Uma conversa com Artur Grynbaum, o presidente do Grupo Boticário

Bendito fruto entre as mulheres: uma conversa com Artur Grynbaum, o presidente do Grupo Boticário

Executivo de sucesso em uma indústria milionária dominada pelo universo feminino, ele é a nova cara do empresário brasileiro

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O despertador toca. São seis horas da manhã. Talvez um pouco mais. O certo é que em meia hora Artur Grynbaum já estará pronto para seu primeiro compromisso na disputada agenda de presidente do Grupo Boticário. Não se trata de uma reunião de diretoria ou uma palestra em um evento de negócios. A tarefa é uma corrida no parque, agendada como inadiável para as primeiras horas do dia. Eu, que me divido em mil na rotina diária para dar conta dos compromissos e até hoje não encontrei a fórmula de vencer a preguiça para o exercício matinal, não consigo evitar a pergunta: “Como você consegue?” Ele responde com outra pergunta: Se você agendasse uma reunião comigo às 6h30 da manhã não estaria aqui na hora combinada em ponto?” Respondo: “Claro que sim”, lembrando da maratona que tivemos que vencer para encontrar uma brecha na agenda do executivo para esta entrevista. “Pois então. Esse é o raciocínio. Marco como uma reunião importante. Encaro com a mesma disciplina um compromisso profissional e a minha rotina de exercícios.”

Quem duvida pode tirar a prova. Pelo menos três vezes por semana ele está lá, na pista de corrida do Parque Barigui. Durante o horário de verão, faz como qualquer mortal curitibano: aproveita o bom tempo do final do dia pra correr mais alguns quilômetros. Não chegou ao nível de um atleta – o que, devemos admitir, seria exigir demais – mas participa de competições de meia-maratona em que o percurso total chega a 21 quilômetros. Disputa provas não apenas no Brasil, mas fora também. A mais recente foi em Israel. As viagens são uma mistura de turismo e diversão, das quais participa com um grupo de amigos. O roteiro inclui a escolha de um país para passear e outro para correr. Fazem o percurso pelas ruas. Depois da visita à cidade de Jerusalém emendaram uma corridinha pelas ruas da Rússia. A 20 graus negativos.

É com a mesma determinação de uma meia-maratona que Artur encara o dia a dia da presidência do Grupo Boticário, cargo que ocupa desde 2002. Ele chega para a entrevista apressado, mas logo abre o sorriso largo e, aos poucos, a gente se sente batendo papo com um amigo na mesa de bar. “Você tem pressa de quê?”, provoco. “Fizemos novas escolhas estratégicas e queremos atender bem o consumidor, que cada vez mais escolhe marcas conectadas e ele”, responde e, logo em seguida, desconversa quando credito a ele o crescimento espetacular obtido pelo Grupo nos últimos anos. Ele deixa claro que o Boticário sempre esteve em crescimento desde os anos 1970, quando o alquimista que transformava deo colônias em ouro era o cunhado – e grande amigo – Miguel Krigsner, hoje presidente do Conselho de Administração e eterno conselheiro de Artur.

Artur estipula desafios próprios, que vão além das metas definidas pelo Grupo. Em 1996 assumiu a liderança de um projeto de redesenho da empresa, que tinha como base a revisão do planejamento estratégico e das operações. O objetivo era manter a lucratividade da marca em um período de incertezas econômicas e encarar a ameaça de entrada de concorrentes internacionais no Brasil. O processo fez com que a empresa investisse em uma administração profissional, cortasse desperdícios, alterasse os processos produtivos e estabelecesse indicadores concretos de desempenho, como a satisfação do consumidor e dos empregados, a participação no mercado e o volume de vendas. Ao final dessa longa etapa Artur conquistou o cargo de diretor financeiro, acumulando poucos meses depois a diretoria comercial. Prometeu a si mesmo que fecharia o ano 2000 com 2 mil lojas de O Boticário. A conquista da meta pessoal e o sucesso no redesenho da companhia o credenciaram a assumir o mais alto posto da empresa dois anos depois. “A sucessão na presidência foi tranquila. Hoje o Miguel não se envolve na rotina operacional, mas estamos sempre um ao lado do outro”, conta. O legado do amigo, no entanto, permanece. “Aprendi com ele que o cuidado com os detalhes faz toda a diferença e que, muitas vezes, é preciso fazer o que o coração manda.”

Desde que Artur passou a se sentar na cadeira dourada do Grupo Boticário, a empresa mata de inveja os concorrentes: em 2012, apenas a marca O Boticário – maior franquia de cosméticos do mundo – faturou em vendas R$ 6,9 bilhões. São seis mil colaboradores diretos empregados em todo o Grupo e 3.700 lojas, incluindo as caçulas Eudora, quem disse, Berenice? e The Beauty Box – marcas criadas a partir de 2011.  Recentemente, O Boticário foi escolhida como a Empresa do Ano no Prêmio Atualidade Cosmética, considerado o Oscar do setor. Também levou para casa o troféu de Melhor Franquia de 2013 (prêmio promovido pela revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios). Foi-se o tempo em que Artur era o cunhado do Miguel. Ele tem história para contar.

Samuca Modas

Artur Grynbaum é o bendito fruto entre as mulheres de uma família judaica de origem polonesa, cujo patriarca fugiu da guerra para tentar a vida no Brasil. O pai teve três filhos: Artur e suas duas irmãs, que lhe deram quatro sobrinhas. As tias – ironia do destino – seguiram o mesmo caminho e tiveram apenas filhas. “Pedi a Deus para viver rodeado de mulheres”, brinca. No Boticário convive com uma equipe de colaboradores em que 60% faz parte da ala feminina e grande parte da receita vem da venda de produtos pensados para elas. Para entender “do que as mulheres gostam” ele lê revistas femininas, gasta a sola do sapato visitando as lojas e conversa com as consultoras. “Tenho muita paciência de falar sobre maquiagem e, além do mais, sou curioso.”

No primeiro emprego, no entanto, teve que enfrentar uma clientela mais diversa. O pai tinha uma pequena loja na Praça Generoso Marques, no centro de Curitiba, que vendia artigos para toda a família. Hoje, a Samuca Modas pertence a um tio e continua firme no mesmo lugar. Foi lá que Artur começou a trabalhar como guardador de banca, profissão que nos dias de hoje caminha para a extinção. Cabia a esse profissional – em geral menor de idade – zelar pela banca, que costumava ficar na porta de entrada das lojas e atraía a clientela com as ofertas do dia. Com um pouco de sorte, ao completar 18 anos, o guardador de banca foi promovido a vendedor, função na qual poderia engordar o salário com as desejadas comissões de venda. A ambição de Artur, no entanto, não era ser vendedor. Ele queria mesmo era trabalhar com o cunhado, que começava uma pequena farmácia de manipulação onde os cremes eram misturados na batedeira caseira da esposa – um presente de casamento que ganhou novo e nobre uso. O cunhado? Miguel.

Miguel Krigsner casou-se com Cecília quando Artur, irmão da noiva, tinha dez anos. Ele viu nascer e crescer O Boticário e, desde sempre, esperou pelo dia em que faria parte da empresa. “Matava aula para ir até o laboratório”, lembra. A amizade genuína, combinada pelos talentos complementares – Artur sempre foi o olhar financeiro e comercial, enquanto Miguel dominava a lógica das operações e da manufatura – foi um impulso para a sociedade, estabelecida anos depois. “Sempre tivemos uma ótima relação.” Mas ainda que admirasse o rapaz, Miguel não queria se indispor com o sogro e “roubar” o funcionário da Samuca Modas e de outras pequenas lojas da família. Restou a ele ser promovido a office boy, função que deu a ele a oportunidade de vivenciar tudo o que envolve a administração de um negócio. “A loja é uma pequena grande escola. Despertou-me para o varejo.”

Na década de 1980, o cenário mudou. O recém-lançado Plano Cruzado colocava à prova a estabilidade de O Boticário. Miguel precisava de um braço direito para cuidar das finanças da empresa e para isso contratou um profissional com reconhecida competência. Ao lado dele, era necessário também ter alguém de sua máxima confiança. E para ocupar o cargo ninguém tinha melhor perfil que o jovem Artur, então com 17 anos. Miguel pediu a benção ao sogro, que liberou o filho para assumir a função de assistente financeiro na empresa do genro. Ele deu adeus à Samuca Modas e fincou os dois pés no Boticário. Nunca mais saiu de lá.

*Matéria publicada originalmente por Luciana Zenti na edição 158 da revista TOPVIEW.

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