Gilson Yared: “Fomos feitos para viver mais de cem anos”

Gilson Yared: “Fomos feitos para viver mais de cem anos”

Com mais de 40 anos de medicina, o cardiologista se tornou uma referência em prevenção à frente da clínica Fisicor

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Há décadas o nome do doutor Gilson Yared vem sendo a primeira escolha de alguns dos paranaenses mais ilustres quando o assunto é saúde do coração. Nascido em Porto União (SC), em 1951, e formado pela Universidade Federal de Santa Catarina em 1976, o médico cardiologista fundou sua própria clínica em Curitiba nos anos 1980, depois de uma residência em São Paulo com o renomado doutor Euryclídes de Jesus Zerbini (1912–1993), pioneiro no transplante de coração no Brasil. De paciente em paciente, o cardiologista ganhou a confiança da sociedade curitibana.

A Fisicor já está instalada há mais de 20 anos na Praça do Japão. Reforçada pela entrada de outros médicos — incluindo os dois filhos de Yared, Guilherme e Felipe, 32, que se uniram ao pai há cerca de dois anos —, a clínica de cardiologia e reabilitação cardiopulmonar chega a atender 200 pacientes por dia, pelas contas de seu fundador. Com um corpo clínico próximo a 15 profissionais, deixou de ser um consultório, em suas palavras, e se tornou uma instituição.
Os princípios do médico, no entanto, continuam presentes.

A ideia é que a clínica seja cada vez mais uma referência em prevenção — um fator fundamental na linha de trabalho de Yared, que se define como um médico à moda antiga no que diz respeito à atenção que dá a todos os aspectos que afetam a saúde de seus pacientes. “Você não pode deixar a saúde da pessoa se complicar para então indicar outro especialista”, explica. O objetivo, ele diz, é aumentar a qualidade de vida e a longevidade dos pacientes, que podem ir mais longe do que se imagina em boas condições físicas. “Sempre achei que fomos feitos para viver mais de cem anos. Mas, para isso, você tem que estar ‘blindado’”, defende. Na entrevista a seguir, concedida no consultório do cardiologista na Fisicor, em abril, Gilson Yared fala sobre sua linha de atuação, comenta mudanças de paradigma na medicina nos últimos 40 anos, lembra momentos marcantes da carreira e conta o que ele mesmo faz para manter uma vida saudável. Leia os principais trechos:

(Foto: Guilherme da Costa)

As pessoas parecem chegar aos 60 com mais vigor hoje do que no passado. Como isso se tornou possível?
Com a medicina de hoje e as coisas novas que temos, ganhamos, fácil, dez anos. Também acontece de a pessoa, aos 40 anos, estar com idade biológica de 60, então você tem de cuidar. É isso que faço com os meus pacientes. Trabalho muito na prevenção.

Você sempre deu atenção especial a isso?
Sempre achei que fomos feitos para viver mais de cem anos. Mas, para isso, você tem de estar “blindado”: precisa blindar o seu corpo contra as situações de agressão. Dou muita ênfase a isso com os meus pacientes.

Que tipo de médico você é?
Eu diria que sou um médico tradicionalista, que antigamente se chamava de “médico de família”, e que já não existe mais. Eu tento orientar as pessoas sobre o caminho que elas devem seguir. Não que eu tome todas as decisões — hoje há especialidades para tudo. Mas as indicações e orientações estão dentro da minha especialidade. Sou cardiologista, mas cardiologista clínico. Sou um pouco tradicionalista no sentido do clínico geral, que fazia “tudo”.

“Tratar pessoas, dar longevidade e qualidade de vida, passar as informações que tenho é uma coisa muito gratificante de se fazer todos os dias.”

Por que você seguiu esta abordagem “tradicional”?
Não adianta eu resolver o problema do coração do paciente e ele continuar obeso, diabético, com artrose, sem fazer atividades físicas, depressivo. Dizer: “Tome este remédio para a pressão e até logo”. Isso é o que virou a especialidade hoje. Eu acho que você tem de ver a pessoa no todo.

Que tipo de relação se constrói com os pacientes trabalhando desta forma?
Você cria um ambiente familiar. Você não é “mais um”, é o médico referenciado. Eu sempre pensei que as pessoas precisam de orientação. Você não pode deixar a saúde da pessoa se complicar para então indicar outro especialista. Você já é capaz de ver como ela está. Hoje atendo avós, filhos, netos e já quase bisnetos das mesmas famílias. É uma delícia, uma coisa que me gratifica. Aí é que eu vejo a recompensa. Você percebe a continuidade.

Entre os seus pacientes estão políticos e personalidades importantes de Curitiba. Como você e a clínica se tornaram referência?
Estamos em um mundo pequeno. Se você está fazendo um bom trabalho, as coisas acontecem naturalmente. O meu trabalho com o paciente é a referência. Este é o melhor marketing.

Houve algum caso que marcou particularmente sua carreira?
Houve muita coisa, são 40 anos de medicina. É difícil detalhar ou especificar. Eu trabalhei com políticos, governadores, profissionais em evidência. Um exemplo marcante: [em 1998] atendi o Carvalhinho [o empresário José Carlos Gomes de Carvalho, morto em 2003], que foi senador e vice-prefeito de Curitiba. Ele infartou em Madri. Eu saí daqui para acompanhar o caso dele na Europa, e consegui tirá-lo do coma. Quando ele voltou, fez referência a mim nas primeiras páginas dos jornais, agradecendo.

“Se você está fazendo um bom trabalho, as coisas acontecem naturalmente. O meu trabalho com o paciente é a referência. Este é o melhor marketing.”

Você já teve de tomar decisões muito difíceis como médico?
Sem dúvida. Muitas. Há situações imediatas em que você tem de adotar condutas de vida ou morte, e tem de tomar a decisão sozinho. Há pacientes para os quais é indicada a cirurgia cardíaca, o tratamento de angioplastia ou manter o tratamento clínico — as três decisões são corretas. Você tem de usar o bom senso. Você tem de pensar como se ali estivesse seu irmão, seu pai, sua mãe. O que seria o melhor para eles? É assim que raciocino.

Como se lida com a morte estando nessa posição?
A gente sabe que isso pode acontecer, ainda mais quando se trabalha com pacientes de alto risco. Você tenta evitar, mas às vezes é quase impossível quando as coisas estão no limite do risco. E você tem de repassar isso para a família, que também precisa estar a par da responsabilidade sobre os riscos. Não se pode encobrir. É difícil, mas são decisões que precisam ser tomadas. Já a morte súbita pode acontecer, mas as possibilidades são pequenas quando o paciente está se cuidando.

“Há situações imediatas em que você tem de adotar condutas de vida ou morte, e tem de tomar a decisão sozinho. (…) Você tem de pensar como se ali estivesse seu irmão, seu pai, sua mãe. O que seria o melhor para eles?”

Como a abordagem da medicina mudou nestes 40 anos em que você já atua?
A prevenção veio muito forte. Isso fez com que aumentasse a longevidade. Foi dada muita ênfase neste sentido. Vários fatores mudaram — alimentação, drogas, atividades esportivas, metas, diretrizes. O contexto mudou muito para que, de 40 anos para cá, você conseguisse aumentar em dez, vinte anos a longevidade que temos hoje. Isso não veio de uma hora para outra. Foi uma coisa lenta. E aconteceu. Hoje as pessoas vivem mais por causa disso.

Houve mudanças de mentalidade entre os pacientes também?
Uma coisa interessante é que, antes, o homem não vinha para a prevenção. Geralmente, vinha sob pressão da mulher. E ele morria mais cedo por causa disso. Hoje eles estão mais cientes da prevenção e vêm sozinhos. Estão fazendo muito mais prevenção do que no passado — isso também vale para a próstata, por exemplo. Outra coisa é que a medicina está mais socializada por meio dos convênios. Talvez isso tenha ajudado as pessoas a buscarem mais recursos. Elas têm mais possibilidades para buscar a prevenção.

Por outro lado, há problemas de saúde contemporâneos ligados ao estilo de vida que se leva hoje. A obesidade é um exemplo disso. Neste sentido, o desafio é maior?
Há uma epidemia de obesidade e diabetes, que andam juntas. É a epidemia do mundo hoje. O terceiro fator é o estresse, que também mudou muito. São três fatores bem agressivos que bloqueiam a longevidade e a qualidade de vida. São com eles que temos trabalhado mais agora. Por isso o pessoal vai a academias, vai correr em parques — você mata o estresse e o problema da obesidade, e por consequência segura o diabetes. É isso que estamos combatendo agora, por meio da mudança de hábitos e de novas drogas para diabetes, hipertensão, lípides.

“Há uma epidemia de obesidade e diabetes, que andam juntas. (…) O terceiro fator é o estresse.”

Como é este trabalho de mudança de hábitos? O que se deve fazer para manter uma vida saudável?
É uma somatória de fatores multidisciplinares. É disciplinar a sua saúde. Você faz isso prevenindo coisas que levam à doença. A primeira coisa importante é manter o peso. Muitas coisas acontecem devido ao sobrepeso: altera a pressão, lípides [gordura], glicose, problemas de coluna, lesão muscular, lesão de joelho. Mantendo o peso, você consegue amenizar algumas dessas coisas. É o principal para começar a prevenção.

Qual a importância dos exercícios?
A atividade física é interessante porque te dá uma ideia de como você está se comportando em termos de resistência, de sintomas — se está mantendo o mesmo nível de respiração, de esforço. O exercício te dá mais ou menos um controle disso.

Dá mesmo para chegar bem aos cem anos, como você defende?
As pessoas chegam com sequelas a essa idade porque já vinham doentes. Elas não foram orientadas a fazer fisioterapia, alongamento, musculação, aeróbico, prevenção. Você não pode “aceitar” a velhice desta maneira. Tem de aceitar a velhice com qualidade, que é algo que você precisa buscar.

“Não adianta eu resolver o problema do coração do paciente e ele continuar obeso, diabético, com artrose, sem fazer atividades físicas, depressivo. (…) Isso é o que virou a especialidade hoje. Eu acho que você tem de ver a pessoa no todo.”

Você está trabalhando para chegar lá?
É a minha ideia, desde que não tenha os percalços da vida — câncer, Alzheimer e acidentes, que são coisas para as quais ainda não há profilaxia concreta. Tudo o que oriento para os pacientes, eu faço. Você tem de buscar informações do que é bom para o seu organismo, seu corpo e sua mente.

Quem você consulta nesta área?
Por enquanto, faço o controle por conta própria. No momento, eu mesmo faço o meu check-up. Neste ano, já fiz toda a minha planilha de exames — teste, ecografia, angiotomografia. Zero de gordura no coração.

Você é um paciente exemplar?
Eu preciso ser uma referência para a pessoa que está na minha frente. Não posso estar acima do peso aqui e dizer: “Você vai ter de emagrecer”. Ou estar cheirando a cigarro e dizer: “Você tem de parar de fumar”. Estar bem aos 66 anos é o exemplo que quero passar para eles. Eu sou referência para o paciente — muita gente vai atrás do que eu faço. Acho interessante fazer o que puder para transmitir isso.

(Foto: Guilherme da Costa)

Como você se mantém saudável?
Eu tenho uma carga de trabalho muito grande. Então, você tem de saber o seu limite de estresse. Eu entendo o meu. Quando acho que tenho de dar um tempo, saio para congressos, lazer, ou para os dois juntos. É a maneira de “carregar as pilhas” de novo. Dar um tempo para o seu corpo e sua mente, relaxar através de viagens, lazer e atividades físicas. Além do convívio familiar, que considero importantíssimo.

Que modalidades você pratica?
Atividades aeróbicas e musculação. Faço corrida de rua — corro meias-maratonas. Em Paris, fiz a maratona inteira há dois anos. Hoje estou correndo entre 10 e 20 quilômetros. Fiz recentemente a da Unimed e fiquei em 13.º na minha faixa etária. Faz 20 anos que pratico e nunca deixo de correr. A atividade aeróbica é o que me faz relaxar. É uma boa fuga contra o estresse.

E o lazer?
Você tem que ter o prazer de tomar um bom vinho, se encontrar com os amigos, ter um bom jantar, uma boa viagem com a família, com a esposa. Tudo isso é remédio anti-estresse, para não precisar tomar nenhum ansiolítico na vida. Até hoje, nunca tomei.

“Você tem que ter o prazer de tomar um bom vinho, se encontrar com os amigos, ter um bom jantar, uma boa viagem com a família, com a esposa. Tudo isso é remédio anti-estresse, para não precisar tomar nenhum ansiolítico na vida.”

Você já foi homenageado com uma vitrine da Artefacto Curitiba junto com Simone Yared. Arquitetura e decoração estão entre suas áreas de interesse também?
Ela é arquiteta da luz. Quando viajamos, geralmente buscamos também a pesquisa nesta área. A gente curte muito ir a restaurantes novos para conhecer tanto a gastronomia quanto para ver a parte decorativa. Assim, somamos as duas coisas: eu curto a parte de degustação, e ela curte a parte da área dela. Mas eu gosto. Faço isso com ela com prazer.

Como é ver os seus filhos seguindo a mesma profissão?
É uma satisfação. Eu sempre tive na cabeça que a maior herança que posso dar a meus filhos é o estudo e a continuidade do trabalho. Ver que aquilo que você fez com carinho e dedicação terá um seguimento é a maior realização que você pode ter.

Eles se formaram muito tempo depois de você. Os estilos de vocês são diferentes?
Acho que o raciocínio é mais ou menos o mesmo. Mas eles aprenderam com uma tecnologia um pouco mais de ponta, equipamentos mais recentes. Por isso tenho de ir atrás disso — é por isso que estou sempre nos congressos anuais. Senão, você é passado para trás rapidamente.

Pensa em diminuir esse ritmo, ou mesmo parar?
Você me perguntou sobre meu lazer. Um deles é o trabalho. Sinto que é um lazer para mim. E é um lazer gratificante, porque estou colaborando com a comunidade. É uma maneira de você dar um pouco de si também — não pode ser tudo só para a gente. Tratar pessoas, dar longevidade e qualidade de vida, passar as informações que tenho é uma coisa muito gratificante de se fazer todos os dias.

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