SELF

Liberdade encolhida

No mundo do superlativo, os pequenos gestos e momentos são os que devemos valorizar verdadeiramente

Olhe para as suas mãos… como elas são? O que tocam? Como acariciam? O que constroem? Para quem acenaram? Por quem vibraram? Quantas lágrimas secaram? Quantos afagos dedicaram? Quantas bocas tocaram? Quantos sonhos construíram? Quantos cartões escreveram? As mãos estão ali, disponíveis para a maioria de nós, mas simplesmente nos acostumamos com elas. Sequer as observamos, valorizamos. Dizem que, sem transformar atitudes em hábitos, não criamos disciplina. É verdade. E quando o hábito nos cega? Automatiza? Robotiza? Rouba o riso? Banaliza a vida? Quando desaprendemos a enxergar? Agradecer? Reconhecer?

Quando o casamento abre espaço para a indiferença? Quando o filho enxerga os pais como um caixa eletrônico? Quando os pais não valorizam a singularidade dos filhos e só exigem que eles sejam sua imagem e semelhança? Quando o trabalho se torna apenas um meio de ganhar dinheiro? Quando os dias simplesmente se repetem? O hábito também engessa. Cega. Disciplina em excesso corrói o afeto.

Estamos enfrentando um dos maiores desafios da humanidade: a pandemia. Como psicanalista, tenho percebido que a maior reclamação tem sido a perda de liberdade. Contudo, quando mergulho nas emoções humanas, a maioria das pessoas está percebendo que já estava sem liberdade em vários aspectos e há muito tempo.

“Desconfio que a felicidade seja discreta, que ela goste daqueles que saibam reconhecer a beleza das próprias mãos nos pequenos gestos libertos de cada dia.”

As distrações do mundo e a busca incessante por segurança e garantias em todos os níveis da vida acabam nos desabituando de enxergar o pequeno. Aparentemente, a vida só tem valor no superlativo! É preciso correr, faturar, aparecer, ter seguidores, ser admirado… e, para alguns, invejado. Em um mundo sem holofotes, não há valor. TER e SER entraram em combustão. Contudo, será que fomos criados para suportar toda essa luz de “sucesso” ininterrupto? Em um mundo em que sempre temos que nos agigantar o tempo todo, como fica a beleza do pequeno, a conexão com o que é simples, o riso espontâneo que não flertou com a câmera? O hábito de ser, sem ter que mostrar, encontra espaço onde? Relaxa quando?

Pense nos seus momentos mais felizes, intensos e únicos, aqueles que fizeram o seu coração vibrar de um modo incomum. Onde eles aconteceram? Volte no tempo… relembre uma paixão, um beijo, uma tarde de amor, o tempero da avó, o abraço do avô, a família reunida, um bom conselho que mudou o seu destino, uma oportunidade inesperada. Será que a maioria desses momentos não aconteceu na sua intimidade? Em momentos que foram só seus ou talvez de pouquíssimos que o amam genuinamente?

Desconfio que a felicidade é discreta, que ela gosta daqueles que sabem reconhecer a beleza das próprias mãos nos pequenos gestos libertos de cada dia.

*Coluna originalmente publicada na edição #240 da revista TOPVIEW.

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