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O poder do local

Em meio à crise, floresce a consciência de que a sobrevivência dos negócios locais depende das escolhas individuais de cada um

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A empresária Ticiana Martinez, fundadora da Ôda Design Club, celebra o momento de prosperidade que sua marca e a comunidade criativa curitibana vive agora. Pode soar estranho falar em bonança diante da maior crise do século – entretanto, para Ticiana, isso se deve por conta do movimento de fortalecimento do mercado local. “A maior preocupação era se existia demanda e percebeu-se que, sim, as pessoas estão encontrando formas de fomentar o mercado. Caiu a ficha para essa percepção do sutil. Agora, o que era uma conversa bonita virou uma atitude, um comportamento. Foi de uma ação de guerra para uma rede de apoio”, reflete.

O que Ticiana percebeu em seu negócio também foi observado por especialistas. O Guia de Tendências 2020-21 – Sociedade e Consumo em Tempos de Pandemia, produzido pelo Sebrae, aponta a consciência local como uma microtendência forte. “A pandemia trouxe um nível diferenciado de consciência aos consumidores. Muitas pessoas estão priorizando comprar localmente, especialmente nos bairros e nas cidades”, afirma João Luis Moura, consultor de inovação do Sebrae. O relatório aponta que, por perceber a própria instabilidade financeira e a dos colegas e familiares, as pessoas estão mais propensas a compreender a necessidade de apoiar esses negócios.

(Foto: Shutterstock)

No entanto, o movimento faz parte de uma macrotendência mais antiga, a atenção das pessoas para a preferência por produtos locais e pequenos negócios. Ainda em 2018, a WSGN, referência global em tendências de consumo, previa o crescimento do comércio doméstico e a valorização do artesão. “A pandemia é uma lente de aumento e uma espécie de catalisadora de movimentos que já existiam. Ela deixou muito mais claro o quanto os negócios locais precisam de nós”, analisa Iza Dezon, especialista em tendências e sócia-fundadora da Dezon Consultoria Estratégica.

A tendência carrega, também, outros comportamentos, como a preocupação com a redução do impacto ecológico do consumo. Para Iza, o mais importante nesse cenário é o senso de comunidade e pertencimento. “Vemos a importância de entender que nós somos parte ativa de uma coisa muito maior do que a gente. Se não investimos no que é nosso, quem vai investir?”, reflete.

(Foto: Amanda Lavorato)

O locavorismo foi o precursor desse pensamento. Há cerca de seis anos, percebeu-se um movimento de volta ao local pelo viés da alimentação. “A Time Magazine publicou uma matéria com o chef René Redzepi, do Noma, a primeira pessoa a introduzir a alta gastronomia local. Era o locavorismo. Veio, também, do luxo, do movimento slow, na Itália, que se tornou mais abrangente no mundo”, ressalta Iza. “Antes, passamos muitos anos mistificados com a noção de globalização, de que o mundo podia ficar pequeno e tudo podia chegar a todos os lugares.”

A empreendedora Geovana Conti, fundadora da Youngers, levou esse movimento para as comunidades curitibanas. Criou o Vale Quarentena, um projeto sem fins lucrativos que conecta quem está vulnerável nesse período a pequenos negócios, como padarias, mercearias e mercados dos bairros. “Em vez de nos movimentarmos para doar cestas básicas, preferimos fazer uma doação mais inteligente. Quem sou eu para dizer que tal pessoa vai comer determinados alimentos? Preciso dar autonomia para que ela vá ao mercado e escolha o que ela precisa na casa dela”, defende Geovana. A população usa os vales, que variam entre R$ 25 e R$ 100, para consumir dos pequenos empreendimentos.

(Foto: Erik Scheel l Pexels)

Os resultados já estão aparecendo. Segundo Geovana, mais de 25 funcionários desses estabelecimentos tiveram seus empregos preservados. “Mantivemos um movimento de clientes suficiente para que o mercadinho pague as contas. Durante os primeiros três meses, o projeto alcançou mais de 1,3 mil pessoas e foram mais de 3,5 toneladas de produtos comprados nos mercadinhos”, conta. O próprio trabalho da Youngers está dando frutos. A partir das ações sociais para geração de renda, mais de 20 negócios nasceram na Vila Torres durante a pandemia. No último ano, foram mais de 50. “Mais de R$ 60 mil circularam na comunidade”, aponta.

Sobrevivência da diversidade
Desde o começo da pandemia no Brasil, em março, 716 mil empresas fecharam as portas. Apesar de ser uma crise complexa para todos os negócios, os pequenos foram os mais impactados. Das 522,6 mil empresas que afirmaram terem encerrado as atividades por conta da pandemia, 99,2% eram de pequeno porte, com até 49 empregados. Ou seja, quatro em cada dez fecharam por conta da crise sanitária.

Apoiar comércios locais tornou-se uma questão de sobrevivência para esse ecossistema. “É isso que ficou mais latente. Ao começar a se despir dos excessos de uma sociedade zumbi, começamos a olhar para as coisas com outros olhos – e entender. Você tem duas opções: sustentar uma grande cadeia de supermercados que não precisa de você ou focar nos negócios do seu bairro, os quais você pode construir e que realmente precisam de você. Não precisa parar de comprar do grande, mas olhar os negócios com outros olhos e fazer outras escolhas”, defende Iza.

Fechada do Cosmos G/astrobar(Foto: Freepik)

Para João, essa é justamente a grande oportunidade em meio à crise. “Um ponto interessante é o aumento da sensibilidade do consumidor, de valorizar coisas que ele não valorizava antes. Vemos o marketing espontâneo, de pessoas tentando ajudar esses negócios – é a empatia, um laço emocional entre as duas partes. É um processo que não estávamos tão habituados a ver antes”, compara.

Os frutos da empatia
Desde que precisou fechar as portas do Cosmos G/astrobar, em março, a publicitária Jana Santos, sócia-criadora do estabelecimento, começou a compartilhar, nas redes sociais, as dificuldades que estava enfrentando. A partir disso, percebeu que as pessoas passaram a comprar, também, porque acreditavam no propósito da empresa. “Esse trabalho de fortalecer os parceiros locais ajuda as pessoas. É gastar o dinheiro, que está curto, em negócios que ela acredita. Acredito que precisamos mostrar nossos valores e propósitos [do negócio] para que elas comprem porque aquilo representa uma virtude, um cuidado – não é só uma comida”, resume.

O bar Yada Yada Yada é outro estabelecimento curitibano que participa do movimento Fechados pela Vida, do qual o Cosmos igualmente faz parte. Ou seja, também permanece sem atendimento presencial desde março, com o intuito de diminuir a disseminação da Covid-19. Tentaram o delivery, mas não funcionou para manter as contas. Então, decidiram pedir a colaboração dos clientes – e criaram uma vaquinha online. “Fiquei surpresa. Não achei que ia arrecadar o valor (R$ 6 mil) tão rápido. Muita gente fez campanha para nos ajudar. Temos clientes que vinham todos os dias, isso foi bem legal. Teve pessoas que pediram a doação na nossa vaquinha como presente de aniversário”, conta Alyssa Lerie de Lima Aquino, idealizadora do bar.

Casa 102 (Foto: Diego Cagnato l Cria Sua)

Fomentar a economia de Curitiba é um dos pilares do Ebanx, fintech global com sede na capital paranaense. “Estarmos no Vale do Guadalupe, no qual estão todas as startups, faz parte da nossa intenção de valorizar e revitalizar essa região. O Ebanx é sobre dar acesso, criar pontes entre a nossa empresa e a comunidade ao nosso redor. A gente precisa das pessoas e do comércio local. É um fluxo constante”, conta Nayana Rogal, gerente de marketing e head de cultura e comunidade do Ebanx. A empresa tornou-se, recentemente, o primeiro unicórnio do sul do país, ou seja, uma startup avaliada em um bilhão de dólares.

Outra prática cultural da fintech é estar com as portas abertas para a comunidade. Como parte dessa crença, criaram projetos para ajudar os pequenos negócios. Um deles é o Ebanx Beep, serviço gratuito que transforma negócios de diversas áreas em e-commerce. “Pegamos um produto que já tínhamos dentro de casa e, logo no começo da quarentena, mudamos o foco dele. Pensamos em como poderíamos ajudar a comunidade, que estava precisando nesse momento. Então, acomodamos a venda de produtos físicos, serviços e vouchers”, resume.

Com a plataforma, os próprios empresários podem criar uma loja online, de forma simples e rápida. No final de março, eram mais de 1,2 mil lojas registradas. Em junho, já havia mais de 11 mil. “Hoje, as empresas faturam, por meio do Beep, entre 15% e 25% em relação ao faturamento original. Expectativas e análises internas do Beep mostram que é possível chegar a 40%, 50% do faturamento. Um dos motivos é que, estando no mundo online, o vendedor consegue chegar a novos clientes”, analisa Nayara.

Durante esse período, surgiram outras iniciativas no mesmo sentido, como a Compre Local, plataforma digital da Stone. O projeto tem como missão auxiliar o consumidor a localizar e comprar em pequenos estabelecimentos do bairro. No primeiro mês de funcionamento, já atingiu a marca de 30 mil estabelecimentos cadastrados.

Redes de colaboração
Em 2016, Daiana Lopes e quatro amigos decidiram criar um espaço compartilhado, uma casa aberta que outras pessoas pudessem utilizar caso precisassem de um lugar para realizar um projeto e ter um escritório ou um ateliê. Assim surgiu a Casa 102, em Curitiba. Criaram, também, uma loja colaborativa, que hoje reúne 40 marcas locais. “[Nosso objetivo é] conectar pessoas com propósitos e necessidades comuns e incentivá-las. Ao invés de competir, trabalhamos juntos. Um negócio ou um profissional ajudando o outro, gerando inputs para os seus projetos e produtos”, conta a cofundadora da Casa 102.

Coletiza (Foto: Amanda Lavorato)

No negócio, buscam promover, também, o consumo consciente, trazendo reflexões sobre sustentabilidade e consumo local. “Esses pequenos negócios movimentam a economia. É uma empresa de uma pessoa que sustenta uma família, que demanda serviços de outros MEIs, outros prestadores de serviço. Quando compramos do pequeno, a gente propicia o movimento de uma cadeia econômica e apoia o nosso próprio desenvolvimento”, opina. “Sem falar de todas as questões ambientais envolvidas nesse processo, todo o desperdício de recurso de energia que a gente tem, acessando bens e matérias que vêm de muito longe.”

A Coletiza é outro projeto que reúne negócios locais em um mesmo ambiente. “É a soma de diversos negócios que se potencializam: um dá suporte ao outro e vamos juntos. Independentemente de estarmos em segmentos diferentes, a nossa essência é a mesma: procuramos fomentar os produtores locais”, conta Patrícia Backes, criadora da Coletiza. A nova iniciativa – que ainda será lançada – é um espaço itinerante que dá oportunidade a outras marcas. “Há muitos criativos que criam, mas não têm habilidade de comercializar aquilo. O objetivo é potencializar as marcas e os projetos que foram afetados pela crise da Covid e precisam se recolocar. Nosso objetivo é ampará-los e motivá-los novamente”, explica.

Confira a segunda parte da matéria principal: Próxima parada: digital

Confira a terceira parte da matéria principal: Inovar para sobreviver

*Matéria originalmente publicada na edição #240 da revista TOPVIEW. 

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