Fausto Godoy: o ex-diplomata que trouxe a Ásia ao Museu Oscar Niemeyer

Fausto Godoy: o ex-diplomata que trouxe a Ásia ao Museu Oscar Niemeyer

Aos 72 anos, Godoy doou 3 mil obras para o MON, as quais levou mais de 30 anos para reunir – é o esforço de uma vida

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Tudo o que se vê na exposição Ásia: a Terra, os Homens, os Deuses, que abriu no Museu Oscar Niemeyer (MON) em março deste ano, é só um pedaço da coleção transferida por Fausto Godoy à instituição. Toda a estatuaria, mobiliário, têxteis, gravuras e pinturas da mostra organizada com a ajuda do curador Teixeira Coelho somam perto de 200 itens — menos de um décimo das 3 mil obras que ocupavam um andar inteiro de um casarão do diplomata aposentado em Brasília.

Godoy levou mais de 30 anos para reuni-las — 15 deles em serviço diplomático no continente asiático. Tem história para cada uma e fala pelos cotovelos quando chega perto de um Ganesha.

Foi assim numa tarde quando, de microfone auricular, mini-amplificador na cintura e todo o glossário budista e hinduísta na ponta da língua, introduziu o pessoal do MON aos detalhes minúsculos de sua coleção. É uma conversa para horas.

Há coisas ali que devem valer uma baba. Outro dia, Godoy diz ter visto uma dessas cadeiras chinesas antigas que doou aparecer em um leilão da Sotheby’s por milhões. Ele não se comoveu: garante que nunca teve a intenção de vender um fio de bambu, e não esconde certa satisfação diante das sugestões de que estaria maluco.

Para Godoy, que tem 72 anos, a coleção e a pilha de livros que doou junto nunca foram realmente suas. As peças se deixaram encontrar para que ele um dia pudesse contar um pouco do que descobriu na Ásia para os brasileiros — questão de carma. Não à toa, depois da aposentadoria pelo Itamaraty, virou professor de Relações Internacionais da ESPM, em São Paulo, onde criou um núcleo de estudos asiáticos. Desvendar a Ásia seria sua melhor contribuição para o país e a contrapartida de uma vida privilegiada, que ele gosta de contar pelo começo.

Diplomacia

Em sua carreira como diplomata, Godoy passou por países como China, Japão, Paquistão, Afeganistão, Vietnã, Taiwan, Mumbai, Jordânia, Bangladesh, Cazaquistão e Mianmar. (Foto: Mariana Alves)

Godoy nasceu e cresceu em Bauru (SP). Vem de família patrícia: brinca que é “filho de viaduto, neto de pontilhão e sobrinho de rodovia” — um fardo para um adolescente em crise em cidade de interior. Encurralado pelo sobrenome, conta que começou a traçar rotas de fuga quando se viu prestes a assumir o cartório da família. Virou bacharel e foi embora para a França no fim dos anos 1960.

Em Paris, engatou um Doutorado em Direito Internacional Público, um diploma de Língua e Civilização Francesa na Sorbonne e um curso de História da Arte na Escola do Louvre. Chegou a tentar a sorte como pintor, mas desistiu depois da primeira exposição individual. “Fiz tudo o que podia fazer para não voltar”, confessa.

Sua “fantasia europeia” durou seis anos. Depois de um ultimato do pai, Godoy se saiu com o plano perfeito para ficar o mais longe possível da vida de cartorário em Bauru: seria diplomata.

A carreira começou com dois postos importantes a partir de 1978 — Bruxelas e Buenos Aires. Mas foi Nova Délhi que fez sua cabeça.

Colecionismo e desapego

O responsável por iniciá-lo nos mistérios do Oriente foi José Leal Ferreira Jr., um ex-diplomata brasileiro cassado pela Ditadura Militar que dava aulas na Universidade Jawaharlal Nehru. Sua erudição e décadas de afeição pela Índia foram o primeiro mapa de Godoy para explorar a cultura milenar país. A coleção começou num desses mergulhos.

As primeiras peças foram compradas a título de decoração exótica — “aquela coisa de diplomata” —, mas a experiência indiana o arrebatou e mudou tudo. Na hora de voltar, Godoy não estava mais interessado no que chama de “carreirinha pasteurizada” da diplomacia. Os colegas que brigassem por Genebra, Nova York ou para se empanturrar no La Tour d’Argent, em Paris: ele ficaria com os eventuais piriris em Bangladesh.

Segundo o Museu Oscar Niemeyer, a mostra Ásia gerou aumento de público: cerca de 27% no mês de março, comparado ao mesmo mês do ano anterior, chegando a mais de 21 mil visitantes. (Foto: Mariana Alves)

Godoy colocou o nome à disposição das missões que ninguém queria e foi juntando os carimbos. Não teve filhos. “Minha vida foi escrita assim”, diz. Entre outros cargos e uma missão em Washington — convite “irrecusável” que aceitou nos anos 1990 —, passou por China, Japão, Paquistão, Afeganistão, Vietnã, Taiwan, Mumbai, Jordânia, Bangladesh, Cazaquistão e Mianmar. Godoy garimpou desde os antiquários do Afghan Market em Peshawar, no Paquistão, até as barracas de camponeses nas feirinhas de rua de Pequim. Eis a coleção agora no MON.

Nas palavras do diplomata, a coleção é a sua história. Foi doado “o esforço de uma vida”. Mas ficou fácil fazer isso desde a sua “desconstrução” na Ásia. “O budismo mexeu com minha cabeça. Tenho a convicção profunda de que estamos de passagem. Nada é de ninguém para sempre, você não é dono”, diz. “É o que me faz desapegar de tudo.”

Serviço

Ásia: a Terra, os Homens, os Deuses
Museu Oscar Niemeyer_R. Marechal Hermes, 999. Sala 5. Exposição de longa duração. De terça a domingo, das 10h às 18h. R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada). Venda de ingressos até 17h30. (41) 3350-4400.

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