Sentimentos legítimos - TOPVIEW

Sentimentos legítimos

Em meio a medos e incertezas, nova embaixadora de comportamento da TOPVIEW pretende analisar a versão humanizada da sociedade

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Entender a mente humana é o trabalho de profissionais seletos. O psicanalista, por exemplo, avalia o ambiente no qual o indivíduo está inserido e todas as informações que recebe para poder orientar o paciente da forma mais humana e sensível possível – sem, é claro, perder o profissionalismo. E com uma pandemia em curso, como a sociedade tem enfrentado o dia a dia e seus desafios? De que forma as pessoas deverão reagir após o coronavírus não ser mais um empecilho para quase tudo? E mais: como analisar a realidade de forma humana? É para analisar essas e outras questões que a TOPVIEW apresenta sua nova embaixadora de comportamento: a psicanalista, palestrante e autora de três livros, Lígia Guerra. Confira a entrevista:

Qual a sua trajetória profissional?
Não foi uma escolha pronta, foi uma caminhada. Eu nasci em Blumenau, minha família inteira é de Santa Catarina. Cheguei em Curitiba em meados de 1990. Meu pai veio transferido para cá por causa do trabalho dele. Um dia, saindo do cursinho, recebi uma proposta para começar a trabalhar como modelo, algo bem inesperado para mim. Como queria juntar uma grana – porque ainda não tinha exatamente ideia do curso que eu viria a realizar – foi uma oportunidade muito legal. Quando passei no meu primeiro vestibular, não me identifiquei com o curso. Abri mão desse caminho e migrei para a psicologia, um curso que tinha plena conexão comigo e que abraçou a minha proposta de vida!

Como você entendeu o caminho que queria seguir na psicologia e na escrita ao longo do tempo?
A única paixão que eu sempre tive certeza que teria na vida, que foi o meu primeiro grande amor, foi a escrita. Eu comecei a escrever aos sete anos de idade. Então, a escrita veio muito antes da psicologia. E os meus pais, embora estranhassem na época – eu digo que, felizmente, tenho os pais malucos o suficiente para acreditarem nas minhas loucuras – me incentivavam a participar de concursos de poesia. Só que, como eu era uma menina e os concursos eram com pessoas adultas, começaram a abrir exceções nos lugares que eu queria participar. Quando eu estava com uns 13 ou 14 anos, entrei para uma competição de crônicas e peguei terceiro lugar no meio de vários jornalistas. Aquilo para mim, foi muito simbólico. E eu cresci com isso. 

Como é a relação com a sua família e seu marido? E como é o seu dia a dia?
Então, eu tenho um marido e ele é ortopedista. É especialista em cirurgia de ombro e joelho, uma pessoa que sempre me deu muito apoio a tudo. E os meus pais, da mesma forma. Nunca foram pais do “você tem que”. Pelo contrário, eles sempre falaram que “o mundo está aí, siga isso”. Eu tenho um irmão que tem um filho e a esposa. Me dou bem com todo mundo. A família do meu marido é uma família que eu também me dou bem. Não temos aqueles conflitos familiares, é todo mundo tranquilo. E o meu dia a dia é de muita luta. Eu estudo muito, escrevo… estou produzindo mais um material e pensando em transformar em um novo livro. Então, digo assim: vida de psicanalista não é fácil. São muitos pacientes, a gente tem que preparar pautas para as colunas, livros… eu, particularmente, gosto de cozinhar. Por ser neta de agricultores, é um gosto. Amo viajar, já conheço uma boa parte do mundo. Acredito que esse é um dos dinheiros melhor investidos.

Qual que é o destino que você mais gostou?
Um país que me surpreendeu muito foi a Áustria. Viena foi um lugar que me chamou muito a atenção pelo respeito que eles têm com tudo lá, na limpeza. Eu acho que eu nunca vi um país tão limpo, tão organizado e que eu andasse de madrugada de forma tão leve. Em termos de surpresa, destaco Istambul, um país que mexeu muito com a minha maneira de acreditar na vida. A Grécia também é linda, me tocou muito. Um lugar muito pequeninho que eu amei conhecer na Itália foi Positano.

Com a pandemia e o isolamento, muitas pessoas estão com a saúde mental prejudicada. Qual a sua percepção sobre isso principalmente quando falamos sobre a exposição na internet?
Eu sinto que a pandemia roubou de nós a noção de perspectiva. As pessoas tiveram que cancelar casamentos, cancelar viagens… eu mesma tinha uma viagem e não pude ir. Isso é o de menos, mas nos faz perder a liberdade. Eu estou sem ver meus pais desde março e é super estranha essa sensação de estar com seus pais tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Mas o que eu acho mais lindo dessa pandemia é o quanto a gente está dando de provas de amor. Na medida em que a gente abre mão de estar perto para logo mais poder estar junto com segurança. É o momento em que a gente tem que abrir mão do nosso “egoísmo” de querer a coisa do momento para colocar a coisa para o depois, nos ensinando a ter resiliência. Porque nós sairemos, invariavelmente, traumatizados disso. Não tem como não sair. Eu acredito que todo mundo vai voltar para a sociedade muito feliz por um lado, mas muito traumatizado por outro. Imagine que qualquer mínima percepção que possa ter alguma gripe no ar, a gente vai perceber uma mudança física de ansiedade e uma mudança emocional nas conversas porque hoje a gente tem um trauma. E esse trauma vai demorar para superarmos. Então, nisso a gente tem que voltar também no pós-pandemia com muito mais sensibilidade para as nossas relações. 

Qual a dica para esse momento?
Não surte “por surtar”. É uma pandemia, não são férias. Seja mais acolhedor consigo mesmo, não fique se criticando pelas coisas, observe o que você não dá conta ao invés de ficar criticando. Porque quando a gente critica, a gente refuta. Quando a gente observa, a gente pode transformar. Então, em vez de ficar rejeitando aquilo que você não curte tanto em você, observe mais. Se acender o sinal vermelho, é porque as suas emoções querem contar alguma coisa sobre você. Preste atenção. 

Qual a sua expectativa em relação a embaixada na TOPVIEW? 
Humanizar as pessoas. Porque nós estamos falando disso, do humano. Eu quero humanizar aquilo que a gente perdeu. Parece que a gente desaprendeu a ser humano. O que eu sinto? Estou atendendo gente de roupão em casa, gente que está na cama com o laptop e pega o cachorrinho… estou vendo um lado dos meus pacientes tão lindo e eu me sinto tão honrada por eles abrirem esse espaço. O paciente não vai montado para a consulta. Tem gente, bem pelo contrário, que vai para casa e se desmonta. Essa coisa de as pessoas se verem bem sendo elas mesmas… Estou com raiva? Um sentimento super válido. Ok, sinta a sua raiva. E depois, você faz o que com ela? Não é a gente querer construir uma coisa de perfeição. Eu acredito que esse lado mais real das pessoas é o que eu quero abordar na coluna. Não que a revista não tenha isso. A gente é moda, é glamour, é viagem… é tudo super gostoso. Mas o dia em que não somos isso tudo, também podemos ser felizes. 

*Matéria originalmente publicada na edição #239 da revista TOPVIEW.

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