CULTURA ARTES

In the future, is this art?

As novas tecnologias alteraram a forma de expressar, criar e consumir arte. Esse movimento, no entanto, é capaz de definir o futuro da arte?

A arte acompanha a civilização desde os primórdios. Com uma vasta e complexa história, ela foi expressada nas primeiras telas da humanidade, as paredes de cavernas. Desenhos simples, mas que exigiam muito de seus artistas – homens de Neandertal –, que criavam suas próprias tintas por meio de insumos naturais. Certamente, o conceito de arte nem era discutido pelos neandertais, mas isso mudou muito ao longo dos anos e do desenvolvimento da civilização.

Uma coisa é certa: a arte nunca deixou de existir, nunca deixou de acompanhar a humanidade e, claro, nunca deixou de se desenvolver e se renovar. Toda a história da civilização está conectada à história da arte. Movimentos artísticos nascem em reflexo de movimentos políticos, por exemplo. Não há como separar uma coisa da outra.

(Foto: Reprodução)

Um fator que vem mudando o curso da história e acelerando muitos processos é a tecnologia. Seus efeitos são a digitalização de muitas coisas, porém, ela também traz um movimento contrário, que continua enaltecendo relações físicas e processos manuais. O certo é: a arte está mudando e não há como defini-la, mas há como acompanhá-la.

Os artistas, que são quem, de fato, estão imersos nesse mundo, experimentam o universo da arte de maneira única, tornando-a mutante, assim como eles próprios. Seguem o movimento, mas também o criam. Bruna Pereira, artista visual, começou a trabalhar com arte há 8 anos, quando passou a tatuar. Como muitos artistas que estão começando no mercado, Bruna costumava reproduzir o que seus clientes pediam e dificilmente tinha liberdade criativa para mostrar sua própria identidade.

Após fazer experimentações artísticas e encontrar sua voz dentro de seu próprio trabalho, a pandemia acabou com as sessões de tatuagens de Bruna. Por segurança, suspendeu seu trabalho como tatuadora e encontrou outras formas de ganhar dinheiro. “Fui conversando com amigos e vendendo pinturas de forma online, e entregava-as na casa das pessoas”, afirma a artista. 

Foi então que Bruna, de fato, teve um contato próximo com os NFTs. Um termo muito comentado atualmente, mas que ainda é um mistério para muitos, NFT é um “token não fungível”, ou seja, uma mercadoria cujo o valor pode variar de acordo com as especulações em volta dela. 

(Foto: Reprodução)

Como artista manual, Bruna, a princípio, não via como sua arte poderia se encaixar em um meio digital. “Em NFT, você vê muita coisa digital e em animação. Por isso, não via como meu trabalho se encaixa nisso”, conta Bruna. A artista, portanto, se reinventou e descobriu uma forma de expressar suas telas no mundo digital. Hoje, ela cria uma série de quatro pinturas, que monta em programas de edição, e faz um GIF. Ela comercializa sua arte por meio de uma plataforma de criptomoedas, que a forma que os NFTs podem ser adquiridos.

Outros dois artistas que entraram, recentemente, no mundo dos NFTs são o casal Gabrielli Laskoski, fashion designer, e Gabriel Couto, designer. Segundo eles, para todos aqueles que se expressam por meio da arte ou qualquer tipo de produção audiovisual, o meio digital é o principal futuro promissor. “Dessa forma, ficar de fora do mercado de NFT seria algo de que nos arrependeríamos futuramente. Em pouco tempo, esse mercado já foi capaz de transformar a vida profissional de diversos artistas que, antes, não tinham seu devido reconhecimento, principalmente aqueles que já faziam arte digital há bastante tempo”, afirmam.

Esse novo mundo de Gabrielli e Gabriel, no entanto, não é tão novo para a Airez, galeria de arte exclusiva para NFTs no Brasil. Com uma visão mais modernista desde sua criação, em 2015, a Airez já sediou, em 2018, a The Wrong New Digital Art Biennale, um dos maiores eventos de arte digital do mundo. Por isso, quando os NFTs surgiram, Guilherme Zawa, artista visual e curador da Airez, viu uma grande oportunidade.

Diversos artistas já trabalhavam com arte digital, no entanto, não sabiam como comercializar aquilo. “Eles pensavam: ‘vou comprar um tablet, salvo a arte lá e vendo para essa pessoa ou entrego em um pen drive’. Mas como carregar R$ 10 mil em um pen drive? Os NFTs resolveram isso”, afirma o curador.

Atualmente, a galeria, que já foi física, fica apenas no ambiente digital, em um site. Lá, há diversas obras de artistas em NFT disponíveis para venda. A nova forma de consumir arte, para Zawa, é positiva, já que isso se tornou muito mais acessível e democrático para os próprios artistas. “Há críticas de que tem gente vendendo qualquer coisa com preço caro. Acho que devemos focar aquilo que é positivo: e os NFTs podem furar a bolha de inacessibilidade da arte para quem produz – já que é muito mais barato fazer arte digital – e trazer todos os artistas das novas mídias”, conclui.

Ele se refere, por exemplo, às críticas feitas sobre a venda da arte digital do artista Beeple, que arrecadou US$ 69 milhões, em março de 2021, comercializada como NFT. Isso gerou diversas discussões sobre como o novo modelo de consumir arte é realmente acessível quando há valores exorbitantes como esse. Um recente texto, escrito por Thom Waite e publicado na Deezed Digital, reforça o discurso de que o NFT não deve ser chamado de revolucionário. 

“Os NFTs de muitos compradores são menos como obras de arte reais e mais como espaços reservados para suas criptomoedas, atuando como símbolos de status – avatares do Twitter ou postagens do Instagram – até a hora de sacar. Os investidores não costumam discutir seus NFTs em termos de aparência ou significado mais profundo. Em vez disso, eles falam sobre transações”, afirma o autor do texto.

Arte e outras tecnologias 

No entanto, não é apenas por meio dos NFTs que a tecnologia influencia a arte. A artista multimídia Carolina Dias de Almeida Berger mostra, por meio do seu trabalho, como é possível ligar a expressão do corpo à tecnologia. Desde 2012, Carolina pesquisa sobre o tema. “Quando vi que as pessoas acreditavam no que viam nas redes e produziam histórias falsas, percebi que elas não estão conscientes do que fazem — e fui me voltando para o corpo, buscando esse resgate”, afirma.

Hoje, a artista possui diversos projetos e, em alguns deles, cria dispositivos que computam dados corporais e os transformam em expressão. “Nós temos um corpo, que pode ser uma interface de ações e movimentos. Com isso, podemos fazer muitas coisas na arte, inclusive criar uma série de dados e, disso, criar imagem e som”, conclui a artista. Um dos projetos de Carolina que expõe isso é o Corpo Artifício, que faz uso de realidade aumentada, expressando os movimentos da artista.

O artista das coisas manuais

“O que é arte para mim? Puxa, essa é a pergunta de ouro. De maneira bem pessoal, é colocar em prática o que está na minha cabeça, o que imagino e, por meio da arte, conseguir trazer isso ao mundo. É uma expressão de quem eu sou.” Esse é o relato do artista e empreendedor Lucas Garcia, também conhecido como “Desgosto” em seu estúdio de tatuagem.

Tangível. Esse tem sido o presente artístico de Lucas. Após anos trabalhando com design gráfico, em que era preciso criar – mas de acordo com um pedido comercial –, o artista resolveu mudar de área. “Já trabalhei como designer gráfico, só que não gostei muito. Tentei trabalhar por conta própria, mas estava fazendo o que o cliente queria quando, na verdade, eu queria fazer o que era certo a se fazer. Por isso, fui buscar uma forma mais autoral de trabalhar”, afirmou o artista.

A princípio, encontrou sua voz por meio da tatuagem. Mas, conforme os anos foram passando, sentiu que apenas aquilo não era o suficiente. “Foi quando comecei a fazer produtos para vender. No início, era mais um hobby, algo para me distrair da tatuagem”, conta. Porém, a nova expressão de arte de Lucas se tornou sua principal fonte de renda. “Assim, eu acho que a produção fica totalmente autoral, não tem ninguém pedindo o que fazer ou encomendando…eu mesmo crio e comercializo.”

O movimento do artista, apesar de ir em um caminho diferente de muitos que migraram para o mundo digital, é o futuro da arte, já que vai pelo mesmo caminho dos NFTs, por exemplo. “O que eu vejo é uma liberdade de produção, em que o artista consegue viver dela”, conclui Lucas.

Então este é o futuro da arte?

Vendo que a arte caminha junto com as expressões e reações da sociedade, seria possível prever qual é o futuro da arte? A professora e doutora de História da Arte da PUCPR Daniele Saucedo, conta que a “arte é” um termo inventado pelos humanos, mas que o homem tem necessidade de registrar sua vida desde sempre.

“Eu penso que a arte é o reflexo imediato do nosso contexto. Neste momento, estamos vivendo em uma época em que a arte tem outros tipos de linguagem, como vídeoarte, por exemplo, algo inimaginável anos atrás. É o mesmo caso dos NFTs. Não sei se essas linguagens vão permanecer, é algo bem desse momento, um meio de comunicar”, afirma.

Portanto, com tantas novas formas de expressar e consumir arte, é possível detalhar como será o futuro do setor? Pelo que os estudiosos do meio dizem, não há como ter certeza, mas, sem dúvidas, algo está em movimento. E é muito importante que isso seja acompanhado — bem de perto! 

*Matéria originalmente publicada na edição #259 da revista TOPVIEW.

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