Restaurante Ile de France: Melhor do que na França

Ile de France: Melhor do que na França

Sob o comando do casal Decock, o Ile de France se mantém fiel à cozinha francesa apresentada aos curitibanos há 65 anos

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Dizem que houve um cliente que, de tão cativo, tinha seu próprio telefone fixo no balcão

O Ile de France já era um ícone da gastronomia curitibana quando passou para as mãos do casal Jean Paul e Clara Chao Decock, há 40 anos. O restaurante foi fundado em 1953 pelos pais de Jean Paul, Emile e Janine — um casal de franceses que deixou a região da Normandia no pós-guerra para recomeçar a vida no Brasil. Já experientes no ramo, eles foram responsáveis por apresentar uma Curitiba ainda provinciana e recém-iniciada na onda modernizante da época à gastronomia francesa e todo o seu vocabulário chique — um acontecimento.“Meus pais comentavam que, no começo, os curitibanos estranharam um pouco a comida. Realmente o Ile teve de moldar um pouco o paladar dos curitibanos”, lembra Jean Paul, que é só um ano mais velho do que o restaurante — está com 66. “Naquele tempo, era bem mais difícil ir à Europa. Hoje, alguns clientes vão para a França e voltam dizendo que a comida de lá não é tão boa quanto a daqui. Eles acostumaram o paladar ao nosso tempero”, brinca.


Jean Paul e Clara retribuíram a fidelidade da clientela. Instalado no mesmo edifício de três andares na Praça 19 de Dezembro desde 1957, o Ile de France continua servindo hits de seis décadas atrás — estrogonofe, camarão no champanhe, steak au poivre —, do jeito que vem sendo ensinado na família há três gerações. “Os curitibanos gostam de conhecer coisas novas. Mas, no longo prazo, eles querem o paladar que já conhecem”, diz Clara, que aprendeu as receitas diretamente com o sogro, Emile, e cobra o mesmo rigor dos cozinheiros que passam pela sua cozinha — para ela, manter o mesmo patamar de qualidade que fez o nome do Ile nestes 65 anos é inegociável.

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Hoje, o casal ajusta a melhor forma de atualizar o restaurante para perfis mais novos de clientes, ao mesmo tempo em que mantém tudo exatamente como está. Clara, que já comandou as panelas e hoje supervisiona a cozinha, os funcionários e as tarefas administrativas, diz que as preocupações contemporâneas com calorias, glúten, lactose e afins pedem algumas mudanças. Foi pensando nisso que o restaurante começou a introduzir no cardápio o serviço empratado, mais adequado para quem quer comer menos do que se costuma servir no tradicional serviço à inglesa — em que os garçons do Ile, alguns com décadas de casa, levam travessas generosas à mesa e montam os pratos na hora.

Os pratos continuam os mesmos, porque com paladar afetivo não se brinca.“Para se manter vivo, você tem de estar na conversa das pessoas, tem de estar presente”, diz Clara, uma descendente de chineses boa de conversa e dona de um senso de humor afiado. Jean Paul, um sujeito de voz mansa e trato gentil — hoje, responsável pelos vinhos e pelo caixa —, não se mostra tão convencido. Diz apenas que os clientes do restaurante — vários deles ilustres — não gostam muito que se mexa no cardápio. “Eles estão acostumados com o modo tradicional”, conta.  Cada um à sua maneira, os dois levam adiante outra tradição cultivada pelo Ile: receber bem, chamar pelo nome, quem sabe até ceder a alguns caprichos — dizem que houve um cliente que, de tão cativo, tinha seu próprio telefone fixo no balcão. Quantos restaurantes têm uma história assim?

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*Matéria originalmente publicada na edição 214 da revista TOPVIEW.

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