], gosto de comer fora, leio bastante…

O que está lendo agora?
É um livro de M&A. Quando eu vou ler ou assistir a alguma coisa, sempre penso: “O que vou ganhar com isso?”. Sou muito acelerada, então, o que vou assistir deve ter alguma utilidade na minha vida empresarial.

E na hora de se vestir, tem alguma preferência?
Gosto da Mixed, Le Lis Blanc, Brooksfield Donna… Mas sinto falta de ter uma personal stylist. A gente perde muito tempo indo em loja, tendo que escolher, se virar nos 30.

E quanto a um futuro na política?
Não, zero, não é meu perfil. Eu gosto muito da vida empresarial, daqui eu só quero ter um filho, se Deus me der, cuidar da vida e aprimorar aquilo que já está sendo feito no escritório, minha vida social, pessoal.

2018 foi um ano…
De desafio superado e persistência. A todo momento a gente tentando mudar uma realidade. Foi um ano no qual precisamos ter muita fé, acreditar nas pessoas.

Ele também foi um ano marcante para a sociedade brasileira. Como acha que ela se transformou?

A Lava Jato transformou o país e eu falo isso expressamente para a Rosângela [Moro]. As pessoas estão pensando diferente. O Mensalão transformou o país. Casos como os de João de Deus e de Roger Abdelmassih transformaram o país. As pessoas sabem hoje os direitos delas. As redes sociais ajudaram muito as pessoas, é só olhar. Eu estou otimista. O Brasil acena por dias melhores. Temos estruturas no país todo e a gente atende as melhores empresas em cada estado. Nunca fomos tão acionados com empresas que querem fazer investimentos nos estados. Esse é o termômetro.

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