Dinâmicos, independentes e inspiradores: eis os aposentados do século 21

Dinâmicos, independentes e inspiradores: eis os aposentados do século 21

Uma nova geração de idosos não quer parar de trabalhar, mas investir em outras áreas. Cada um à sua maneira, eles nos mostram como curtir a vida

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Cada vez mais conectados à sociedade e antenados aos avanços da tecnologia e da medicina, os representantes da melhor idade no século 21 chegam aos 60, 70, 80 anos esbanjando saúde, disposição e interesse. Com a vantagem da experiência, eles transformam a aposentadoria numa oportunidade de novas descobertas, investimentos e desafios.
A clínica do cirurgião bariátrico João Batista Marchesini, 76 anos, está localizada em uma região nobre de Curitiba, mas a agenda do médico, que está há 53 anos na ativa, hoje não se limita mais ao consultório e ao centro cirúrgico (onde, inclusive, divide espaço com o filho, o também cirurgião bariátrico Caetano Marchesini). As manhãs são reservadas para atividades físicas e, somente à tarde, depois de fazer o “tour” pelos hospitais para monitorar os pacientes, é que ele cumpre expediente na clínica.

(Foto: Rafael Roncato)

Marchesini conta que, hoje, um de seus prazeres é pegar sua Harley-Davidson – uma DeLuxe customizada – e encarar a estrada, ritual sagrado aos sábados. Há cerca de quatro anos, ele cruzou a Costa Oeste dos Estados Unidos, passando pela lendária Route 66. Rodou mais de seis mil quilômetros. Cruzou a ponte Golden Gate e foi tomar vinho no Napa Valley. Pouco antes, já tinha encarado a Costa Leste americana para apreciar o mar caribenho de Key West.
Servidor público aposentado, professor emérito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Marchesini não abre mão, no entanto, de continuar trabalhando e se manter atualizado sobre sua área. “Muitas verdades de ontem passaram para a história da medicina. O progresso da profissão não admite o profissional que para no tempo”, justifica.

Aposentadoria também não é uma palavra existente no dicionário da poeta Alice Ruiz, 71 anos. Ela começou a escrever contos aos nove anos e a produção nunca mais parou, ganhando versos e composição musical. Hoje, Alice soma mais de 20 livros publicados. Seus haicais foram “descobertos” pelo poeta curitibano Paulo Leminski, com quem foi casada e teve três filhos, Miguel, Áurea e Estrela. Atualmente morando em São Paulo, Alice viaja o Brasil e o exterior ministrando oficinas literárias – sem rotina nem falta dela. “Eu tenho a juventude acumulada. Quando você está disposto a começar coisas novas, não se sente velho”, afirma a escritora, que está na estrada com tanta frequência que “tirar férias” é sinônimo de ficar em casa.

“Eu tenho a juventude acumulada. Quando você está disposto a começar coisas novas, não se sente velho.” Alice Ruiz

Tempo de liberdade

De acordo com Thiago Gaudêncio, gerente da Michael Page, consultoria que atua com recrutamento de executivos, é cada vez mais frequente ver profissionais de alto nível dando sequência à carreira, mesmo depois da aposentadoria. “Não acredito na aposentadoria como ocorria com as gerações anteriores”, analisa.

Segundo ele, este é o perfil dos profissionais que já não dependem mais financeiramente do trabalho, mas, ao mesmo tempo, não querem interromper suas atividades. Gaudêncio afirma que, para eles, o “normal” é mudar o foco, migrar para outras áreas ou apenas reduzir o ritmo de trabalho. “Eles estão no auge da atividade intelectual e a produtividade é ainda maior.”

A aposentadoria aos 50 anos representou uma mudança de rumo para a empresária Regina Coeli de Almeida Franzon, 75 anos. Depois de 34 anos trabalhando como professora de Educação Física em escolas de Londrina (PR), começou buscar outras atividades. Chegou a investir em um empreendimento na área gastronômica, mas acabou seduzida pelo setor imobiliário, área na qual montou uma consultoria.
Hoje, no entanto, além do trabalho, Regina aproveita o tempo para ampliar seus conhecimentos, cuidar da saúde e viajar (um dos destinos recentes foi a Disney, nos Estados Unidos, com um dos netos). Na rotina semanal, não podem faltar aulas de inglês, em que aprofunda o idioma e amplia sua rede de relacionamentos, e de pilates.

A ex-executiva Ivana von Linsingen, 55 anos, que hoje se dedica à família e a ações voluntárias, trabalhou por 30 anos na área financeira e, há dois, deixou a superintendência executiva de uma multinacional e trocou a cidade grande por uma chácara na Região Metropolitana de Curitiba. A necessidade de mudar a rota, porém, não aconteceu de repente. Além do planejamento profissional, teve ainda organização financeira e a cumplicidade do marido. As videoconferências com executivos do outro lado do mundo foram substituídas pelas atividades próximas à natureza, pelos cuidados com a saúde e pelas ações sociais voluntárias, sem vínculo com instituições.

O fato de parar de trabalhar não impediu Ivana de continuar estudando, mas ela garante que é por puro prazer. E, às vezes, aceita convites para dar aulas em universidades. A condição, no entanto, é não ter vínculo com a instituição.

Mercado em ascensão

Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) projeta que o número de pessoas com mais de 60 anos no Brasil deve triplicar até 2050. No restante do mundo, a previsão é de um crescimento menor, apenas duplicando essa faixa da população. Essa projeção está mexendo com a programação das políticas públicas no país e também com os serviços na área privada, que já começaram a se preparar para atender esse público.

Medicina preventiva

A médica Loana Valiati, que trabalha na área da medicina preventiva, afirma que vem crescendo gradativamente o número de pessoas que, já a partir dos 35 anos, procuram ajuda profissional para garantir a saúde e a qualidade de vida na terceira idade. “A medicina precisa voltar a olhar para o paciente, e não apenas para a doença”, argumenta.

Centro de atividades

Já a psicóloga Regina Célia Celebroni Lourenço, doutora em Distúrbios da Comunicação e autora do livro Linguagem e velhice, coordena um grupo de idosos e realiza oficinas literárias e da palavra para estimular pessoas com mais de 60 anos a relatarem suas histórias de vida. Além da troca de experiências, é uma oportunidade para falar sobre aspectos subjetivos dessa fase da vida, como a transformação do corpo, perdas de familiares e amigos e o posicionamento na sociedade atual.
Regina desenvolve esse trabalho no Centro de Atividades Vivere Bene, em Curitiba, um espaço destinado exclusivamente para esse público realizar atividades físicas, artísticas e intelectuais. Semelhante ao conceito de uma “escola-academia”, a Vivere Bene promove passeios, aulas e cursos, contratados conforme os gostos e necessidades dos frequentadores. Há, inclusive, o serviço de transporte, para facilitar o acesso dos alunos às aulas.

Ensino especializado

A Tea Time é uma escola de inglês direcionada exclusivamente a alunos com mais de 50 anos. Proprietária e coordenadora pedagógica da escola, Taiza Lombardi explica que o sucesso do empreendimento, que já conta com duas unidades em Curitiba, deve-se principalmente ao fato de os alunos se sentirem mais à vontade para aprender o idioma entre colegas da mesma faixa etária. “Muitos já tinham passado por outras escolas, mas não se adaptaram porque as turmas eram muito ecléticas, às vezes formadas por crianças e adolescentes que precisam de outras dinâmicas”, comenta.
E, em 2015, a Universidade Positivo implantou a Universidade da Maturidade, para promover cursos destinados ao público mais maduro e com foco na promoção da saúde física e mental dos idosos. Os módulos são oferecidos em três núcleos: Conhecimento, que promove aulas de idiomas, informática, espiritualidade, leitura e expressão; Cultura e Ações Sociais, que, com o intuito de promover a socialização e a apropriação de temas variados, leva aos alunos atividades como filmes, palestras, passeios, projetos comunitários e viagens; e Informação e Vivência, com oficinas e cursos variados de curta ou média duração, rodas de conversa, teatro e coral. “É uma oportunidade para que as pessoas nessa fase da vida possam ter novas perspectivas de aprendizado e de descobertas”, salienta o psicólogo Adjuto de Eudes Fabri, um dos coordenadores técnicos da UP Maturidade.

Pelo mundo

Noruega: É considerado o melhor país do mundo para viver durante a terceira idade, de acordo com o levantamento Global AgeWatch Index, trabalho da ONG HelpAge International em parceria com o Centro de Pesquisa do Envelhecimento da Universidade de Southampton. Todos os cidadãos com mais de 65 anos recebem aposentadoria. Na faixa que vai dos 55 aos 64 anos, mais de 70% têm emprego. As políticas públicas direcionadas e as instituições destinadas ao atendimento da população idosa ganharam destaque no país.

Japão: Tem a maior proporção de idosos do mundo: mais de 26% da população. Autoridades calculam que praticamente um terço da população será idosa em 2030. O Japão, no entanto, é um dos países em que esse público tem a melhor qualidade de vida. Dados da CIA World Factbook mostram que a taxa de obesidade no Japão é somente de 5%, contra 33% nos Estados Unidos, 26% na Espanha e 20% no Brasil.

Estados Unidos: A terceira idade começa aos 55 anos e todo cidadão passa a contar com uma série de benefícios: descontos em cruzeiros, restaurantes, compras e acesso prioritário em hospitais, bancos e órgãos públicos. As empresas dedicam vagas específicas para quem já passou dos 50. Comunidades e condomínios construídos exclusivamente para esse público são comuns. Na Flórida, foi criada uma cidade para a terceira idade: The Villages era um vilarejo para aposentados na década de 1970 e hoje já abriga 120 mil pessoas – número que não para de crescer.

 *Matéria publicada originalmente por Danielle Blaskievicz, com fotos de Mariana Alves, na edição 203 da revista TOPVIEW.

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