Coluna Julie Fank, fevereiro de 2018

Nem todas as flores são amarelas. Somos todos o nosso próprio poema de sete faces

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  1. Quando a gente nasce, nenhum anjo diz nada.
  2. Pra que tanta flor, meu deus, pergunta meu coração, mas meus olhos não perguntam nada. Gosto tanto desse poema do Drummond que me permiti uma pequena modificação: em vez de um personagem ávido por pernas que passam no bonde que também passa, uma personagem passeia pelo mercado de flores. Ao seu lado, a senhora que trabalha há anos e tem dificuldades com bom dias se esforça para o sorriso diário de boa vizinhança. A concorrência mora logo ali e deve ser cumprimentada diariamente, pensa ela, contrariando a essência fleumática e o espírito ermitão.
  3. Na literatura, o melhor nome para repetição é insistência.
  4. Encontrei minha antiga professora de piano na rodoviária da minha cidade nas férias anuais. Um como você cresceu e um como a gente tá velha, né? e um olhar de cumplicidade pra minha mãe depois, e ela me pergunta se eu lembro daquela música que tinha uma nota diferente no baixo na última estrofe. Era uma notinha na clave de fá depois de três estrofes gêmeas. Só uma. Você não conseguia, Julie, pra você, naquela música, todas as notas eram iguais. E como eu aprendi?, perguntei, ansiando saber ali o segredo para não bater mais a cabeça no poste. Eu recorri a Van Gogh, me explicou. Sabe aquele quadro das flores amarelas? Um admirador qualquer ou um observador sem atenção percebe só as tonalidades de amarelo e de ocre, mas num cantinho, embaixo, tem uma flor violeta disfarçada, ela me lembrou. A paleta de cores de Van Gogh não é tão previsível quanto outras e um tom de violeta é capaz de salvar um quadro inteiro. Depois disso, você entendeu e nunca mais errou. Só na música, tia Gigi. Só na música.
  5. Quando eu era criança e via os álbuns de fotografia dos meus tios, não entendia porque gastar dinheiro revelando fotos de flores. Muito tempo depois, soube que, para olhos que perguntam, nem todas as flores são amarelas. E que as folhas, de uma estação pra outra, não são mais as mesmas. Aí a graça.
  6. Em 2013, numa viagem ao Marrocos, fiquei meia hora observando uma mulher sentada num banco de uma praça próxima à mesquita. Era só uma mulher sentada no banco em silêncio, com a cabeça abaixada no lugar escolhido pra ela, julguei, na minha posição de arrogância ocidental. Não sabia se ela dormia ou rezava, grande possibilidade de ser a primeira. As mãos cruzadas com os pés também cruzados embaixo do banco. Suspensos. A feminista que já existia dentro de mim se perguntava por que ela não saía dali, do lugar do banco que está sempre com a garganta entalada. Nossos olhos não se encontraram, mas eu sabia que o silêncio é só um disfarce para uma cabeça que não parava de funcionar. Eu era aquela mulher em silêncio com a garganta também entalada. Faríamos aqui um paralelo entre a garganta e o caule das plantas, essa haste que liga as raízes às folhas, as raízes essa coisa que a gente não vê, o órgão de fixação do vegetal.
  7. Um dos meus passatempos prediletos virou tirar fotos. De flores, de pessoas e de todas as notas diferentes na última estrofe de uma música. Um pouco antes de 2017 acabar, comprei um dicionário de botânica e um livro do Oliver Sacks sobre uma excursão ao México com colecionadores de samambaias. Também desenvolvi uma fixação particular pela cor violeta e mercados de flores, o léxico guardando sua indisfarçável correlação. Somos todos o nosso próprio poema de sete faces.

*Julie Fank é escritora, professora e fundadora da ESC – Escola de escrita. Escreve neste espaço bimestralmente. juliefank@gmail.com

*Matéria publicada originalmente na edição 208 da revista TOPVIEW.

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