Tony Camargo: “A arte maltrata, mas salva.”
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A primeira coisa que se precisa ter em mente ao entrar na exposição “Seleta Crômica e Objetos”, de Tony Camargo, é que não há nada para ser propriamente entendido ali. Não que isso seja uma novidade: há pelo menos 50 anos tem gente combatendo a ideia teimosa de que a arte precisa dizer alguma coisa. Mas o paranaense sempre esteve particularmente interessado em distanciar seu trabalho dessa ânsia por interpretação. Ao percorrer o panorama de cerca de 20 anos de produção que a mostra reúne no Museu Oscar Niemeyer (MON), Tony prefere que você olhe para “como” seus objetos, desenhos, pinturas, vídeos e fotografias foram feitos, e não para o que eles supostamente “significam”.

Tony Camargo (Foto: Maringas Maciel)

“Desde o começo, o meu trabalho tem essa intenção de desmitificar a obra de arte. A ideia é trazer os objetos mais para o mundo”, conta o artista, que também se diz interessado em detonar a imagem idealizada do pintor como um “herói”, um “sujeito superpoderoso” que ainda persiste no imaginário do público. “Inclusive, flerto muito com o design, a publicidade e linguagens mais ‘mundanas’”, teoriza.

O artista escolheu as obras mais marcantes de sua carreira — iniciada nos anos 2000 e pontuada por prêmios e participações em grandes mostras coletivas e exposições individuais. Estudioso de técnicas e adepto do computador, ele reuniu desde os seus primeiros trabalhos com objetos — um cutelo cortado, baralhos, tacos de bilhar reproduzidos com diferentes materiais — até suas pesquisas mais recentes sobre como criar quadros com vídeo, passando pelos seus “fotomódulos”, em que os formatos dos quadros são traçados a partir do conteúdo das fotografias.

Seu trabalho conversa com artistas modernos e contemporâneos — Tony cita Duchamp, Matisse, Picasso, Milton Avery, Richard Hamilton, Mark Rothko – e a lista segue. “Gosto de fazer elogios à arte. Prefiro até pensar em mim mais como um apreciador de arte do que como artista”, conta, enquanto endireita um dos quadros da exposição.

Inícios

Tony nasceu e cresceu em Paula Freitas — cidade com menos de 6 mil habitantes na divisa do Paraná com Santa Catarina. Hoje com 39 anos, foi um dos últimos representantes da juventude interiorana pré-internet, para quem “MTV era um helicóptero”. A ideia, aos seus 18 anos, era se mudar para a capital e virar doutor. Depois de um par de tentativas frustradas para passar no vestibular de Direito, no entanto, a habilidade com o desenho que exibia para os colegas de cursinho o fizeram começar a pensar em se formar ilustrador ou coisa que o valha.

A faculdade de Artes Visuais na Universidade Federal do Paraná (UFPR) frustraria essa ideia também, mas abriria outro mundo para ele. Ao ser apresentado à história da arte por gente como Geraldo Leão nos bancos da graduação, Tony foi atraído logo de cara justamente pelos seus capítulos mais radicais — Duchamp e a ideia do objeto como arte, por exemplo. O artista percorreu, de certa forma, o caminho inverso: primeiro, os objetos. Depois, pintura.
“Aprendi a fazer arte já a partir do conceito, da ideia, da metáfora”, diz. “Eu vi a importância da arte antes de me apaixonar por alguma coisa mais visual.” Foi mais ou menos ali que Tony começou a formar suas ideias artísticas. “Aos poucos, a ilusão de que me tornaria desenhista ou ilustrador profissional foi dando lugar a outra coisa. Fui dispensando esses valores e gostando mais de cultura”, conta.

(Foto: Mariana Alves Fotografia)

Desde então, o artista não fez mais grandes concessões e passou a encarar a arte como sua única profissão — uma escolha dura de se fazer. “Acho que sou um dos poucos que encararam assim. Geralmente se tem outra profissão para manter o trabalho de artista, porque é muito difícil viver de arte”, conta.
Em Paula Freitas, o pai, pedreiro, e a mãe, lavradora, apoiaram a escolha desde o início. Tony conta que seu pai tinha uma dupla sertaneja — a Batista & Camargo — e cantava em festivais e no rádio. Sua única irmã, dois anos mais velha, também sempre teve habilidades com artesanato. “Era uma família pobre, mas sempre houve esse ambiente propício para uma coisa mais artística”, conta. “Eles sempre tiveram muito orgulho e reconheceram a importância do que faço num sentido cultural. Não cobravam um retorno material.”

Dificuldades

O mercado, por sinal, já esteve melhor: os artistas e galerias sentiram a crise econômica bater tão forte quanto qualquer um.
A arte de Tony Camargo também pode ser um tanto indigesta, digamos, para fins decorativos. Apesar das composições e cores fascinantes à primeira vista, trata-se de uma obra provocadora — por vezes irônica —, o que não coloca seu trabalho entre as primeiras escolhas dos clientes de galerias, conta. “Hoje, já perdi totalmente a ilusão de que vou ficar rico com arte. Busco cada vez mais apenas a dignidade”, diz.

Isso inclui fazer uma arte política em um mercado que anda tímido neste sentido apesar do período turbulento vivido pelo país, em sua avaliação. “As galerias optam pelo mais confortável possível. Há cada vez menos trabalhos provocativos nas feiras. Mas é o momento de mostrar um pouco mais uma arte experimental, que não tenha tanto apelo comercial”, defende.

“Hoje, não se pode fazer arte no Brasil como se fazia há três, cinco anos atrás. O artista tem que pensar duas vezes. Mesmo que esteja desenvolvendo um trabalho mais estético e que não seja tão político, não há como fazer arte contemporânea sem pensar a política. O artista precisa refletir sobre o seu contexto.”

Tony foi chamado para a briga, diga-se de passagem. Ele estava entre os artistas da exposição “Queermuseu”, em Porto Alegre, que foi cancelada pelo banco Santander em setembro de 2017, depois de uma onda de protestos de conservadores radicais na internet que viram promoção de pedofilia e zoofilia nas obras. Seu nome acabou entrando no índex, e até hoje há quem visite seu perfil no Facebook para rosnar.
“Isso ainda vai levar tempo. Se disseminou aquela imagem de imoralidade que foi criada — e que não tinha fundamento. Muitas coisas eram mentira”, diz. “Mas a responsabilidade do artista ficou em questão. Hoje, não se pode fazer arte no Brasil como se fazia há três, cinco anos atrás. O artista tem que pensar duas vezes. Mesmo que esteja desenvolvendo um trabalho mais estético e que não seja tão político, não há como fazer arte contemporânea sem pensar a política. O artista precisa refletir sobre o seu contexto”, defende.

Ao responder sobre as dificuldades do ofício, no entanto, Tony não soa como se estivesse reclamando de qualquer coisa. Ele diz até gostar da forma como o trabalho se tornou inseparável de sua vida pessoal — seu ateliê, onde passa o dia todo, fica em sua casa, em Santa Felicidade, e o artista trabalha “até enquanto está dormindo”. A arte, ele justifica, abre o caminho para coisas mais humanas. “Ao mesmo tempo em que é difícil, tem esse outro lado. Você muda os valores e passa a encarar a vida de uma forma diferente”, diz. “A arte maltrata, mas salva.”

Serviço

Seleta Crômica e Objetos
Em cartaz até 1.º de julho de 2018 no Museu Oscar Niemeyer.
MON_R. Marechal Hermes, 999, Centro Cívico.
De terça-feira a domingo, das 10h às 18h. Entrada: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada).

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