O olhar das indústrias na pós-crise da Covid-19 - TOPVIEW

O olhar das indústrias na pós-crise da Covid-19

Presidente da Fiep esclarece a situação das empresas paranaenses diante da paralisação de isolamento social

Compartilhe

Em um momento de paralisação como esse em que estamos vivendo, muito se questiona muito a respeito da expectativa da indústria pós-crise. Em abril, realizei uma entrevista exclusiva com quem tem exímia sabedoria sobre o tema: ninguém menos que o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), representante de todo o setor industrial paranaense, Carlos Walter Martins Pedro. 

Parabéns pela sua gestão frente a essa importantíssima Federação das Indústrias do Estado do Paraná. Um maringaense à frente desta instituição.
Atuo na indústria há quase 40 anos, sempre reconhecendo a importância do associativismo, atuando em sindicatos e associações de classe. Para mim, é uma honra e uma grande responsabilidade assumir esse desafio.

Para quem não sabe, o Paraná tem 50 mil industriais, de 37 segmentos, que geram cerca de 763 mil empregos. Segundo o Ipardes, o PIB do Paraná em 2018 foi de R$ 438,6 bilhões. Esse valor equivale a 6,42% do PIB nacional. Em 2018, a indústria respondeu por 26,1% do PIB do Paraná. A Fiep é composta por 108 sindicatos patronais industriais filiados, sendo 99 de base estadual e 9 de base interestadual ou nacional. Confere?
Exatamente. A Fiep é a legítima representante de todo esse setor industrial paranaense. E, junto com Sesi, Senai e IEL, forma o Sistema Fiep, que apoia a indústria em diversas áreas para alavancar seu desenvolvimento.

O senhor assumiu a Presidência da FIEP em outubro de 2019. Na sua gestão, quais os principais pontos de atenção da Fiep em especial neste momento do COVID19?
Temos unidades em todo o Paraná, quase 4 mil funcionários, e prestamos assistência à indústria como missão. Na Fiep, com a defesa dos interesses da indústria; no Senai, com a qualificação profissional e apoio tecnológico; no Sesi, com a questão da saúde e segurança; e no IEL, com a educação executiva. Essa crise nos obrigou a tomar atitudes. Mais de 50% do quadro de funcionários está em férias ou banco de horas. Isso tanto para preservação da saúde dos nossos colaboradores quanto pelo fato de as indústrias estarem em sua maioria paradas, o que diminui o volume de serviços. Já enquanto indústria, temos uma situação nunca antes acontecida, de as empresas serem impedidas de produzir. É algo totalmente inédito dentro de tantas crises que o país já passou, e esperamos que isso seja breve.

A relação da FIEP com o Governo Estadual é boa? Os incentivos fiscais do Paraná são relevantes?
Sim, temos uma boa relação. O governo tem um mandato para gerir o Estado, dado pela população, e estamos colaborando em tudo o que for possível em relação à indústria. Nesta crise, temos tido integração com vários secretários para ajudar, fornecer informações e auxiliar com análises técnicas, até para que eles tenham um embasamento maior para que suas decisões sejam as melhores possíveis. Em relação aos benefícios, o governo tem sido compreensivo com as necessidades da indústria, especialmente neste momento, inclusive tendo renovado recentemente algumas isenções tributárias para diversos setores, que assim têm mais condições de concorrer com indústrias de outros estados e manter os empregos em território paranaense.

E com o Governo Federal? A desoneração da folha de pagamento e a reforma trabalhista colaboram com o crescimento das empresas? Quais os pleitos da FIEP hoje junto a Governo Federal?
Os avanços que tivemos na legislação trabalhista e em alguns benefícios ajudaram na evolução do setor produtivo. Porém, ainda é preciso avançar. O controle tributário, com a entrega de dados que a empresa tem que fazer para o fisco, é um ponto que precisa ser melhorado. Quando vou fazer o cálculo de custos, tenho uma mão de obra indireta para fazer esse trabalho para a fiscalização, que é grande e custa muito para as empresas. Na questão trabalhista, nosso funcionário não ganha bem, teoricamente, mas custa caro. Os custos indiretos sobre o trabalho e os direitos indiretos, que não vão para o seu holerite, ainda são muito altos.

Como avalia a política econômica defendida pelo Min. Guedes sob o foco das empresas paranaenses. O dólar elevado pode ser um grande entrave, em que pese a taxa de juros atual atraente?
Tivemos, em 2019, depois de anos de uma recessão econômica perniciosa para o país, uma situação de inflação controlada, juros em patamares mais honestos e um controle sobre a economia mais efetivo. Tínhamos uma base construída no ano passado que nos permitia um otimismo em relação a 2020, motivando até o retorno dos investimentos. Com esta crise não esperada, temos agora um dólar alto, que pode impactar, e principalmente indefinições sobre o tamanho da retração que teremos na economia, qual será o tamanho da competitividade da nossa indústria e qual será o comportamento do mercado consumidor. Isso é angustiante para quem empreende e tem investimento em uma capacidade produtiva. Mas temos também oportunidades com esta crise. Temos muita capacidade empreendedora na nossa indústria e acho que vão surgir oportunidades de alguma evolução dentro desse cenário.

Como o c19 afetou as empresas paranaenses, ocorreu fechamentos e muitas demissões, creio que nenhuma empresa estava preparada para tamanha insegurança jurídica, política e sanitária, qual a sua avaliação do momento? As empresas paranaenses têm condições de aguentar uma paralisação de 2/3 meses se prolongar o isolamento?
O mundo todo não esperava uma pandemia dessa proporção. Entramos em uma situação de recesso quase absoluto, com negócios parados e a indústria numa expectativa do que vamos ter após essa crise, porque não sabemos ainda o quanto vão durar as ações dos governos e das autoridades sanitárias. Estamos irmanados nisso, mas na extrema expectativa de como ficarão a economia e os negócios após essa crise. Uma indústria, com os custos fixos que tem no dia-a-dia, mas parada para preservar a sua força de mão de obra e de maquinário, não aguenta três ou quatro meses sem faturamento. Neste momento, é importante a preservação do emprego e do negócio, e isso depende muito da condução firme, eficaz e operativa dos governos federal e estadual, que são os órgãos que têm o direito e a autoridade para fazê-lo.

O senhor é favor do isolamento ou à volta (ainda que parcial as atividades empresariais)?
Como industrial, preciso da atividade econômica retornando, claro que de forma gradual e com toda a segurança possível, com a preservação da saúde dos nossos trabalhadores e de nós mesmos. A questão da saúde está em primeiro lugar, mas a sobrevivência da atividade econômica também se faz vital. Enquanto empresário, defendo o retorno gradual e seguro ao trabalho. Enquanto cidadão, me preocupo com a questão da saúde dos meus funcionários e da comunidade como um todo. Precisamos ajudar e respeitar as autoridades que têm esse poder para que façam da melhor forma possível e que nosso setor de saúde esteja o mais preparado possível para atender a população.

Qual o perfil de composição atual das empresas paranaenses? Houve aumento no volume de novas médias e grandes empresas nos últimos anos?
A indústria do Paraná é diversificada. Apesar da preponderância da região de Curitiba, capitaneada pelas grandes indústrias, muitas delas players mundiais, como as montadoras, temos uma indústria espalhada por todo o Paraná, em 37 segmentos. Uma indústria de maneira geral bem tecnificada, com processos produtivos modernos e produtos competitivos, estando entre os cinco estados mais produtivos do Brasil. Em relação ao porte das empresas, entre 2014 e 2018, houve aumento no percentual de microempresas, que passaram de 71,1% para 73,2%, e manutenção das grandes empresas, que são 1,1% do total. Já o percentual de pequenas empresas passou de 22,7% para 21%, enquanto as médias empresas, que representavam 5,1%, passaram para 4,7% do total.

Antes da crise do C-19, de que forma a Fiep atuou e atuará para defender e garantir a competitividade da indústria paranaense frente a outros estados e até empresas estrangeiras?
A indústria é a verdadeira razão da existência do Sistema Fiep. Por isso, precisamos valorizar o empreendedorismo, a força e a luta diária de nossos industriais. Tudo o que fazemos deve ser voltado para o benefício da indústria. O que queremos é que, em cada projeto, serviço ou ação que FIEP, Sesi, Senai e IEL promovam dentro de suas missões, busquem sempre atender as reais necessidades das indústrias. Prestar esse apoio é uma forma de defender e tornar a indústria mais competitiva. Além disso, queremos intensificar o relacionamento com as diferentes esferas do poder público, responsáveis por políticas que impactam na atividade produtiva. O que diz respeito à indústria, vamos tratar firme e forte, e o que for transversal, que interfira em todos os segmentos, quero integrar cada vez mais nossa atuação com a das demais entidades do G7, o grupo que reúne os principais representantes do setor produtivo paranaense. 

Como avalia o apoio do atual governo do Paraná neste momento? Quais são as principais reinvindicações da FIEP?
Os governos estadual e federal têm capacidade e autoridade para agir, para determinar os caminhos e as atitudes. Estamos hoje muito à mercê dos governos, que estão fazendo o máximo nessa situação de crise, que também é inusitada para eles. Temos ações para contenção da expansão desse vírus, que afeta todos nós, e também de apoio à indústria, com anúncios de medidas nas áreas de crédito e trabalhista, entre outras. Temos dois pontos fundamentais: a preservação da saúde e da vida do nosso trabalhador da indústria, e a preservação do negócio e do emprego do nosso trabalhador. As ações dos governos, principalmente em relação a crédito, ainda não estamos vendo operacionalizadas pelos repassadores bancários, mas cremos que isso acontecerá e é necessário. 

“Mais de 50% do quadro de funcionários está em férias ou banco de horas.”

Quais são os gargalos de infraestrutura que considera impactantes para a indústria paranaense e em que medida isso tem sido tratado pelo Governo?
Aprimorar a nossa infraestrutura é um dos caminhos para reduzir custos e aumentar a competitividade da indústria paranaense. Existem melhorias que precisam ser feitas em todos os modais de transporte. As soluções para esses gargalos passam por uma união de esforços entre poder público e iniciativa privada, dependendo de planejamento e investimentos. Temos atuado em parceria com as demais entidades representativas do setor produtivo do Paraná, articulando junto às diferentes esferas governamentais para buscar a viabilização dessas obras necessárias.

Em termos de intensificação do crescimento em especial neste momento do COVID- 19, considera que as reformas previdenciária, administrativa e tributária debatidas são suficientes?
É preciso buscar caminhos para que tenhamos uma estrutura pública mais eficiente, que permita um sistema tributário mais justo. O custo dos nossos produtos ainda é alto, e não por culpa da indústria. Em relação ao nosso custo da porta para dentro, conseguimos reduzir, mas quando você agrega os impostos e fatores posteriores à produção, você torna o produto caro. E isso é injusto com o nosso consumidor, que paga caro no produto nacional pelos impostos que estão embutidos nele. Por isso, a Reforma Tributária é tão importante. Temos que tirar essa carga de cima do produto e colocar de outra forma, tornando mais justa a cobrança.

A indústria paranaense está hoje preparada para competir de forma agressiva com produtos concorrentes importados? Em especial com os asiáticos. A indústria paranaense tem condição tanto de maquinário quanto de processo produtivo para avançar muito e ser competitiva no produto que faz, mas o governo precisa dar condições para que ela produza com um custo adequado. Precisamos desonerar a produção. Precisamos dar um jeito de que, se eu fabrico uma peça aqui no Brasil, ela seja tão competitiva quanto uma que é fabricada em outros países – não apenas na Ásia, mas também nos Estados Unidos, na Europa ou em qualquer lugar do mundo. É inadmissível um país do nosso tamanho, o quinto maior em extensão territorial, a sexta maior população, com um grande mercado consumidor, ser explorado pela indústria de fora. Precisamos mudar a estrutura fabril do país para que não se dependa tanto de produtos de fora. Isso é uma questão até de segurança nacional e espero que seja olhado de uma forma mais efetiva.

Em que medida a FIEP tem contribuído com as empresas e seus trabalhadores para melhorar a qualificação técnica destes frente às transformações tecnológicas?
O Paraná e o Brasil têm um grande desafio pela frente no que se refere à qualificação técnica para que especialmente a indústria aumente sua competitividade e produtividade por meio da tecnologia. Porém, é importante olhar essa questão não pelo viés da ameaça, mas das oportunidades trazidas por essa nova realidade. A indústria é um excelente lugar para o desenvolvimento de carreiras. Hoje, os avanços tecnológicos e a normatização que existe sobre a indústria a tornaram muito atrativa para quem quer ingressar em uma carreira mais técnica. Nesse processo, o Sistema Fiep, por meio do Senai, possui uma ampla estrutura e conhecimento para capacitar trabalhadores dos mais diversos setores, já levando em conta as últimas tendências que têm sido aplicadas na indústria. Queremos agregar cada vez mais valor a essa formação, preparando os profissionais que a indústria vai demandar quando houver uma retomada efetiva dos investimentos e da produção.

Considera que o alto volume de normas regulamentadoras trabalhistas e ambientais ainda é um entrave na atividade industrial ou isso tem mudado ao longo dos anos?
Tivemos avanços nos últimos anos, mas isso ainda é muito grave. O Brasil é uma miscelânea de normas e regulamentos. Isso vale para a área trabalhista, ambiental e tributária, em que temos uma das situações mais difíceis do mundo. Em relação às normas regulamentadores, as empresas foram obrigadas, por exemplo, a fazer adaptações em equipamentos que funcionam por anos e anos, sem nenhum acidente de trabalho. Isso gera um custo alto de produtividade para o país.

Como a FIEP tem apoiado o desenvolvimento industrial no interior do estado do Paraná?
Pretendemos valorizar a indústria do Paraná como um todo. A região metropolitana de Curitiba ainda prepondera porque concentra a maioria das indústrias, mas existem importantes polos industriais em todas as regiões do Estado. Precisamos fomentar que, cada vez mais, as diferentes regiões tenham apoio tecnológico e de formação profissional para que suas indústrias consigam evoluir, agregar mais tecnologia e produtividade. Assim, teremos cada vez mais produtos importantes e a evolução da indústria regional. O Sistema Fiep tem condições de prestar esse apoio e é o que vamos fazer.

Qual sua mensagem para os empresários do Paraná? Qual a sua expectativa de futuro?
A mensagem é de esperança. Sempre tivemos crises e sempre fomos muito criativos e empreendedores, buscando saídas. Vamos usar isso a nosso favor nesta crise e também para avançar quando ela passar.

*Coluna originalmente publicada na edição #236 da revista TOPVIEW.

In this article

Join the Conversation