Titãs contra o comodismo. Uma entrevista exclusiva com Tony Bellotto

Titãs contra o comodismo

Tony Bellotto estreia ópera rock no Festival de Curitiba e fala sobre feminismo, reinvenção e as três décadas da banda paulista

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Tony Bellotto

Como não se repetir após três décadas e meia de carreira e perto de 15 discos de estúdio lançados? A questão surgiu para os Titãs depois da turnê de Nheengatu (2014), último álbum de inéditas do grupo paulista, e foi respondida com uma ideia inesperada para uma banda brasileira: criar uma ópera rock nos marcos de discos como Tommy (The Who, 1969), The Wall (Pink Floyd, 1979) e American Idiot (Green Day, 2004).

Depois de dois anos concentrando as energias de Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Bellotto — únicos remanescentes da formação original dos Titãs — o novo trabalho, Doze Flores Amarelas, terá sua pré-estreia no Festival de Curitiba. Serão duas apresentações no Guairão, nos dias 3 e 4 de abril.

Além do baterista Mario Fabre e do guitarrista Beto Lee, integrados ao grupo com a perda sucessiva de membros, a banda sobe ao palco ao lado das cantoras Corina Sabba, Cyntia Mendes e Yás Werneck. Elas serão as protagonistas desse drama com um quê de Black Mirror e denúncia contra o assédio.

“O movimento feminista atual é uma das coisas mais importantes que estão acontecendo em termos de revolução na maneira de ser das pessoas.”

Com a ajuda de recursos cênicos como projeções e narrações, as canções contam a história de três estudantes que consultam uma espécie de aplicativo “oráculo” antes de ir a uma festa, onde acabam sendo estupradas por cinco jovens. Sem saber o que fazer, voltam a consultar o aplicativo e são orientadas a se vingar com a magia das 12 flores amarelas. Ao final, decidem se livrar do oráculo, denunciar os estupradores à polícia e viver seguindo suas próprias escolhas.

“Vai ficar um espetáculo diferente de tudo o que a gente já fez”, disse o guitarrista Tony Bellotto, por telefone, no meio de um ensaio em São Paulo no dia 7 de março.

“A gente sempre teve um compromisso, desde o começo da carreira, com a relevância e com a carga de novidade estética que cada trabalho pudesse proporcionar.”

O clima, segundo o músico, era de ansiedade — sinal de que o projeto cumpriu pelo menos o objetivo de instigar a banda e seus integrantes quase sessentões. Bellotto contou que o projeto fez bem para a motivação do grupo. Os músicos verteram 25 canções (com sobras) e puderam experimentar diferentes instrumentações dentro do estilo roqueiro da banda. “Ficamos numa verdadeira febre criativa”, conta o guitarrista.

Na entrevista a seguir, o músico explica a escolha pela ópera rock, fala sobre os desafios de uma banda longeva como os Titãs e conta como é envelhecer nesse meio conciliando família e sua carreira paralela na literatura.

 

Tony! ? @manuwers

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Por que uma ópera rock?
Quando acabou a turnê do Nheengatu [2014], a gente se reuniu e falou: “o que a gente vai fazer agora? [Vamos] fazer mais um disco com músicas inéditas?” [Ia] ser muito difícil de superar o Nheengatu, porque ele foi muito bem sucedido. Aí surgiu primeiro essa ideia, não sei de quem, de fazer uma ópera rock. Não existe ópera rock no Brasil. A gente tem os musicais do Chico Buarque; tem algo ali no Arrigo Barnabé, com o Clara Crocodilo [1980], que fez uma coisa que também é uma narrativa. Mas uma ópera rock mesmo, em essência, não tem.

Como foi criar neste formato?
A gente começou fazendo encontros criativos com o Hugo Possolo, que é diretor de teatro, e o Marcelo Rubens Paiva. [Fomos] conversando sobre o argumento, a história que a gente queria contar. A partir daí, a gente foi compondo as canções. Durante o processo, com o Hugo, começamos a enxergar também a possibilidade de aquilo virar um espetáculo interessante do ponto de vista cênico.

Uma das canções do novo projeto parece comentar a cultura do estupro, tema que ganhou força nos últimos anos. O espaço público é um impulso criativo para a banda?
Acho que sim. Você pode dizer que desde o Cabeça Dinossauro [1986], ou até mesmo antes, a gente sempre teve essa ligação com esses assuntos prementes. As canções nunca são panfletárias. Elas sempre se colocam de uma forma em que os personagens vivenciam as coisas. Mas acho que a realidade é fonte de inspiração sim — sempre foi.

Neste caso, a intenção foi entrar em sintonia com o feminismo?
É difícil dizer exatamente por que nasceu a ideia. Nós todos reconhecemos que o movimento feminista atual é uma das coisas mais importantes que estão acontecendo em termos de revolução na maneira de ser das pessoas. Não dá para ficar alheio a isso. Quando começamos a história, pensamos no hedonismo da juventude ligado à questão das redes sociais, da internet, em tudo isso. Em determinado momento, pensamos nessas três meninas como nossos alter egos e a história foi nascendo. A gente não quis fazer uma obra feminista. Fizemos uma obra de arte como a gente cria [todas as nossas outras] músicas. Essa questão está colocada ali porque é muito premente. É impossível falar das coisas que acontecem hoje em dia sem passar por isso.

Comparando com a época em que vocês começaram, como veem esse debate hoje?
Hoje está acontecendo uma transformação em função desse ativismo que as mulheres têm feito. Agora, sempre tivemos uma cabeça aberta. Sempre fomos sensíveis a essa questão e contra essa atitude machista. As coisas em que acredito hoje são coisas em que já acreditava na década de 1970, quando estava me formando como pessoa. O que é interessante hoje é que realmente essa discussão está tendo conquistas maiores.

Como é tentar continuar fazendo trabalhos relevantes em uma banda que já tem tanto tempo de trabalho?
É difícil e é estimulante. A gente sempre teve um compromisso, desde o começo da carreira, com a relevância e com a carga de novidade estética que cada trabalho pudesse proporcionar. Foi assim desde o começo. Quando a gente acertava a mão — como foi com Cabeça Dinossauro, por exemplo —, tinha essa compulsão de fazer melhor no disco seguinte. Essa ópera rock veio ao encontro disso.

Esse desafio sustenta o grupo até hoje, de certa forma?
Em uma banda com a história e a idade que a gente tem, é muito fácil você cair numa coisa de viver das glórias passadas — fazer shows tocando os hits dos anos 1980 e 1990 e ficar um pouco acomodado nessa situação de uma superbanda que só requenta seu próprio repertório. Mas isso realmente não é uma coisa que justifique estarmos juntos. A gente precisa desses desafios criativos, estéticos. É realmente isso que nos faz estar juntos até hoje, mesmo com tanta gente que saiu.

A relação com o universo do rock vai mudando conforme vocês vão envelhecendo?
O espírito que prevalece quando estamos juntos é muito parecido com o que sempre foi. Nesse sentido, a banda tem um certo antídoto contra a velhice — no sentido de caretice, de comodismo. É um pouco paradoxal, porque, ao mesmo tempo em que todos nós já estamos nos aproximando dos 60 anos de idade e 36 de carreira — com toda a vivência pessoal e experiência —, na hora em que estamos juntos pinta muito o espírito de banda mesmo. Uma coisa meio juvenil, de surpreender, ousar.

Vocês ainda fazem três, quatro shows por semana no Brasil todo. Nas idades em que estão fica mais difícil administrar as energias para se manter nessa rotina?
Hoje em dia a gente toma cuidados que não tomava quando tinha 20 e poucos anos, claro. Antigamente, a gente fazia um show, virava a noite e, no dia seguinte, já estava fazendo outro. Esse tipo de coisa a gente não faz mais. Somos mais caretas no sentido de nos preocuparmos com detalhes como o hotel, se vamos poder chegar numa hora boa para poder descansar, passar o som com calma e voltar, não sair muito cedo no dia seguinte para poder dormir. Mas na hora em que chegamos lá [para tocar], é meio parecido com o que sempre foi. Tem uma ansiedade, uma adrenalina que faz você até se esquecer da idade. Depois, quando você volta para o hotel, sente aquelas dores nos quadris que não sentia aos 28, mas tudo bem [risos].

 

Parabéns Tony Bellotto, muitos mais anos de vida!

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Com essa agenda, em que momentos você escreve?
Eu já venho escrevendo profissionalmente há mais de 20 anos. Lancei Bellini e a Esfinge em 1995, já há 23 anos. Desenvolvi uma disciplina assim: quando não estou fazendo shows, nos dias da semana em que estou em casa, escrevo. Quando vou viajar para os shows, aproveito para fazer revisão, reler o que eu [escrevi]. Encaixo essa coisa de escrever nas brechas. Quando estou compondo, como a gente fez muito intensamente agora, para a ópera rock, aí realmente não consigo também estar escrevendo um livro. Mas essas coisas acabam se alternando de uma maneira muito orgânica. Uma coisa compensa a outra na minha cabeça.

Você tem quase 30 anos de casado e filhos já com seus 20 e poucos anos. Como vocês fizeram o casamento dar certo precisando conciliar tudo isso?
[Risos] É uma coisa que até a gente se pergunta. A gente fala que, se tivesse uma fórmula, poderia escrever um livro e se aposentar. Acho que — além, claro, do amor muito forte e do respeito e admiração mútua que eu e Malu [Mader] temos um pelo outro — uma coisa que ajudou muito nosso casamento foi justamente o fato de ela ter o trabalho dela e eu ter o meu, e estar muitas vezes viajando. A gente sempre está se reencontrando. [Isso] mantém um pouco daquela coisa da paixão, do namoro. [Depois de] uma semana viajando, você volta com saudade. Não tem aquela rotina diária massacrando estes sentimentos mais românticos em função da administração burocrática do dia a dia.

Serviço

Doze Flores Amarelas
Teatro Guaíra_R. XV de Novembro, 971, Centro.
Ensaio aberto: 3 de abril, às 21h. Pré-estreia: 4 de abril, às 21h. R$ 70 e R$ 35 (meia-entrada).

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