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Conheça os benefícios do parto normal e da amamentação para mães e bebês

Os dois processos são responsáveis por colonizar o recém-nascido com bactérias benéficas da mãe, gerando impactos positivos para a sua saúde durante a vida inteira

As bactérias do intestino são de suma importância para a manutenção da saúde humana. Elas criam uma barreira protetora no órgão que impede que toxinas e agentes patológicos promovam a disbiose. Também chamada de desequilíbrio da microbiota intestinal, a disbiose leva a desordens crônicas e lentas, ou seja, que não impactam o indivíduo de um dia para o outro, mas que paulatinamente geram inflamações no organismo, ocasionando doenças metabólicas, como obesidade, gordura no fígado, diabetes etc.

Diversos fatores devem ser levados em conta para evitar a disbiose, entre os quais o tipo de parto e a amamentação. No livro O lado bom das bactérias – O poder invisível que fortalece sua defesa natural para ter uma vida mais feliz e longeva, o farmacêutico, bioquímico e pós-doutor em microbiologia, Alessandro Silveira, discorre sobre estes dois aspectos. O bioquímico destaca que é por intermédio do parto normal e da amamentação que o recém-nascido é colonizado por suas primeiras bactérias que serão extremamente necessárias para o seu desenvolvimento pleno e saudável.

Parto normal versus parto cesárea

A colonização do parto normal se dá por meio do contato da pele do bebê com a mucosa do canal vaginal da mãe. “Algumas crianças, inclusive, acabam ingerindo as bactérias, que migram para o intestino”, explica Silveira. Conforme o pós-doutor em microbiologia, esse momento é fundamental para a imunidade inata do nascimento, pois é desse modo que os anticorpos da mãe, atravessando a barreira da placenta, são transmitidos para o bebê.

“Quando uma criança nasce, seu sistema imune é muito imaturo, necessitando desses anticorpos maternos para auxiliar na defesa contra microrganismos”, conta.

Como exemplo de bactérias presentes no canal vaginal essenciais na proteção do organismo do recém-nascido, Silveira destaca os lactobacilos. “A colonização por lactobacilos pode prevenir o desenvolvimento de doenças do trato respiratório e alergias”, diz.

Por seu lado, o parto cesárea é causador de muitos efeitos negativos para o recém-nascido e para seu desenvolvimento, o que está relacionado ao local do nascimento.

“Além de não entrar em contato com os anticorpos do canal vaginal da mãe, no parto cesárea o bebê é colonizado por bactérias patogênicas existentes no ambiente hospitalar, tais como Staphylococcus, Klebsiella e Clostridium, que estão intimamente ligadas ao desenvolvimento de infecções e processos alérgicos.”, explica o bioquímico.

Ao contrário, quando o nascimento é domiciliar – o que tem mais chances de acontecer no parto normal – o recém-nascido é colonizado por bactérias de um ambiente mais favorável à saúde do bebê.

Silveira destaca a relevância de disseminar esse tipo de informação, já que, segundo ele, muitas mães ainda acreditam que os benefícios do parto não podem ser mensurados. A falta de conhecimento por parte da mãe, unida à pressão de muitos médicos em favor do procedimento cirúrgico faz com que o Brasil seja um dos países com maior número cesáreas no mundo. Conforme o Ministério da Saúde, em 2016, cerca de 55% dos nascimentos foram realizados por meio desse tipo de parto. A Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere que esses índices não ultrapassem 15%.

Não obstante seu potencial negativo, em muitas ocasiões o parto cesárea é recomendado. “Nos casos em que haja indicação específica ou necessidade real, a intervenção cirúrgica pode ser a única opção para salvar vidas, tanto a da mãe quanto a do recém-nascido”, diz o pós-doutor em microbiologia.

Nestas circunstâncias, uma maneira de fazer com que o bebê seja contemplado com os benefícios de um parto normal é o batismo bacteriano. Silveira explica que se trata de protocolo utilizado em alguns hospitais. O procedimento consiste em passar gazes estéreis na região genital da mãe para colher secreções repletas de bactérias que serão repassadas no corpo, rosto, boca e pele do bebê.

“Evidentemente não é a mesma experiência que o parto normal, e nem tem o mesmo efeito, mas como aproximadamente 30% do perfil intestinal de uma pessoa é relacionado ao seu nascimento, trata-se de momento que não pode ser ignorado”, diz.

Amamentação

Um dos papéis fundamentais da colonização de bactérias via trato vaginal é preparar o intestino do bebê para receber seus primeiros nutrientes através da amamentação. Assim como o parto normal, a amamentação tem grande relevância para a saúde do indivíduo, em razão das bactérias que são transmitidas pelo leite materno. Conforme Silveira, uma das espécies bacterianas presentes no leite que podem ser destacadas no fortalecimento do organismo da criança são as bifidobactérias, cujo potencial de reduzir o risco de desordens autoimunes é muito grande.

A ocitocina é o hormônio responsável pela produção do leite materno. Contudo, quando o bebê nasce de parto cesárea, a mãe deixa de ser inundada por esta substância, o que pode acarretar dificuldade na amamentação. Silveira explica que diante deste cenário, muitas mães recorrem a fórmulas artificiais, o que tende a gerar consequências catastróficas ao desenvolvimento do filho.

“A criança que não amamenta pode se tornar obesa, com processos inflamatórios, infecções recorrentes, uso de medicamentos e uma infinidade de problemas respiratórios que vem acompanhados com alergias”, afirma.

Para mães que já tentaram diversos procedimentos e não conseguem amamentar existe o banco de leite. De acordo com o pós-doutor em microbiologia, trata-se de uma alternativa melhor do que o leite artificial, pois este prejudica bastante o intestino por causa de seus açúcares e de sua constituição artificial. “Sempre indico para as mulheres que têm uma boa produção de leite que possam doar nos bancos de leite da sua cidade. É simples e pode salvar vidas de muitas crianças”, destaca.

A falta de conhecimento em relação aos benefícios da amamentação faz com que muitos pais introduzam alimentos aos filhos antes dos seis meses de vida.

“Um bebê alimentado precocemente tem a sua microbiota afetada, consequentemente a sua imunidade enfraquece e a suscetibilidade a infecções e alergias se torna maior”, afirma Silveira, explicando que é o leite materno que prepara o ambiente do intestino (via anticorpos e bactérias) para receber alimentos externos.

O bioquímico enfatiza que o parto normal e a amamentação são uma espécie de combo da saúde da criança. De acordo com o pós-doutor em microbiologia, cada vez mais estudos têm mostrado a relevância dos primeiros mil dias de vida de uma pessoa na formação de sua microbiota, sendo que os efeitos positivos tanto do parto normal quanto da amamentação reverberam para a vida inteira do indivíduo. “Não estamos falando apenas da saúde de um recém-nascido, mas de um impacto que será sentido durante toda a sua vida”, conclui.

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