SELF

Espelho, espelho meu! Existe alguém mais horrível do que eu?

Refletir nosso próprio lugar no mundo é um tarefa que deve ser feita com empatia e amor próprio

A antropologia é fascinante. Compreender uma cultura e a evolução dos seres humanos a partir dela é incrível! É também tentar entender o que relações sociais são capazes de fazer com os nossos corpos e mentes. Essa dualidade da influência do ambiente sobre a mente, e vice-versa, parece um looping eterno. Então, haveria resposta sobre a relação entre limites, manifestações culturais e neurobiologia na definição do que é feio ou bonito?

Inicialmente, observamos na natureza a linda combinação de cores nas penas, plumas, pelos, cascos e pele dos animais. A juba do leão, a cauda do pavão, um panda devorando um broto de bambu e um canguru dançando saltitante. Na luta pela sobrevivência e pela perpetuação da espécie, a genética dos animais os apresenta com as suas características externas mais exuberantes. Até os filhotes “sabem” disso. Todos já nos encantamos pela fofura de mamíferos, aves, peixes e até mesmo répteis e anfíbios quando estão no ninho. Nascer belo é uma das características adaptativas mais importantes para que sejam cuidados e alimentados em condições adversas.

Em algum momento pré-histórico, os seres humanos também aprenderam a associar padrões de beleza à sobrevivência. Características corporais ligadas a uma vida saudável, bom humor, força e capacidade reprodutiva sempre foram admiradas. Nesse sentido, a cultura ajudou a modular a aparência estética. É mais saudável ser gordinho ou esguio? A resposta é depende. Em distintos momentos e lugares, notamos claramente uma diferença do que é considerado belo e saudável, como na cultura greco-romana, em comunidades polinésicas ou entre os esquimós inuítes.

No mundo ocidental moderno, ao qual pertencemos, o conceito de beleza ganhou um fator poderoso, que interfere muito na cultura: o dinheiro. A mídia nos bombardeia 24 horas por dia com pessoas lindas, vestindo roupas lindas e em lugares lindos. Claro, sempre cercadas de outras pessoas lindas. Tudo maravilhosamente lindo! Compre! Se você não tem um padrão de beleza adequado para usar esses produtos, compre a beleza. Tratamentos estéticos, dermatológicos e odontológicos, além de cirurgias plásticas podem fazer um extreme make over em poucos dias. Pronto! Autoestima nas alturas!! Viva!!

Não há nada de errado com isso. A tecnologia da medicina está aí para ser aproveitada. Mas, podemos ver uma luz vermelha intensa piscando se você não tem condições financeiras para fazer “tudo o que precisa” ou se tem contraindicações médicas para fazer os procedimentos. Alguns entendem: sou assim e me gosto assim. Outros entram em desespero. Viver fora dos padrões de beleza universal, sabendo que o “conserto” pode estar a poucos passos: inaceitável!

Nesses casos, mecanismos de defesa cerebral muito primitivos, relacionados aos sistemas de luta ou fuga, podem entrar em colapso. A percepção cerebral do corpo, ou de parte dele, pode ficar muito alterada gerando doenças como a anorexia nervosa, a bulimia ou o transtorno dismórfico corporal (TDC). O TDC provoca a preocupação exagerada com um defeito mínimo ou imaginário na aparência e é conhecido desde o século XIX. Além de dismorfofobia, já foi chamado de “obsessão da vergonha do corpo”, “vergonha do corpo”, “hipocondria da beleza”, “hipocondria dermatológica”, “temor da feiura”, “temor de incomodar por ser feio” e “psicose da feiura”. Mas foi somente após os anos 70, com a ascensão meteórica da indústria da moda e da ditadura da beleza, que esta doença, e o profundo sofrimento que causa, passaram a ser mais estudados pelos médicos.

“Um antropólogo em Marte” talvez seja a obra mais conhecida do brilhante neurologista americano Oliver Sacks. Nesse e em outros livros, ele conta casos clínicos de seus pacientes. Muitos têm percepções alteradas da realidade, revelando como nosso cérebro nos engana em relação ao que vemos. Pequenas alterações em áreas cerebrais responsáveis pela assimilação, interpretação, associação ou memorização de imagens podem nos levar a enxergar um mundo muito diferente do que ele realmente é para a maioria das pessoas. No conto “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, que também dá título a um outro livro, Sacks nos relembra das agnosias visuais, principalmente da prosopagnosia, uma dificuldade de reconhecermos rostos, mesmo de pessoas de nosso convívio. Então, se podemos ter dificuldades em diferenciar pessoas de objetos, ou em reconhecer pessoas, podemos facilmente ter dificuldades em separar o bonito do feio.

Complementando a noção de neurobiologia da visão, e a associando ao complexo modelo de como o sistema nervoso central cria e controla as emoções, temos as teorias do neurologista português, radicado nos Estados Unidos, António Damásio. Em breves palavras, Damásio sugere que as emoções são histórias que o cérebro inventa para explicar as reações corporais. Em situações de medo, angústia, ou mesmo desejo de luta, nosso cérebro, a partir de nossa memória, cria um ambiente para que vivamos aquele momento. Muitas vezes, nos engana. Nos casos de pessoas com doenças relacionadas à ansiedade, ele pode criar os piores ambientes. Essas doenças, como o TDC, precisam ser tratadas.

Vivemos em um mundo agitado e exigente. Buscar a beleza é legítimo e bom. Mas, muitas vezes, no afã de ficarmos bonitos por fora, esquecemos de alimentar nossa beleza interior. Isso também é cultural? Pode ser cultural e neurobiológico. Então, podemos citar Nietzsche e sua obsessão pelo egoísmo do homem? Sim, mas essa é uma história para outro dia.

* Coluna originalmente publicada na edição #249 da revista TOPVIEW.

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