ESTILO

Literatura: O exército branco

Giovana Madalosso, escritora curitibana radicada em São Paulo, traz em seu novo livro reflexões sobre as relações maternas e dinâmicas do cuidado na atualidade

Antes de entender o que era literatura, Giovana Madalosso já tinha sido atraída pelas palavras. Foram diários, quadrinhos, peças de teatro e até a criação de um novo idioma. Mas foi no português mesmo que encontrou sua narrativa. Não teve como fugir. Passou do jornalismo à publicidade – e chegou aos livros. Sorte a nossa, dos leitores! Seu mais recente lançamento, Suíte Tóquio (2020), foi considerado o segundo melhor livro do ano pela revista QuatroCincoUm.

Sua motivação para escrever é entender a vida – ainda que saiba ser uma empreitada impossível. A obra nasceu justamente da observação de um fenômeno: as relações e as dinâmicas do que chama de “exército branco”, as babás. Maternidade é o tema central, mais especificamente o rapto de uma criança – embora a narrativa perpasse experiências e dinâmicas sociais comuns a todos.

No bate-papo a seguir, feito por e-mail, a curitibana debate a desigualdade de gêneros na literatura, seu processo de escrita e as questões que atravessam seu último livro. Confira:

Em Curitiba, é impossível citá-la sem se atentar ao seu sobrenome, que carrega uma vasta história na gastronomia. Mas você foi para o jornalismo, a publicidade e, mais tarde, os livros. Quando a literatura a puxou?
Escrevo desde que me alfabetizei. Comecei com diários, quadrinhos e peças de teatro encenadas pelos meus familiares. Aos 11 anos, cheguei até a criar uma língua. Coitada da minha prima, Anauila Madalosso, que teve que acabar aprendendo. Lembramos até hoje de algumas frases. O prazer pela leitura também nasceu cedo. Ainda carrego comigo a minha primeira paixão literária, o livro Grimble, de Clement Freud. Ou seja, eu já era apaixonada pela literatura antes mesmo de saber o significado da palavra.

Por que você escreve?
Para entender a vida. Embora saiba que isso é impossível.

Como é seu processo de escrita? É metódico ou caótico?
Não sou metódica. Adoraria ser um desses escritores que escrevem duas horas por dia, mas não consigo, sou oito ou oitenta. Quando embalo em uma narrativa não quero mais parar. Faço tudo pensando na história. Já saí algumas vezes do banho para anotar frases. Esse estado obsessivo, apesar de não ser muito saudável, é o que funciona melhor para mim. Tanto que cunhei o termo “fluxar”. Quando fluxo a narrativa, a caracterização dos personagens fica mais rica, a linguagem floresce, o texto sai melhor.

Você escreve contos e romances. Como transita entre os gêneros? Em que medida a estrutura de cada gênero lhe ajuda a contar a história?
O conto e o romance são dois gêneros igualmente confortáveis para mim. Com os contos, aprendi a tirar o máximo de cada linha, de cada palavra. Costumo dizer que um escritor não pode se contentar com uma boa palavra. Tem que ser a melhor, entre todas as que existem, a mais adequada para ocupar aquele lugar no texto, nem que para isso seja trocada, testada, substituída à exaustão. Imagine esse exercício com cada palavra que existe em um
livro. É um trabalho de doido, mas literatura é isso. Essa carpintaria milimétrica que treinei nos contos foi o que importei para os romances. Já com os romances, aprendi que não existem limites dentro de uma narrativa. Ainda há muitas discussões e avanços que precisam ser feitos em relação ao machismo e a desigualdade de gêneros na literatura.

Como é escrever da perspectiva de mulheres e sobrevivências tipicamente relegadas a mulheres, como a maternidade?
Ainda fico perplexa ao pensar que, em um mundo em que mulheres compõem mais de metade da população, narrativas sobre maternidade e questões do feminino são coisa rara. E são mesmo, por diversos motivos. Para escrever, uma pessoa precisa acreditar na própria voz, e muitas meninas e mulheres ainda têm suas opiniões desqualificadas em função do seu gênero. Ainda que escrevam, a despeito de todas as suas funções domésticas, as mulheres encontram – ou ao menos encontravam até ontem – dificuldade para entrar no meio editorial, chefiado por homens e, portanto, mais aberto a narrativas masculinas. Meu primeiro livro, A TetaRacional, teve seu nome questionado por algumas editoras antes da publicação. E sua temática também. Um editor chegou a me perguntar: quem vai se interessar pela história de uma mãe amamentando? Portanto, escrever sob a perspectiva da mulher é não só prazeroso e catártico como urgente.

“Ainda fico perplexa ao pensar que, em um mundo em que mulheres compõem mais de metade da população, narrativas sobre maternidade e questões do feminino são coisa rara.”

Tratar do tema das empregadas domésticas e das babás ainda é tocar em uma ferida brasileira, permeada por questões de classe, gênero e raça. Por que escolheu esse tema para o seu novo livro, Suíte Tóquio?
Não fui eu que escolhi. O assunto me escolheu. Tive uma filha e passei a frequentar a praça do bairro onde moro, em São Paulo, frequentada por aquilo que chamo de exército branco. Um batalhão de babás vindas de todos os cantos do Brasil. A maioria delas com histórias muito duras, como as das mães que deixam os filhos no Nordeste e vêm criar os filhos dos outros em troca de um salário que sustente a família na sua cidade de origem. Ou o caso de uma babá que abandonou seu filho recém-nascido na frente de um prédio perto da minha casa, sabendo que não seria aceito no quarto de empregada em que ela morava. Depois de um tempo observando e ouvindo essas mulheres, era inevitável que eu levasse suas histórias para o papel. No livro, há a seguinte frase: “Para ser mãe, a pessoa tem que adotar o filho depois que ele nasce.” Em nossa sociedade, a maternidade é vista como algo intrínseco da mulher – é comum ouvir que todas nascem com o “instinto materno” e, a partir disso, é absolutamente natural o amor e o afeto com a criança.

Como você vê a maternidade hoje?
Eu acho que a maternidade, em grande medida, é uma construção social. Um conjunto de ideias e expectativas sedimentadas em torno do ato de parir e amamentar. É por isso que, em Suíte Tóquio, faço uma especulação sobre a maternidade no mundo animal, como uma forma de discutir o que é intrínseco à reprodução e o que é convenientemente construído em torno da mãe para mantê-la atada ao berço.

Podemos dizer que seu novo livro trata da experiência de mulheres, representadas nas duas personagens principais, e de sororidade. O que as separa e o que as une? E em que medida elas se aproximam de você?
As duas se distinguem pela posição social. E se assemelham pela solidão. O Suíte Tóquio trata de uma questão que é ligada ao lar – e a casa voltou a ser o foco das nossas atenções, devido à Covid- 19. Inclusive, o livro aborda os conflitos do papel das empregadas domésticas e das babás nas residências em que trabalham, retratando como as pessoas com maior poder aquisitivo tiveram que aprender a fazer a limpeza e até passaram a cuidar dos filhos na ausência do “exército branco”, como a personagem as chama.

“Para escrever, uma pessoa precisa acreditar na própria voz, e muitas meninas e mulheres ainda têm suas opiniões desqualificadas em função do seu gênero.”

Como é lançar o livro nesse cenário?
Espero que o livro gere reflexão. Adoraria que nenhuma mulher tivesse que trabalhar de empregada e babá, que todas pudessem escolher sua profissão conforme seu desejo e talento. Mas esse cenário ainda é distante, levando em conta o apoio social pífio que o governo brasileiro oferece para as mães e a colaboração constrangedora de alguns homens nas tarefas de casa. A maioria das mulheres precisa das funcionárias domésticas para seguir trabalhando fora. Mas acho importante repensar essa relação, abandonar os resquícios de um passado escravagista, diminuindo as cargas horárias e remunerando melhor empregadas e babás. O feminismo e a sororidade têm que começar na área de serviço. Como você trata a mulher que te permite ser a mulher que você quer ser?

As histórias têm trilha sonora para você? Se sim, qual é a trilha do seu novo livro?
Não sei por que, mas Suíte Tóquio não teve trilha. Contudo, Tudo Pode Ser Roubado teve. Nunca escrevo com música, mas, quando queria entrar na narradora do meu primeiro romance, sentir o que ela sentia, ouvia The National e Florence + The Machine.

Lembro-me de um post seu, no Instagram, em que você fala sobre sua busca por autoras para compor seu “ménage literário matrimonial”. Quem está na sua “cama” hoje? (risos)
No momento, estou transando com a Herta Muller.

Finalizo nos trazendo ao momento atual. Como foi sua experiência de confinamento? O isolamento social impactou de alguma forma a sua escrita?
Passei a pensar mais no que escrevo. Em um mundo com tantas urgências, a me perguntar: qual é a relevância das minhas temáticas?

Jogo rápido com Giovana Madalosso:

– Uma escritora para fazer apontamentos em um texto seu: Simone de Beauvoir. Adoraria saber o que ela pensa das minhas personagens femininas.
– Um livro que gostaria de ter escrito: Ensaio Sobre a Cegueira, do José Saramago.
– Um livro seu: Suíte Tóquio.
– Um livro para entender o Brasil: Quarto de Despejo, da Carolina Maria de Jesus.

LIVROS CITADOS POR GIOVANA MADALOSSO

 

GRIMBLE
CLEMENT FREUD

(Foto: divulgação)

QUARTO DE DESPEJO
CAROLINA MARIA DE JESUS

(Foto: divulgação)

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
JOSÉ SARAMAGO

(Foto: divulgação)

*Matéria originalmente publicada na edição #245 da revista TOPVIEW.

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