As moradas do poeta da alma: conheça las casas de Neruda pelo Chile

As moradas do poeta da alma: conheça las casas de Neruda pelo Chile

Cintia Végas conta a história por trás das quatro casas que foram do poeta Pablo Neruda, no Chile

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O dono da casa não está, mas sua presença é sentida nos cômodos das residências que de forma tão original lhe serviram de moradia, permitindo que possamos imaginar sua intimidade. Apesar de sua existência ser muito anterior à minha e de nunca tê-lo encontrado, me atreveria até a dizer que seu cheiro ainda se faz presente em cada peça.

Em abril deste ano, o descanso eterno do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) foi interrompido a mando da Justiça de seu país. Seu corpo foi exumado para que a causa real de sua morte pudesse ser investigada. O fato chamou a atenção do mundo e o nome do poeta voltou a ser destacado pela mídia. Porém, a obra e a história de Neruda – que mistura poesia e militância política – nunca deixaram de despertar interesse.

Todos os anos, milhares de turistas que viajam ao Chile incluem em seus roteiros uma visita a pelo menos uma das três casas daquele que, no ano de 1971, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. E quem pisa em uma das construções geralmente se encanta e acaba se programando para conhecer as outras. As residências foram transformadas em museus e abertas ao público nas décadas de 80 e 90, tendo como base o desejo da terceira esposa de Neruda, Matilde Urrutia (1912-1985). As casas ficam em Santiago, Valparaíso e no balneário de Isla Negra. Todas foram saqueadas e parcialmente destruídas na época da ditadura chilena. Atualmente, são mantidas e preservadas por uma fundação que leva o nome do poeta.

Isla Negra

A primeira casa, em Isla Negra, distante cerca de 100 quilômetros de Santiago, foi escolhida também como morada final de seu proprietário. Lá, no jardim e de frente para o Oceano Pacífico, foram sepultados seus restos mortais. Posteriormente, a seu lado, foram depositados os de Matilde. A propriedade foi adquirida por Neruda em 1938. Na ocasião, ele buscava um lugar para se dedicar à escrita do livro de poemas Canto General e achava que a vista do mar e dos rochedos negros da região lhe serviriam de inspiração.

Inicialmente, segundo informações divulgadas pela Fundação Pablo Neruda, no local havia apenas uma pequena cabana de pedra. Porém, ao longo dos anos, o poeta realizou uma série de ampliações, transformando o espaço de acordo com seu imaginário, tornando-o lendário. A casa foi concluída em 1965 e seu formato remete aos vagões de um trem – uma referência ao seu pai, José del Carmen Reyes Morales, que era ferroviário.

A vista do Oceano Pacífico servia de inspiração ao poeta.

Neruda se dizia um marinheiro de terra firme. Amava o mar, mas ao mesmo tempo o temia e se sentia enjoado ao navegar. Por isso, com os pés bem plantados no chão, em suas casas, procurava criar espaços que lhe dessem a sensação de estar no meio do oceano. Mantinha diversos artigos relacionados a ele, como réplicas de veleiros, pedaços de embarcações e conchas.

Em Isla Negra, é possível desfrutar da brisa e das sensações que tocavam o poeta, em meio a muitos sinos (que no passado anunciavam a chegada do dono da casa), bonecas, um cavalo de madeira em tamanho natural, imagens e outros objetos que lhe foram presenteados por amigos ou comprados em viagens. Há cerca de 3.500 objetos espalhados pela casa – sem muita ordem ou combinação. Neruda chegou a admitir que era um acumulador de coisas, mas não no sentido doentio do termo.

La Chascona

Ar de local proibido, onde o amor se faz de forma disfarçada, às escondidas. Os símbolos da casa, porém, não deixam dúvidas a respeito do propósito pelo qual ela foi construída. La Chascona, aos pés do Cerro San Cristóbal, foi construída – a partir do ano de 1953 – com o intuito de esconder o caso amoroso de Neruda e Matilde, antes desta passar do status de amante para esposa oficial.

A casa é composta por diversos pavimentos, entrecortados por jardins em terreno irregular, com escadarias e muitas plantas. No interior dos aposentos, o chão de madeira range forte sob os pés dos visitantes, que imediatamente se imaginam dentro de uma embarcação. A sala de jantar, aliás, foi construída em formato de navio e guarda louças e objetos de vários cantos do mundo.

La Chascona foi berço do amor secreto entre o poeta e Matilde Urrutia.

A casa, além de algumas passagens secretas, tem móveis fincados ao chão para que não se deixem mover pelo balanço das ondas imaginárias. Os corredores são estreitos e as janelas, estilizadas. Muitos amigos conheciam os segredos escondidos em La Chascona. Um deles, o artista mexicano Diego Rivera, chegou a pintar um quadro de Matilde com face dupla, onde em meio a sua ampla cabeleira, de forma disfarçada, é possível visualizar o perfil do poeta. A obra se encontra exposta em uma das paredes da residência.

Em meio às cores e formas da construção, onde quase nada é proporcional ou disponibilizado de forma ordenada, é possível imaginar (ou quase escutar) o riso de Neruda, Matilde e seus amigos. Em La Chascona, o poeta vivia rodeado por eles. Conhecido por seu bom humor, adorava se fantasiar e surpreendê-los em meio à casa. Tinha uma sala de jantar com mesa ampla, além de um bar onde todos podiam se fartar de comida, bebida, conversas e boas gargalhadas. Nos momentos de intimidade, quando se encontrava apenas na companhia da mulher, preferia fazer as refeições em um cômodo mais afastado, em uma mesa pequena, que não lhe permitia se sentir sozinho.

A biblioteca é outro ponto forte da casa. Embora os livros originais do poeta tenham sido retirados pela Fundação e guardados em um espaço que lhes garante adequada preservação, no local é possível ver a cadeira e a mesa onde Neruda gostava de sentar para ler e escrever, além de poder apreciar algumas cópias de manuscritos originais do autor. Em uma prateleira, em meio a fotos de diversos amigos, estão imagens do dono da casa na companhia dos brasileiros Luís Carlos Prestes, Vinícius de Morais e Jorge Amado.

Antes de ser enterrado em Isla Negra, o corpo de Neruda foi velado em La Chascona. Após a partida do poeta, Matilde continuou vivendo, sozinha, no local. Pelo resto de sua vida, procurou manter a casa da forma como o esposo havia deixado. Porém, nunca mais teve coragem de dormir no quarto que havia dividido com ele. Não suportava a tristeza que o lugar lhe impunha à alma, refugiando-se em outro cômodo mais afastado durante todas as infinitas noites de silêncio e solidão.

La Sebastiana

Uma casa vertical, composta de cinco pisos e com escadarias tão estreitas que não se pode deixar de pensar na destreza que Neruda, com seus quase cem quilos, necessitava para subi-las e descê-las. Paredes que dão lugar a imensas janelas com vista para o porto de Valparaíso e, mais uma vez, diversos vestígios de arquitetura em formato de embarcação. Assim é La Sebastiana, a casa que o poeta inaugurou no ano de 1961 e adquiriu em parceria com um casal de amigos, ocupando e modificando de acordo com seus gostos o terceiro, o quarto e o quinto piso, sendo este último o de vista mais bela.

Todos os dias, centenas de visitantes literalmente “se espremem” dentro da casa para poder conhecer todas as suas particularidades. A visita guiada ao local é feita por um sistema de áudio individual, sendo fácil perder a noção de tempo em meio às histórias contadas, particularidades e fantasias inspiradas. Em um primeiro momento, a grande quantidade de degraus pode assustar, mas vale a pena subir cada um e desvendar os mistérios da construção. E a graça é justamente fazê-lo sem pressa, desfrutando de todos os detalhes.

No primeiro e no segundo piso, além da entrada original da casa, usada por Neruda, estão alguns escritórios e um centro de recepção aos visitantes. No terceiro, um bar e uma ampla sala de estar e jantar, onde chama a atenção um cavalo de carrossel original adquirido pelo poeta. No quarto, o dormitório, ocupado por Neruda e Matilde, ficam algumas peças de vestuário dentro do guarda-roupa e objetos particulares da mulher. No último andar, um terraço com mapas antigos fixados à parede e a mesa onde o dono se sentava para escrever. Dali, o poeta contava que conseguia visualizar, em uma casa próxima, uma mulher nua que todos os dias subia na laje para tomar sol. Os amigos se aglomeravam para tentar enxergá-la, mas nunca ninguém conseguiu. A dita senhora só aparecia aos olhos do poeta.

Em La Sebastiana, cansado dos agitos de Santiago, Neruda gostava de passar o réveillon, admirando o foguetório realizado no porto. De acordo com relatos da Fundação, foi nesta casa que ele passou seu último fim de ano, em 1972.

Morto ou assassinado?

Oficialmente, Pablo Neruda morreu em consequência de um câncer de próstata. Porém, aliados e amigos acreditam que ele possa ter sido assassinado – com uma injeção letal, durante tratamento em uma clínica privada – por agentes do general Augusto Pinochet (1973-1990), então chefe das Forças Armadas no Chile. O poeta morreu 12 dias após o golpe militar que derrubou o governo de Salvador Allende (1970-1973).

Diante da dúvida, o corpo de Neruda foi exumado no último dia 8 de abril, em Isla Negra. No Chile, os testes preliminares mostraram que o poeta realmente sofria de câncer de próstata em estado avançado. Porém, representantes do Partido Comunista Chileno consideram as conclusões ainda insuficientes. Os restos mortais também foram enviados para os Estados Unidos, para uma série de testes toxicológicos. Até o fechamento desta edição, o resultado dessas análises ainda não havia sido divulgado.

Onde ficam as casas de Neruda?

Isla Negra: Rua Poeta Neruda, s/no, Isla Negra, El Quisco. Aberta de terça a domingo, das 10 às 18 horas.

La Chascona: Rua Fernando Márquez de la Plata, 0192, bairro Bellavista, Santiago. Aberta de terça a domingo, das 10 às 18 horas.

La Sebastiana: Rua Ferrari, 692, Valparaíso. Aberta de terça a domingo, das 10 às 18 horas.

*Matéria escrita por Cintia Végas, de Santiago, e publicada originalmente na edição 155 da revista TOPVIEW.

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