Guilherme Weber, Marcio Abreu e as provocações do Festival de Curitiba

Guilherme Weber, Marcio Abreu e as provocações do Festival de Curitiba

Os curadores do evento trazem as polêmicas envolvendo as artes e o cotidiano no Brasil para a programação de 2018

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Há algo de diferente no Festival de Curitiba, que começa no próximo dia 27. Uma das mais importantes mostras de teatro do país, o evento chega à sua 27ª edição com outra cara: menos uma “vitrine” para a estreia de espetáculos estrelados do eixo Rio–SP, mais um acontecimento cultural agitado por ideias e provocações.

Os responsáveis pela virada são os curadores Guilherme Weber e Marcio Abreu, convidados para assumir a programação a partir de 2016. A intenção era mesmo “sacudir o festival”, nas palavras do diretor do evento, Leandro Knopfholz. “Achei que as visões deles teriam força para provocar questionamentos que não estávamos fazendo”, conta. A previsão é que a dupla continue pelo menos até o ano que vem.

“A dificuldade de curadoria para o Festival de Curitiba é que ele precisa, por sua condição e origem, dialogar com públicos muito diferentes” – Guilherme Weber

As histórias dos curadores e do festival se cruzam. O ator e diretor curitibano Guilherme Weber, 45, começou sua carreira na cidade nos anos 1990, e atribui uma parte fundamental de sua formação a criadores daqui — de Paulo Leminski a Marcos Prado. Marcio Abreu, 47, também ator, diretor e dramaturgo, nasceu no Rio de Janeiro, mas veio ainda adolescente para a capital paranaense. No início da carreira, também viu o festival nascer, em 1992.

A ligação dos dois com Curitiba se reflete em um dos princípios da curadoria, que é envolver tanto os artistas quanto o público da cidade na programação. A “ocupação” das ruas por espetáculos como o “Cabaret Macchina”, do coletivo local Casa Selvática, é um exemplo disso.

“Cidade” também é um dos conceitos centrais da temática desta edição, junto com os “corpos”. A proposta é fazer pensar sobre espaço público e privado e sobre “os corpos excluídos historicamente no Brasil”, nas palavras de Marcio Abreu. A programação de espetáculos de dança contemporânea como “Inoah” e “Corpo Sobre Tela” tem a ver com isso e reforça outra ideia dos curadores, que é abrir o festival para outras linguagens artísticas além do teatro.

“Qualquer arte e qualquer experiência artística é passível de leitura por qualquer tipo de público. A gente não julga percepção e capacidade de leitura a priori.” – Marcio Abreu

Polêmicas

Os três anos de curadoria de Weber e Abreu também foram anos de debates ideológicos inflamados no Brasil, inclusive sobre arte. O “momento virulento” do país, nas palavras deles, teve influência direta sobre as escolhas da curadoria.

Uma delas é o projeto “Domínio Público”, uma das coproduções do festival. O espetáculo vai reunir artistas que foram alvo de polêmicas no ano passado: Wagner Schwartz (da performance “La Bête”, no MAM de São Paulo), Renata Carvalho (atriz travesti que interpretou Jesus), Maikon K (da performance “DNA de Dan”, em que fica nu) e Elizabeth Finger (performer e coreógrafa que permitiu que a filha interagisse com o corpo nu de Schwartz em “La Bête”).

Em entrevista à reportagem, Guilherme Weber (por e-mail) e Marcio Abreu (por telefone) falaram sobre a curadoria desta edição, sobre como o clima do país influenciou o trabalho e relembraram uma Curitiba “pulsante e cheia de estímulos culturais”.

Como funciona a parceria de vocês à frente do Festival de Curitiba?
Guilherme Weber: Nos conhecemos há muito tempo, já trabalhamos juntos como atores e sempre tivemos muita sintonia intelectual. Temos ambos relações próximas não só com a cidade de Curitiba, mas com o Festival, que foi o lugar onde nossas companhias cresceram e chamaram a atenção do resto do país. [Weber se refere à Sutil, que criou com Felipe Hirsch em 1993, e à Companhia Brasileira de Teatro, que Abreu fundou em 2000 — e que estará na Mostra 2018 com o elogiado espetáculo “Preto”.]

Marcio Abreu: De certa maneira, a gente tem em comum trajetórias de formação e de relação com uma Curitiba pulsante e cheia de estímulos culturais nos anos 1990 — uma cidade que promovia uma introjeção muito produtiva, mas que também convocava a diálogos mais radicais na arte. É um diálogo que já existe há muito tempo. Cada um acompanha o trabalho do outro, torce pelo outro, então a gente só continuou a conversa em outra instância.

O que vocês perceberam de mais interessante sobre o momento do teatro brasileiro durante o processo de curadoria?
GW: Que ele sobrevive mais uma vez. Que junta seus farrapos e lança sua voz das catacumbas. Que resiste. E que acaba carregando sua vocação reativa ao sistema também pela sua velocidade de resposta.

MA: A produção artística brasileira hoje é extremamente potente, extremamente inventiva, mas extremamente vilipendiada, censurada e limitada em seus meios porque as políticas públicas de cultura estão sofrendo golpes sucessivos. O panorama na produção artística evidentemente se ressente disso. O Festival de Curitiba, que é um dos que conseguem viabilizar sua produção, precisa criar um debate a respeito disso. Ele também sofreu cortes, mas é um festival que tem uma produção muito ativa e potente, e felizmente consegue se manter como espaço vibrante num momento em que a cultura do país sofre muito.

“O teatro sempre respondeu rapidamente às transformações políticas, inclusive pela própria rapidez da sua natureza de criação.” – Guilherme Weber

Como vocês equilibram espetáculos mais “difíceis” com a necessidade de atrair o público?
GW: A dificuldade de curadoria para o Festival de Curitiba é que ele precisa, por sua condição e origem, dialogar com públicos muito diferentes e precisa ocupar salas também de configurações muito diferentes. Fizemos desta necessidade, então, uma chave para a diversidade. A Mostra Oficial vai do espetáculo mais pop ao mais radical, hermético. De Titãs a Eleonora Fabião. Desta maneira se contempla diversos públicos e se faz formação de plateia. Pois o público se formando não está todo no mesmo estágio. Quem começou a frequentar as salas dois anos atrás já pode hoje fazer opções mais arriscadas, um pouco mais herméticas.

MA: A primeira coisa que acho importante dizer é que experimentação e elaboração de pensamento artístico não é para poucos, nem é para públicos especializados. A gente entende que qualquer arte e qualquer experiência artística é passível de leitura por qualquer tipo de público. A gente não julga percepção e capacidade de leitura a priori. Posso dizer por experiência própria; essa é uma questão superada no mundo nas artes contemporâneas. Qualquer pessoa pode ter acesso a qualquer experiência artística. Essa é uma questão bem importante no pensamento da curadoria.

Como o clima de polarização política e ideológica no Brasil interferiu na curadoria?
GW: Inevitavelmente pautou a curadoria de todos estes anos de diversas maneiras. O teatro sempre respondeu rápido às transformações políticas, inclusive pela própria rapidez da sua natureza de criação. A produção nacional se tornou uma produção artística de resistência, e um festival tem que ser um refúgio para artistas e o local para a reflexão. A questão das minorias, da sororidade, da empatia, do olhar o outro foram pautas concretas dos dois últimos anos. Nosso trabalho como curadores não poderia ser outro senão o de dar espaço e voz para todas essas reflexões.

“Domínio Público” responde a reações contra obras no ano passado. Por que resolveram abordar esses episódios?
GW: A resposta se faz de maneira quase didática aqui. Porque é importante que se faça! Porque a questão da demonização dos artistas e da arte se dá por meio da ignorância da classe média e esconde um profundo planejamento de desmonte da produção cultural brasileira. Porque o que se viu nos episódios de 2017 foi um retrocesso medieval de pensamento. E porque esses artistas foram pouco ouvidos e muito atacados. O Festival dá a eles suporte, de vários níveis, para que possam refletir juntos pelo que passaram individualmente e devolvam ao país uma resposta em forma de performance. Tudo o que aconteceu foi lamentável e perigoso. É preciso manter a alta vigília.

MA: É uma resposta à censura e à violência contra os artistas que fazem parte de “Domínio Público”. E não é só isso: no momento em que uma parte espúria da sociedade brasileira quer usar a arte e os artistas para criar uma cortina de fumaça enquanto promove violência institucional, “Domínio Público” é uma ação que coloca luz sobre o trabalho dos artistas. Por meio desses artistas, a gente está dizendo: o lugar da arte é importante. É vital para uma sociedade saudável. Então, não é um ato de reação específica ao que aconteceu, mas um ato de afirmação do valor da obra desses artistas. E, por meio da afirmação do valor e do lugar da obra deles, uma afirmação do lugar da arte no Brasil.

Como seus últimos trabalhos também foram influenciados por esse ambiente?
MA: A sequência dos meus últimos trabalhos — o “Projeto Brasil” [2015], o “Nós” [2016], com o Grupo Galpão, e “Preto” [2017], com a Companhia Brasileira — são trabalhos que iniciaram sua pesquisa antes das Jornadas de Junho de 2013. Evidentemente, aconteceram transformações e movimentos tectônicos no Brasil e no mundo neste período. E, evidentemente, toda a experiência de criação absorveu tudo o que aconteceu e continua acontecendo. Mas é diferente de dizer que foram feitos para refletir isso. Eles já eram fruto de consciência, de buscas de linguagens e experiências no teatro e na arte que vêm de trabalhos anteriores.

Paralelamente ao festival, quais são seus principais projetos hoje?
GW: Minha carreira hoje é uma mistura do meu trabalho como ator, diretor e curador. No teatro, no cinema e na televisão. Acabei de voltar da Argentina onde estava gravando uma série para um canal argentino, com atores argentinos, chamada “Relações Públicas.” Tenho para estrear em março outras duas, a quarta e última temporada de “O Negócio”, da HBO, e a segunda temporada de “Valentins”, do Gloob. Continuo viajando acompanhado a carreira do meu longa metragem “Deserto”, agora para festivais em Bogotá, Luxemburgo e Milão. E, no segundo semestre, dirijo uma montagem de “A Peça do Casamento”, do [Edward] Albee com a Eliane Giardini, além de continuar em turnê com Os Ultralíricos.

MA: “Preto” estreou no [Sesc de] Campo Limpo, bairro da periferia no Sul de São Paulo. Viajamos para algumas cidades na Europa e voltamos para uma temporada no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Banco do Brasil, onde fica em cartaz até o meio de março. [A recepção] tem sido muito positiva, muito vibrante, com temporada lotada e todo mundo querendo assistir. Estamos criando diálogos muito fortes e significativos em relação a questões que a peça levanta e também em relação à arte e à linguagem.

Serviço

Festival de Curitiba 2018
De 27 de março a 8 de abril. Os valores dos ingressos variam entre gratuito e R$ 70. Programação completa e vendas pelo site, pelo aplicativo “Festival de Curitiba 2018” e nas bilheterias instaladas no Shopping Mueller e no ParkShoppingBarigüi.

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