Guido Garcia, um construtor incansável - TOPVIEW

Guido Garcia, um construtor incansável

Em 15 anos, depois da aposentadoria, ele entregou mais de 100 casas de alto padrão em Curitiba. Ao lado do filho, Guido Garcia criou a Construtora Monreal

1906 0
Compartilhe

Levantar uma casa é uma tarefa espinhosa. A lista de itens é extensa e o resultado depende de um trabalho afinado entre vários departamentos, dos croquis aos circuitos elétricos. Surpresas pelo caminho são comuns e, na maioria das vezes, não são boas para quem está assinando os cheques.

Foi oferecendo uma alternativa com mais previsibilidade e “incômodo mínimo” que a Construtora Monreal fez fama no mercado de alto padrão em Curitiba. Com 15 anos de atuação, a empresa foi responsável pela construção de cerca de 120 casas, pelas contas do administrador Guido Garcia — todos projetos sofisticados e assinados por arquitetos de ponta.

O empresário comanda a construtora ao lado de dois dos seus quatro filhos. (Foto: Celso Pilatti)

O empresário comanda a construtora ao lado de dois dos seus quatro filhos. O mais velho, o engenheiro civil Cassiano Garcia, trouxe algumas das principais ideias para o modelo de negócio da construtora — para Guido, único no país. A empresa se destacou oferecendo um sistema de preço fechado por metro quadrado, inspirada por modelos que Cassiano conheceu quando estudou nos Estados Unidos.

“Para a maioria das pessoas, a residência tem um significado ímpar. Especialmente em Curitiba, onde não temos praias e outros atrativos. A casa acaba adquirindo um sentido mais amplo.”

O interesse por inovações se combina com a longa experiência de Guido Garcia em administração e marketing. O empresário de 63 anos — um catarinense de Bom Jardim da Serra criado em Curitiba — criou a construtora só depois de cumprir uma bem-sucedida carreira no Banestado, onde trabalhou por 25 anos. Entre um empreendimento e outro, ainda teve tempo de ajudar a fundar e lecionar na Spei (Sociedade Paranaense de Ensino e Informática), nos anos 1980.

Na entrevista a seguir, ele fala sobre a história da Monreal, as tendências no morar, o interesse por vinhos e sua convicção de que a qualidade de vida passa por uma boa — e, de preferência, grande — casa.

Como foi sua passagem pelo Banestado?
Tive uma carreira bastante rápida. Com dez anos de banco, cheguei ao último cargo de carreira. Fui um dos mais jovens gerentes de divisão — tinha 29 anos. Até deixei crescer o bigode para parecer mais velho, porque os dirigentes me chamavam de “guri da diretoria” (risos). Depois assumi a superintendência regional de Curitiba, na área comercial. Optei por sair num plano de demissão voluntária quando vi que o banco realmente não conseguiria permanecer no mercado, em 1999.

“As pessoas vão adquirindo mais renda, mais conhecimento, e a opção por uma casa se torna fundamental para a qualidade de vida.”

E como foi parar na construção civil?
Após o Banestado, tive uma fábrica de alimentos light e, depois, montei uma consultoria junto com uma empresa de factoring. Num outro momento, quando meu filho mais velho, Cassiano, formou-se em Engenharia Civil e fez um curso de especialização de administração de obras na Universidade da Califórnia, eu o ajudei montando uma construtora. Isso foi por volta de 2002.

Por que a Monreal deu certo?
Fizemos uma pesquisa e constatamos que o mercado era carente por construtoras de alto padrão e com sistema de preço de custo fechado, em que a pessoa começa a construção sabendo efetivamente quanto vai custar, antes de iniciar a obra. É um diferencial, e é como os americanos fazem. Aí a construtora cresceu.

Histórias de surpresas durante uma obra são comuns.
Existe uma falácia no mercado que diz que, se você vai construir, terá incômodo. Realmente, com o sistema comum, você acaba tendo. É um processo demorado, você precisa ficar vendo orçamentos, se indispondo, tendo custos. Aqui, conduzimos todas as etapas para tornar o ato de construir prazeroso. Oferecemos o que chamamos de incômodo mínimo.

Como é ser responsável pela casa de alguém?
A gente constrói de coração, porque é o sonho das pessoas. É o castelo, a morada delas. Para a maioria das pessoas, a residência tem um significado ímpar. Especialmente em Curitiba, onde não temos praias e outros atrativos. A casa acaba adquirindo um sentido mais amplo.

Já tiveram de demover algum cliente de uma má ideia?
Tive um cliente que queria uma casa alaranjada. Gostava de coisas coloridas, era o desejo dele. Eu o convenci a aceitar uma solução que não fosse tão agressiva visualmente, porque ele teria problemas se tivesse que vendê-la no futuro. Hoje, ele é até grato por isso. Mas, para a gente, é natural. A gente não estranha nada. A beleza está justamente na diversidade do ser humano.

“Empresa familiar tem muitas vantagens. Ver a realização e a evolução dos filhos é algo motivador.”

Do seu ponto de vista, como a casa do curitibano mudou nos últimos anos?
Um amigo italiano me dizia, quando vinha para cá, que passava mais frio no Brasil do que na Itália. Não tínhamos sistemas de aquecimento satisfatórios. Hoje, temos sistemas de ar condicionado e aquecimento de piso. Piscina, em Curitiba, era tabu. Quando estava projetando minha primeira casa em 1988, no Barigui, eu tinha dúvida se faria uma ou não. Por coincidência, viajei para o Canadá e, num trem entre Montreal e Quebec, todas as casas que vi tinham piscina. E eu em dúvidas se teria uma no Brasil! Acabei fazendo uma de sete metros por onze. E tudo acontecia em volta dela — formatura dos filhos, chá de panela. A água é um atrativo muito interessante em uma residência de alto padrão. É uma tendência que se consolidou. Outra coisa muito presente hoje é o elevador, principalmente nas casas de três pisos.

Como acha que serão as casas no futuro?
Uma tendência inexorável é a escolha de elementos que não agridam a natureza. Existe uma conscientização e uma procura por soluções assim — por isso o steel frame e o wood frame, que são elementos renováveis. O elemento vidro, a transparência nos imóveis e a utilização efetiva da energia solar como fonte geradora são outras tendências.

Qual é o seu ideal de moradia? Onde as pessoas ainda podem vivê-lo?
Acho que a tendência são efetivamente os condomínios. Ainda temos a ideia, no Brasil — até por uma questão econômica —, de construções verticais. Mas nos Estados Unidos e na Europa raramente você vê pessoas morando empoleiradas. Elas querem ter contato com a natureza. As pessoas vão adquirindo mais renda, mais conhecimento, e a opção por uma casa se torna fundamental para a qualidade de vida. Aqui, as residências podem até não ser tão amplas, mas vejo que, contrariamente ao que muitos podem dizer, cada vez mais as pessoas querem casas.

Aparentemente, você não gosta muito de apartamento.
Fui assaltado três vezes em minha casa no Barigui e meus filhos não queriam mais que eu ficasse lá. Fomos morar em um apartamento no Campo Comprido. Era excelente, mas o cidadão puxava a descarga e eu ouvia; ia para a banheira e eu participava do banho; tinha festa no salão de festas e eu ouvia. Claro, no Brasil, o aspecto da segurança ainda leva a isso. Mas eu, particularmente, não gosto. Me sinto enjaulado.

“Uma hora vou cansar e vou querer usufruir da vida. Mas, enquanto você sente que é produtivo e que pode contribuir, realizar as coisas é muito bom.”

Como é a sua casa?
É a primeira casa de steel frame da construtora. Moro lá até para testar efetivamente o sistema — e é muito bom, o revestimento térmico e acústico é excelente. Fica em Santa Felicidade. Tenho geração de energia fotovoltaica própria, elevador, piscina, ambientes integrados, aquecimento de piso em todos os ambientes. Já estava acostumado com casa grande, então ela tem 500 e poucos metros quadrados. Gosto realmente de ambientes amplos.

Um lugar assim acaba te deixando mais caseiro?
Passo muito tempo lá. Tenho prazer de estar na minha casa, no meu estar íntimo, minha adega. São coisas que curto bastante. Eu e minha esposa gostamos muito de filmes, recebemos muitos amigos. Acho que o propósito da casa é esse. Casa para mim é festa. Ainda saio, mas, hoje em dia, por minha ocupação ser muito intensa, estou privilegiando isso. E a gente viaja razoavelmente durante o ano. Então, quando estou em casa, curto. Gosto de voltar.

O que te faz sair?
Sou um estudioso de vinhos. Gosto de viajar para visitar vinícolas no mundo todo. Acho que vinho é cultura e gera relacionamentos interessantes. Conheço a França, a Espanha e Portugal de cabo a rabo por causa do vinho. E tem o golfe, que é uma satisfação. É um esporte que recomendaria a todos, embora no Brasil seja estigmatizado como esporte de elite. Já fechei muitos negócios no campo.

Você já cumpriu carreira em banco, se aposentou, e lá se vão mais 15 anos à frente da construtora. Pensa em parar?
Gostaria de me aposentar, mas meus filhos não querem (risos). Os sócios não querem. Querem usufruir da experiência que adquiri. E é um prazer estar com os filhos. Empresa familiar tem muitas vantagens. Ver a realização e a evolução dos filhos é algo motivador. Uma hora vou cansar e vou querer usufruir da vida. Mas, enquanto você sente que é produtivo e que pode contribuir, realizar as coisas é muito bom.

Neste Artigo

Converse com a Gente