O que tem na Caixa do Macho? Porquê repensar a masculinidade - TOPVIEW

O que tem na Caixa do Macho? Porquê repensar a masculinidade

Termo criado pelo educador norte-americano Tony Porter traz reflexões sobre como definimos masculinidade e as características exigidas socialmente dos homens

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Tony Porter lembra vividamente do momento em que seu pai perdeu um filho. Na volta do enterro, o patriarca parou o carro na estrada para a família usar o banheiro, e, apenas nesse momento, permitiu-se chorar. Mas não diante das mulheres – apenas na presença de Tony. “A lembrança que mais me marcou é dele se desculpando por ter chorado na minha frente”, conta Tony.

Foi essa uma das situações que fez o educador e ativista refletir sobre sua condição de homem — o que lhe era permitido e o que era negado. Nessa história, deparamo-nos com a primeira — e talvez mais clara — característica da masculinidade hegemônica: não demonstrar emoções e sentimentos. “Os meninos têm que seguir [esse padrão], eles são cobrados por isso. Não existe outra opção, senão vai deixar de ser considerado menino. Isso coloca em xeque a masculinidade”, reflete Grazielle Tagliamento, doutora em psicologia, coordenadora do Núcleo de Diversidade de Gênero e Sexualidades (Diverges) e professora da Universidade Tuiuti do Paraná.

“Engole este choro, homem não chora” – quantas vezes você já ouviu frases como essa? Esse é um exemplo cotidiano que reflete como são exigidas determinadas características para cada criança a partir de seu gênero. Aos meninos, são negadas as brincadeiras com bonecas e de casinha, o que revela como a sociedade vê a paternidade e os cuidados domésticos — como algo que está mais nas mãos das mulheres do que dos homens.

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Aos homens não é permitido demonstrar emoções – exceto a raiva. (Foto: Unsplash).

A socialização dos homens

Ao analisar a situação, Tony criou o termo Caixa do Macho para designar o conjunto de características que definem o que é ser homem. Esse processo de socialização inclui lições — explícitas ou implícitas — do que é certo e errado. Entre elas, existem condutas que podem ser tóxicas para si e para os outros — em especial para as mulheres. É o que conhecemos como masculinidade tóxica. “Quando falamos em gênero, precisamos pensar em relações de gênero. Todas as pessoas envolvidas — pais, crianças, mães, a sociedade como um todo — são afetadas quando existem essas masculinidades tóxicas”, aponta Grazielle.

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O cuidado com os filhos, por exemplo, ainda é vista como algo mais relacionado às mulheres do que aos homens. (Foto: Unplash).

Essas e outras crenças — como a ideia de que homens são sempre dominantes, estão no comando, são fortes e não sentem medo — são parte dessa Caixa do Macho. Repensar esse padrão tóxico é o que motivou Tony a criar a Call to Men (um chamado para os homens, em tradução livre), uma organização que ensina homens ao redor do mundo a praticar uma masculinidade saudável e baseada em respeito para, assim, prevenir casos de violência contra a mulher, assédio e estupro.

“Quando falamos em gênero, precisamos pensar em relações de gênero. Todas as pessoas envolvidas — pais, crianças, mães, a sociedade como um todo — são afetadas quando existem essas masculinidades tóxicas.”

A desvalorização das mulheres é construída a partir de vários pilares, como a atribuição de uma carga negativa ao fazer uma atividade “como uma mulher” e a objetificação dos corpos femininos. “Todos os homens são socializados para ver as mulheres como objetos, como propriedade dos homens, e que têm menos valor que eles. Essas ideias são ensinadas aos homens — às vezes inconscientemente — e reforçadas pela sociedade”, resume Porter, em entrevista à TOPVIEW.

Deixar a Caixa do Macho faz com os homens possam viver com mais bem-estar e saúde física e emocional. (Foto: Unsplash).

Enquanto a masculinidade hegemônica exige que o homem queira sexo a todo momento e tenha o olhar sexualizado, em qualquer situação, aos corpos do gênero oposto, as mulheres convivem com constantes assédios e abusos de vários tipos. “Isso [a objetificação] desumaniza, e, ao desumanizar, permite que eu violente. Se eu estou no controle e a pessoa é destituída de humanidade, é muito mais fácil cometer a violência”, explica a psicóloga.

Como largar os padrões tóxicos

A solução, para Porter, é os homens abandonarem a Caixa do Macho. “Precisamos começar a questionar, olhar para essas características e entender o processo de desconstruir e redefinir o que conhecemos como masculinidade”, sugere. “Somos parte do problema e também parte da solução.” Trata-se de entender que as masculinidades são plurais e diversas — e que podem ser saudáveis. “Abraçar uma masculinidade saudável prevenirá a violência e a discriminação contra mulheres e meninas e irá melhorar a saúde física e o bem-estar emocional dos homens”, complementa.

“Somos [homens] parte do problema e também parte da solução.”

Os debates devem começar na infância, quando a criança começa a receber essas “obrigações” sociais. “A escola tem um papel importante nisso. Precisamos desconstruir esses padrões desde cedo. Ensinar a respeitar as outras pessoas e que existem várias maneiras de ser homem.” Aos homens adultos, a premissa é a mesma: conversar, entender e ressignificar o que é ser um homem

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Assista ao Ted Talk “A call to men” no link: bit.ly/CaixadoMacho.
Leia: Sejamos todos feministas, livro da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie que debate as relações de gênero e como as expectativas para cada um é diferente – e, muitas vezes, injusta.
Assista: The mask you live in, documentário na Netflix que retrata como os meninos têm que esconder seus sentimentos e usar “máscaras” para atingir o ideal esperado de masculinidade.
Acompanhe: MEMOH (@projeto. memoh), projeto que propõe reflexões sobre as diversas masculinidades.

* Matéria publicada originalmente na edição 225 especial Homens.

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