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Pós-eleições em família: curando as feridas

Como curar as feridas, amenizar/reverter as perdas, os rompimentos?

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Superando as eleições

Nada será como antes entre nós. Essas eleições foram dramáticas demais, histéricas demais, polarizadas demais, meteram-nos medo demais, houve adjetivos demais e substantivos de menos, houve gritaria demais, sensação de fim do mundo demais.

Não vi nenhum caso de um amigo dizer ao outro que “tudo bem, eu penso diferente, mas sei que você também quer o melhor para o país, isso é da democracia”. Nenhum caso de “estou curioso para saber suas razões”, de “o que te leva a querer votar nele?”.

É certo que o clima de fim de mundo provoca algo parecido com o pânico, e isso não leva à reflexão, leva à reação. E o drama tolda a inteligência, causa burrice, é mau conselheiro. Mas o pior é que o seu amigo, o seu parente, pareciam ser cúmplices daqueles que queriam “destruir o país”, e assim momentaneamente se transformaram em inimigos mortais. Ódio e rancor tomaram o lugar da afeição. Antigos ressentimentos vieram à tona, mágoas remoídas se viram decantadas no presente. “Ah, então era essa a sua verdadeira face!” Afastamentos se tornaram inevitáveis – “não se pode confiar numa pessoa que apoia aquilo!”. Todos pareciam suspeitar de todos; sem saída honrosa, qualquer um poderia ser enquadrado como “comunista”, “fascista” ou… “isentão”.

Um velho vício da humanidade, uma variante do sadomasoquismo ganhou nova face: a da superioridade moral. “Você é um desprezível porque apoia esse candidato desprezível, e eu sou moral e intelectualmente superior a você porque vejo a verdade, entendo os podres poderes que estão em cena, e você não”. As redes sociais tornaram esse jogo ainda mais fácil, disponibilizando meios e oportunidade para que amigos e parentes se digladiassem em linchamentos morais, se bloqueassem e se deletassem mutuamente. Esse neologismo anglolatino (o inglês “delet” vem do latim “deletere”, que significa destruir) ganhou novo gosto, agora com faca nos dentes: não se deletavam textos, mas pessoas.

E agora, o que fazer? Como curar as feridas, amenizar/reverter as perdas, os rompimentos? “Será possível que aquele monstro idiota que apoiou o candidato que eu odeio continue mesmo tão monstro e tão idiota para sempre? Mas ele era um cara tão legal antes… e agora que meu candidato ganhou/perdeu? Como será que ele vai me tratar? Como será que eu vou tratá-lo?”

Vêm-me à lembrança dois provérbios, um gaúcho e um romano. O do Sul diz que “com o andar da carroça, as abóboras se ajeitam”. Espero não me enganar, afinal escrevo muito próximo ao fim das eleições, mas… e se nada do que foi anunciado como o fim do mundo acontecer? Afinal, prometeram que haveria mortes e sangue derramado se o Lula fosse preso, e nada ocorreu. Como no antigo samba, “anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar… e o tal do mundo não se acabou”. Ao mesmo tempo, a democracia tem seu jeito de civilizar quem está no poder.

O provérbio romano diz que “l’amore fa passar il tempo; il tempo fa passar l’amore”. Coloque o ódio no lugar do amor: o ódio também entretém, também aluga a cabeça, o ódio também é um programa passatempo. Mas assim como o amor, ele precisa ser constantemente realimentado para durar, caso contrário – tanto quanto o amor – ele acaba passando. É verdade que o Nelson Rodrigues dizia que não há ninguém mais fiel que um inimigo, que o amigo te esquece, não liga no aniversário (as pessoas telefonavam para as outras no tempo de Nelson), mas um bom inimigo não te larga, te acompanha até o fim, vai ao seu enterro e ainda cospe no seu túmulo. É verdade também que o ódio é uma ótima ferramenta política para a união da militância, e que ele tenderá a ser alimentado agora.

Mas estamos falando de feridas entre parentes e amigos, aí as coisas têm chance de serem diferentes. Tudo começa pelo assunto: cansados e sem perspetiva de votar, esses “outrora próximos afetivamente mas agora ressentidos” vão continuar se encontrando cá e lá, e a cerveja, o futebol, as lembranças em comum, as brincadeiras, gradativamente tomarão o seu habitual lugar na conversa. Assunto mudado, a possibilidade de rir juntos se abre, o senso de humor volta, o sentido da própria desimportância tem uma oportunidade de se reapresentar, e assim os ânimos poderão se arrefecer.

Afinal, amigos e parentes próximos são um bem precioso, não dá para ficar detonando facilmente. Quem não é fácil é a solidão…

*Ensaio publicado originalmente na edição 217 da revista TOPVIEW por Francisco Daudt.

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