O teatro resistente de Nena Inoue

O teatro resistente de Nena Inoue

Artista comemora 40 anos de carreira com mostra especial no Festival de Curitiba

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Nena Inoue não é dada a fazer festa para celebrar a própria história. “Achava esse negócio uma breguice”, contou, em uma conversa no Espaço Fantástico das Artes, no São Francisco. No ano em que completa quatro décadas de carreira, no entanto, a artista curitibana acabou convencida por amigos. Não são 40 anos de teatro, argumentaram. São 40 anos de resistência.

“Fazer teatro neste país não é bolinho”, esclarece Nena, que começou a atuar em 1978 no grupo Nós, de Laerte Ortega (1952-1996), aos 17 anos. Nunca mais viveu de outra coisa — ainda que se desdobrando em produção, direção e gestão. “Estou fazendo isso para que as pessoas tenham [minha carreira] como referência de que é possível”, diz.

Daí o evento Nena Inoue — 40 anos de Resistência, uma espécie de “encontro” em que serão expostos painéis com registros da carreira da artista no dia 7 de abril. A festa fecha a programação Curitiba Mostra/Outras Leituras, evento de espetáculos gratuitos realizado pelo Espaço Cênico de Nena há três anos no Festival de Curitiba. Serão 28 apresentações no Espaço Fantástico das Artes — quatro delas com direção da artista. Um dos motes é a literatura dos paranaenses Dalton Trevisan, Domingos Pellegrini e Wilson Bueno. Também há Eduardo Galeano, ponto de partida para a dramaturgia de Francisco Mallmann para o solo Para Não Morrer — trabalho mais recente de Nena nos palcos. O espaço para artistas jovens da periferia na programação, junto com nomes conhecidos da cena artística curitibana, será outro foco.

Nena Inoue em cena da peça Hamlet (Foto: Divulgação).

Na entrevista a seguir, Nena fala sobre as transformações do meio em Curitiba e a importância de espaços de pesquisa alternativos e do teatro em si nos tempos atuais.

Uma das ideias do Curitiba Mostra é reunir pessoas e provocar encontros. Como isso se relaciona com a sua forma de pensar o teatro?
Já faço isso há muito tempo. Tive um espaço chamado Espaço Cênico [criado em 1997], que depois virou ACT (Ateliê de Criação Teatral), quando estava com Luís Melo [em 2001] — e que depois virou Espaço Cênico novamente, minha atual empresa. A gente promovia muitos encontros e trabalhos de formação, trazendo gente de fora, provocando debates de várias áreas. Abrimos mostras de processo de trabalho [ensaios] para as pessoas verem e opinarem.

Essa forma de fazer teatro “pegou” em Curitiba?
De alguma forma, quando vejo companhias de hoje fazendo esses processos abertos e debates, acho que a gente “contaminou”. Me sinto um pouco avó deste povo aí [risos]. Porque muita gente passou pela minha mão no Espaço Cênico em oficinas, encontros, debates, núcleos de pesquisa e como público. E, nesses 40 anos, passou muita gente mesmo, porque são 40 anos ininterruptos de atividade. Não parei de trabalhar nunca.

Por que 40 anos de resistência?
Fazer teatro neste país já não é bolinho. [Ainda mais] numa cidade onde você não vive de bilheteria, porque o público vai ao teatro no Festival, quase como uma obrigação social. Fazer teatro já está na contramão. Criar um espaço alternativo de núcleo de pesquisa, de formação, onde você não tem o produto — que seria o espetáculo, com data de estreia — também é uma lógica na contramão do mercado.

Ter um espaço como esse foi uma novidade em 1997?
Não existia sede de teatro de grupo independente, que se mantinha. Tinha o João Luiz Fiani com o Lala Schneider, que abriu mais ou menos junto com a gente, e só. Aí começaram a vir [outros]. Quando você tem um espaço, consegue experimentar mais, esticar mais o processo de criação e criar esses núcleos de pesquisa. Não se falava nisso. Era ensaio, contrato e atuação. Não tenho nada contra — inclusive faço isso. É só uma característica do nosso trabalho.

“Fazer teatro neste país já não é bolinho. [Ainda mais] numa cidade onde você não vive de bilheteria, porque o público vai ao teatro no Festival, quase como uma obrigação social.”

Como começou a se envolver com formação?
Eu fazia O Vampiro e a Polaquinha [1992], um espetáculo no Novelas Curitibanas dirigido pelo Ademar Guerra [1933-1993], com texto de Dalton Trevisan. É o espetáculo que ficou mais tempo em cartaz em Curitiba. Ficou oito anos consecutivos, com público — um fenômeno. Fui fazer essa peça e dei um curso de teatro para um pessoal no Novelas Curitibanas. Essa turma tinha três meses para apresentar uma peça. Foi um sucesso, e as meninas pediram para que eu continuasse com o grupo. Elas foram atrás desse espaço, uma antiga estufa de bananas nas Mercês, que virou o Espaço Cênico e, depois, ACT, durante 16 anos. Me afastei da atuação, porque fiquei cuidando de fazer o circo girar. Mas não parei de produzir, dirigir, ministrar núcleos e oficinas no espaço.

O engajamento político também é uma questão central para você?
Vivo inventando essas coisas que [juntam] um monte de gente. Estou falando para as pessoas que essa Curitiba Mostra é minha despedida do coletivo. Estou com esse solo [Para Não Morrer] e vou ficar com ele até ficar torta, até o final. Só que aí alguém vem e mata uma vereadora negra no Rio de Janeiro com nove tiros. E aí acho que, se não se juntar, a gente vai ficar silenciado e vão nos calar como estão calando há muito tempo. O histórico do Brasil é esse. Um país de silenciamentos — das mulheres, especialmente. Para Não Morrer fala disso.

Por que optou por nunca sair de Curitiba?
Porque nunca me atraiu, por exemplo, fazer televisão. Nem tenho cara para televisão, inclusive. Mas nunca me seduziu, porque eu tinha filhos e porque gosto de Curitiba. Sou defensora de Curitiba. Acho que o curitibano tem uma autoestima baixa e isso se propaga para o resto do país. Todo mundo acha que aqui só tem dias cinzas, que você nunca vê o céu, que só chove, que aqui neva. Falo que não é verdade.

“As leis de incentivo à cultura do país foram uma deformação. O que aconteceu foi que todo mundo passou a depender delas.”

Como é a sua relação com a geração atual do teatro?
Tenho mais amigos jovens agora do que amigos velhos. Tenho os amigos velhos, mas hoje atuo e faço meus projetos mais com o povo jovem. A pessoa que fez a produção do Curitiba Mostra junto comigo tem a idade de meu filho mais novo. Me relaciono melhor com gente de hoje em produção.

Por quê?
Acho que é porque me identifico. Não estou querendo meter o pau no povo velho, não. Mas acho que tem uma turma que fica muito reclamando, sabe? “No meu tempo”, “na minha época”.

Fala-se que, no passado, era mais comum sair com as peças nas costas atrás de público. É verdade?
Acho que a gente levava nas costas mesmo. A gente fazia porque precisava de público e ia atrás. A gente vivia disso. Você tinha que vender. Acho que as leis de incentivo à cultura do país foram uma deformação. O que aconteceu foi que todo mundo passou a depender delas. O pessoal fala que é um mal necessário. E é, porque incentiva uma produção que é cara. Mas cria um vício e uma deformação do que seria apoio. Hoje, você só consegue [apoio de uma empresa] se tiver lei de incentivo.

“Com essas questões políticas [hoje], o teatro está voltando a ser um lugar de utopia possível.”

Como isso interferiu na relação com o público?
Acho que a nova geração já nasceu nesse processo, em que não precisa ter público para receber o salário do final do mês. Então ela não não se preocupa tanto com a divulgação. Mas acho que isso está sendo revisto, porque agora estamos com menos editais. Tem grupos jovens que se preocupam com o público o tempo todo. Por exemplo: a Selvática. Eles fazem coisas naquela casa sem parar. É impressionante o número de coisas que fazem.

O público era melhor antigamente?
Não sei. Acho que as pessoas estão voltando a ver teatro. Acho que, com essas questões políticas [hoje], o teatro está voltando a ser um lugar de utopia possível. Tenho visto muitos espetáculos com lotação esgotada. Mas acho que o teatro para crianças já foi melhor.

“O teatro me deu uma base humana e de afeto, de construção. Acho que esse é o legado.”

O teatro funciona como uma ilha de utopia para você?
Para mim, o teatro sempre foi muito concreto. Há um tempo me perguntaram qual era meu sonho. Fiquei pensando que nunca tive um. Fui fazendo. E o teatro só existe se você fizer. Não é esse lugar da utopia, esse outro lugar para se atingir. É um lugar muito do dia a dia, muito concreto. Como [o iluminador] Beto Bruel costuma dizer, o teatro me deu tudo o que tenho. Criei meus filhos com o teatro — um deles [Pedro Inoue], inclusive, é ator. Consegui que eles tivessem uma educação decente. Eu não tenho o carro do ano. Nenhum deles tem um apartamento. Mas o teatro me deu uma base humana e de afeto, de construção. Acho que esse é o legado.

Serviço

3ª Curitiba Mostra/Outras Leituras
Espaço Fantástico das Artes_Al. Princesa Izabel, 465, São Francisco. (41) 3077-5009. De 30 de março a 7 de abril. Programação completa na página do evento no Facebook.

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