Joias curitibanas: os monumentos preferidos de 7 personalidades

Joias curitibanas: os monumentos preferidos de 7 personalidades da cidade

Lançamos a sete curitibanos a difícil missão de eleger os lugares, obras ou projetos arquitetônicos mais incríveis da capital. Eis os eleitos!

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MARCELO SUTIL
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Casa Romário Martins
Ela é o nosso último exemplar de residência de arquitetura colonial portuguesa. “É uma fase da história de Curitiba que foi praticamente apagada”, lamenta o historiador Marcelo Sutil, membro do Conselho Estadual de Patrimônio Cultural e da Comissão de Avaliação do Patrimônio da Prefeitura de Curitiba.

Encravada no chamado setor histórico, foi construída entre o final do século 18 e começo do 19. Era usada como moradia até o início do século passado, quando passou a abrigar um armazém de secos e molhados. Em 1970, a prefeitura desapropriou o imóvel, tornando-o um espaço cultural, inaugurado em 1973.

E também:

• PAÇO DA LIBERDADE
“É uma das mais belas construções de Curitiba, com influência da art nouveau. Nosso único bem arquitetônico tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)”, diz Sutil.

• CENTRO CÍVICO
Anterior à construção de Brasília, é o primeiro centro cívico de arquitetura moderna do Brasil. “Foi uma ousadia do Bento [Munhoz da Rocha, governador na ocasião]”, afirma o historiador.

ORLANDO RIBEIRO
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Eduardo Macarios
Foto: Eduardo Macarios

Bosque do Alemão
Manter a vegetação preservada e ao mesmo tempo promover a visitação pública. Estes são desafios vencidos criativamente com a implantação de parques, que apresentam ainda mais uma vantagem: valorizam a região.

“O Bosque do Alemão é um projeto extremamente original. É o menos pretensioso da cidade, mas é o que as pessoas mais guardam na memória”, garante o presidente da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura do Paraná (Asbea-PR), Orlando Ribeiro.

Ele destaca a forma inteligente de trabalhar com a topografia no local: a passarela ligada ao mirante e a torre de 15 metros de altura, tudo com estrutura de troncos de eucalipto. “A intervenção entre os dois pontos permite, em um espaço muito pequeno, que o visitante fique por um longo tempo curtindo as coisas da natureza.”

A Casa da Bruxa e a história de João e Maria ao longo do caminho são outros atrativos do bosque, que tem 38 mil m. Na parte baixa há um pórtico que reconstitui o frontão da Casa Milla. Esta foi construída no início do século na Rua Barão do Serro Azul e  representa um dos principais exemplares da arquitetura da imigração alemã.

E também:

• SEDE HISTÓRICA DA UFPR
A construção do edifício que abrigaria a primeira universidade pública brasileira começou em 1913, sendo inaugurada dois anos depois. “É um ícone cultural”, diz Ribeiro. Mas o prédio não era como o conhecemos hoje. Ao longo dos anos passou por diversas ampliações e apenas em 1955 ganhou as colunas e a escadaria que o caracterizam hoje.

• PALÁCIO IGUAÇU
O edifício-sede do Governo do Estado foi preconizado pelo Movimento Moderno e compõe o primeiro conjunto de prédios dos três poderes concentrados no mesmo local, ainda antes da construção de Brasília. A recente reforma mudou um pouco a fachada do prédio, já que os vidros escolhidos têm tonalidade esverdeada.

GICELI PORTELA
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Divulgação
Foto: Divulgação

Ópera de Arame
Imaginado inicialmente como um “teatro de verão”, transparente, com pouquíssimas vedações, muito diferente do que se encontrava no então atual cenário da arquitetura brasileira, caía-lhe bem o uso para espetáculos alternativos. Fato que durou muito pouco. “A obra impressionava tanto que seu uso teria que ser ampliado para o ano todo, inverno e verão, sol e chuva.

Teve que receber vedações, assentos acolchoados, sistemas de som e iluminação fixos…” conta a arquiteta Giceli Portela. “Uma adaptação ao projeto construído que desfazia o conceito original.” Mesmo assim, a obra do arquiteto Domingos Bongestabs inaugurada em 1992 virou cartão-postal e foi premiada no exterior. “Os espetáculos ficam em segundo plano, pois a própria obra assume o papel principal. As pessoas querem conhecê-la por si só, mesmo sem um único som”, diz Giceli.

E também:

• AS PINTURAS DA CATEDRAL DE CURITIBA
Quando foi construída, em 1893, ela tinha um interior muito simples. Na década de 1930, recebeu a pintura das paredes. “De autoria dos italianos Anacleto e Carlos Garbaccio, uma verdadeira obra de arte foi feita: as ornamentações recobrem cada centímetro da Basílica. Com todas as cores imagináveis foram desenhadas estampas e figuras santas”, diz Giceli Portela, responsável pela restauração, em 2011.

• CASA BETTEGA DE VILANOVA ARTIGAS
A planta da casa projetada pelo arquiteto João Batista Vilanova Artigas para o médico João Bettega, em 1948, é uma malha ortogonal revelando um espaço contínuo. De grande expressão para a arquitetura brasileira é tombada pelo município e pelo Governo do Estado do Paraná.

KEY IMAGUIRE JR
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Eduardo Macarios
Foto: Eduardo Macarios

Setor Histórico
Em 1970, quando o arquiteto Cyro Correa Lyra coordenou o estudo que definiu o setor histórico de Curitiba, uma das percepções foi de que, com exceção das casas de madeira, estavam representadas na área quase todas as formas de edificações que foram construídas na cidade, conta o professor titular aposentado de Arquitetura Brasileira, Arquitetura Paranaense e Patrimônio Cultural da UFPR, Key Imaguire Junior.

Estão lá as contribuições das etnias mais importantes, além de vários estilos arquitetônicos e algumas das edificações mais notáveis da cidade, como o Paço Municipal e seu entorno. “Tudo isso inserido numa paisagem ainda homogênea, horizontal, com calçamentos em granito e agradáveis ruas estreitas. Não é uma paisagem estática. Recebeu contribuições nem sempre muito cordiais, mas algumas, em que pese a modernidade, inseriram-se com propriedade na paisagem. O melhor exemplo é o Memorial dos 300 anos, transparente para ensejar os visuais do entorno”, afirma o professor.

E também:

• CASA DOMINGOS DO NASCIMENTO
Ela foi construída nos anos 20 e trasladada para a Rua José de Alencar no fim da década de 80. “A casa marca uma atitude efetiva de interesse por aquela que é a mais importante arquitetura produzida no Paraná: a das casas de madeira, desde sempre uma das marcas culturais do Estado.” O arquiteto destaca também os acertos em sua remoção, remontagem e agenciamento urbano.

• MEMORIAL DE CURITIBA
Inaugurado em 1996 para comemorar os 300 anos da cidade, o Memorial é, segundo o arquiteto, a marca da vitalidade da área, um equipamento cultural eficiente e bem aceito. “Além de ocupar um espaço ‘feio’ numa região bonita, é respeitoso com seu entorno”, diz.

SALVADOR GNOATO
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Foto: SEEC
Foto: SEEC

Teatro Guaíra
A proposta de Rubens Meister, com sua abstrata arquitetura onde “forma segue a função” para o concurso do Teatro Guaíra, realizado em 1948, obteve apenas o terceiro lugar. Os jurados premiaram dois projetos neo-clássicos, inspirados nos teatros municipais de São Paulo e Rio de Janeiro, com a intenção de compor a Praça Santos Andrade com a recém inaugurada fachada da sede da UFPR. Em 1951 o governador Bento Munhoz da Rocha adotou a arquitetura moderna coo símbolo do progresso paranaense.

Por isso, escolheu o projeto de Meister e o incluiu, junto com o Centro Cívico e a Biblioteca Pública, no elenco das obras do centenário de emancipação política do Paraná. “Essas obras introduziram a arquitetura do Movimento Moderno no Paraná”, conta o doutor em Arquitetura e Urbanismo Salvador Gnoato. O projeto original do Teatro Guaíra foi concebido para a praça Rui Barbosa. “A mudança fez com que a obra ficasse ‘apertada’ no local onde foi construída”, diz.

E também:

• MUSEU OSCAR NIEMEYER – MON
Oscar Niemeyer projetou o então Edifício Presidente Humberto Castelo Branco no seu autoexílio durante a ditadura militar, em 1971. Depois, com o edifício desocupado, o arquiteto foi convidado a projetar o salão principal de exposições. Colocado sob um pedestal e em função de sua forma ficou conhecido como “museu do olho”.

• CASA FEDERICO KIRCHGÄSSNER
A casa construída em 1930 é “uma pequena obra-prima pela implantação e distribuição do programa, pelo cuidado na técnica com que foi construída, pelos pórticos, pelo uso do terraço do último pavimento e pelo requinte em que foram executados todos os seus detalhes, das esquadrias ao mobiliário”.

IRÃ DUDEQUE
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Eduardo Macarios
Foto: Eduardo Macarios

Reitoria da UFPR
Eles têm nomes de imperadores, mas ganharam apelido mais simples e carinhoso. Os edifícios Dom Pedro I e Dom Pedro II são para os curitibanos, simplesmente, a Reitoria. O tratamento afetuoso faz jus ao que os prédios proporcionam a estudantes, professores, moradores da região e transeuntes: convivência.

O historiador e arquiteto Irã Dudeque compara com outros prédios de mesmo tamanho: “Para ir de uma rua a outra, é preciso dar a volta na quadra. No prédio da Reitoria, passamos por dentro. Ele não cria separação nenhuma.”

O professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) acredita inclusive que se houvesse mais prédios assim, a cidade seria melhor. “Haveria possibilidade de fazer caminhos alternativos, seria quase como ter uma praça embaixo dos edifícios. Foi o que aconteceu ali: criou-se uma praça, por onde os moradores passam, onde os estudantes conversam, namoram e até jogam futebol com bolas de tênis. A arquitetura favoreceu o convívio.”

E também:

• UNILIVRE
A integração do edifício na paisagem é o grande trunfo da Universidade Livre do Meio Ambiente. “É como se a madeira do bosque fosse se convertendo numa construção”, afirma Dudeque. A sede da Unilivre foi inaugurada em 1992, no lugar de uma antiga pedreira cuja atividade deixou um paredão de granito e um lago com oito metros de profundidade.

• CASA JOÃO LOURENÇO TABORDA RIBAS
Localizado na Avenida Marechal Floriano Peixoto, o casarão tem 120 anos. “Ele representa uma mudança na arquitetura de Curitiba. Até o século 19, as casas eram construídas rentes à calçada. Não havia espaço de transição. Aquela foi a primeira casa colocada atrás de um jardim.” Em abril deste ano, foi inaugurado ali o Centro Cultural Sesi Heitor Stockler de França.

JEFFERSON NAVOLAR
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Eduardo Macarios
Foto: Eduardo Macarios

Teatro Paiol
O antigo depósito de pólvora construído entre 1905 e 1906 foi restaurado e transformado em um teatro de arena, em 1971. “É um dos melhores exemplos que temos de intervenção no patrimônio histórico”, defende o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Paraná (CAU-PR), Jeferson Dantas Navolar.

Pelo risco de explosão que representava, o imóvel foi erguido nos arredores da cidade. “Quando perdeu sua função, ficou solto. Num ato de busca por espaços culturais no início da década de 1970, olhos de arquitetos perceberam que ali havia um potencial e se implantou naquele espaço sem utilidade uma joia da cultura curitibana”, conta.

As diversas intervenções ao longo dos anos mudaram as características originais do prédio, de traços arquitetônicos romanos em forma circular. Responsável pela restauração, o arquiteto Abrão Assad procurou recuperá-las. A inauguração do teatro, com capacidade para 220 espectadores, teve show do poetinha Vinicius de Moraes.

E também

• IGREJAS DO LARGO
O conjunto de três igrejas em três largos é uma tradição portuguesa. A Catedral, a Igreja da Ordem e a Igreja do Rosário formam esse trio, que originalmente serviria para dividir classes sociais. “Repete o modo de ocupação que vem de Portugal, um urbanismo não geométrico, que respeita as curvas, os desníveis do terreno”, diz Navolar.

• RUA BARÃO DO RIO BRANCO
Foi a primeira rua projetada com a missão de levar a importância comercial da estrada de ferro ao centro da cidade. “Curitiba passou a ser diferente a partir da implantação da estrada de ferro com a Rua Barão do Rio Branco.” Na época, era a via mais importante da cidade, com edifícios do governo, grandes atacadistas, hotéis e comércio.

*Matéria publicada por Érika Busani originalmente na edição 155 da revista TOPVIEW.

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