O trabalho maduro e consistente de Leandro Garcia

O trabalho maduro e consistente de Leandro Garcia, ex-discípulo de Isay Weinfeld

Com uma trajetória brilhante e recente, o arquiteto e designer já coleciona chancelas poderosas e foi eleito um dos 20 melhores estúdios de arquitetura em ascensão no mundo

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Faz apenas seis anos que Leandro Garcia abriu seu escritório próprio – instalado em uma antiga casa no Batel, em Curitiba, local onde também mora – e ele já recebeu o respaldo de duas grandes e renomadas publicações mundiais. Em 2016, a revista inglesa Wallpaper o elegeu como um dos 20 melhores estúdios de arquitetura em ascensão no mundo. No mesmo ano, a revista online norte-americana Design Milk o colocou na disputada lista dos 10 estúdios de design mais importantes do Brasil na atualidade – ele figurou ao lado de Irmãos Campana, Zanini de Zanine e Jader Almeida. A que o arquiteto, urbanista e designer atribui essas nomeações? “Eu acredito muito no trabalho. Trabalho muito, me dedico muito, e acredito que isso acaba surgindo dentro desse processo”, explica, modesto.

De personalidade introspectiva, o paulista, natural do ABC paulista, transformou Curitiba em lar e encabeçou grandes projetos arquitetônicos como o novo Gaya Bem-Estar e o Spa do Nomaa Hotel. No design, teve suas obras selecionadas por três anos consecutivos para a Semana de Design de Milão. Em 2019 completa 25 anos de carreira: uma trajetória que começou aos 15 quando ingressou no curso técnico de Desenho de Construção Civil em um colégio do grande ABC Paulista, região onde nasceu e cresceu. Do desenho (“onde tudo começou”) e estágios veio naturalmente, segundo ele, a escolha do curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade do Grande ABC (UniABC). Depois de formado, o convite para integrar a equipe do designer Marcelo Rosenbaum. E três anos depois, a de Isay Weinfeld, prestigiado arquiteto, cenógrafo, designer de mobiliário e cineasta brasileiro. Ficou lá também por três anos.

“[Curitiba] É um mercado em construção, tem um senso crítico incrível, Festival de Teatro, peças estreiam aqui, espetáculos, produtos são lançados aqui, isso é muito interessante.”

Do aprendizado nas “escolas” de Rosenbaum e Weinfeld – escritórios reconhecidos por trabalhar projetos do início ao fim -, Leandro construiu o conceito do seu escritório multidisciplinar, que passeia confortavelmente do design à arquitetura. Tantos seus projetos arquitetônicos quanto suas peças de mobiliário já estamparam publicação nacionais e internacionais inúmeras vezes. De onde estou sentada durante a entrevista consigo ver o mancebo Varetas, a primeira peça a ser lançada pelo arquiteto na Feira de Milão (em 2016) e, talvez, a que mais representa o trabalho dele como designer. Publicada em diversas revistas nacionais e internacionais. 

O icônico mancebo Varetas é composto por madeira e metal maciço.

Na entrevista a seguir, Leandro explica por que não gosta de definir seu trabalho, adianta as novidades para 2019 (incluindo a participação do escritório na SP-Arte 2019 e a possibilidade de projetar um hotel, em breve!), relembra a chegada e a adaptação em Curitiba e revela seu cartão-postal favorito na cidade-sorriso.

“O design acontece entre a arquitetura e a arte.”

TOPVIEW: Você tinha acabado de passar por escritórios importantes, como os de Rosenbaum e Weinfeld, e decidiu deixar uma grande metrópole como São Paulo e vir para Curitiba. Qual foi o contexto?

Eu vim por questões familiares e acabei ficando por questões profissionais. São Paulo é uma capital e metrópole, já constituída. Curitiba é uma capital, mas não é uma metrópole ainda. Participar dessa construção é uma oportunidade que, em SP, eu não teria. Não importa se você chega de carro, de avião ou de ônibus, em São Paulo você vai perceber que é só mais um número. Aqui é um pouco diferente. As relações são diferentes… Como campo de atuação eu não sei se teria feito em SP tudo o que fiz estando aqui. Há [em Curitiba] uma “escola” de marcenaria super tradicional que ninguém conhece porque são tão grandes que atuam no Brasil inteiro e muito pouco em Curitiba, um mercado que não é muito consumidor desse trabalho. É engraçado… Do mesmo jeito que o brasileiro tem um pouco essa síndrome de vira-lata em relação ao mundo o curitibano também tem. As pessoas me dizem “o que você tá fazendo aqui? Curitiba também não tem nada”, mas calma, tem sim. É um mercado em construção, tem um senso crítico incrível, Festival de Teatro, peças estreiam aqui, espetáculos, produtos são lançados aqui, isso é muito interessante.

De fato, Curitiba tem uma cena consistente de arquitetos e urbanistas. Como foi a recepção e interação com esses talentos locais?

O que eu sinto é que por não ser daqui eu tenho uma licença para agir de outra forma, fazer de um jeito diferente. Me sinto um pouco livre para isso. Existia uma demanda por esse tipo de arquitetura. Diferente até do que me falavam quando eu disse que vinha pra cá. Quando cheguei ouvi muito “nossa, finalmente alguém que faz esse tipo de trabalho”. Tenho contato com vários dessa turma clássica, o Jayme Bernardo, por exemplo. A gente acabou de fazer um projeto junto com o pessoal da Arquea…. Muito se reclama, se diz que arquitetos têm muitos egos, mas eu me dispo um pouco disso. Eu tenho meu jeito de ser, vou a pouquíssimos eventos, não sou arroz de festa, não participo de mostras… Minha mostra é o apartamento que fiz, a peça que desenhei…

Falando em arquitetura e design. A gente te reconhece hoje muito mais pelo segundo. É um objetivo?

A maioria das pessoas (risos)… A gente é muito arquitetura, mas o design – é engraçado e até assustou um pouco no início -, ele se divulga muito rápido. Não sei se é porque a peça não tem raiz, diferente da arquitetura. A impressão que dá é que ele acontece mais rápido, as pessoas têm acesso imediato a isso, é mais autoral também, não existe a figura do cliente/morador… O design acontece entre a arquitetura e a arte.

“Há um certo minimalismo, mas a gente tenta sempre dar calor a ele”, define o arquiteto que assina o projeto do SPA Gaya Bem-Estar, em Curitiba.

Qual o peso do design e da arquitetura no escritório?

A ideia é ser meio a meio. Que a gente não tenha nem a arquitetura se destacando, aparecendo com um volume maior, e nem o design. Os dois são importantes.

A sua equipe é super pequena, tem mais dois colaboradores apenas. É a ideia?

A ideia sempre foi ser um escritório enxuto, reduzido mesmo. Mas assim: não temos estagiários, só arquitetos. Justamente pra gente ter bons profissionais e, de certa forma, atingir bons clientes, com propostas de projetos interessantes. A ideia de não fazer volume continua existindo, de não se repetir também. O tipo de projeto que mais atrai é aquele que a gente ainda não fez.

Vi que recentemente vocês fizeram um apartamento de 35m². E tem outro de 30m²… Você gosta desses projetos menores?

É bem diferente, mas é muito legal que te exige muito. Você tem que ganhar espaço de algum jeito e, mais do que nunca, precisa do cliente para ver o que é realmente importante pra ele. Esse do Água Verde [de 30m²], conversando com a cliente, percebi que ela não cozinhava em casa. A sala e a cozinha eram muito pequenas, então a gente foi enxugando a cozinha a ponto de virar quase uma bancada de apoio. Já a sala dobrou de tamanho. Então a exigência por soluções diferenciadas e personalizadas acaba sendo muito maior,. Acaba sendo super divertido. A gente sabe que houve também uma revolução do setor imobiliário e que há umas boas décadas vêm diminuindo as metragens, a cozinha agora está integrada com a sala… O Jaime Lerner tem uma frase que diz “se você quer criatividade corte um zero do orçamento”, é um pouco isso. Se você tirar um pouco de metragem ali talvez tenha mais criatividade.

 
 
 
 
 
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Outra característica que a gente identifica em seu trabalho é uma apego ao local, uma valorização das marcas e empresas que sejam daqui. Uma tendência que há tempos já chegou à gastronomia, por exemplo. Isso faz parte do seu estilo?

Tem algumas coisas em que eu não acredito muito, estilo e tendência são duas delas. Tendência tem muito a coisa do modismo, tendência por tendência. Óbvio que a gente sabe que existem tendências que são macro e que não se enquadram mais em tendência. Sustentabilidade, por exemplo, é uma palavra que a gente ouve há anos e hoje é uma obrigação. A gente tem que pensar na atemporalidade, porque tudo é investimento, e a ideia é que seja um projeto duradouro. Não à toa a gente bebe de uma fonte de arquitetura da década de 1950/60, um mobiliário de Sérgio Rodrigues, Jorge Zalszupin… Peças que até hoje você vê em revista, as pessoas têm em casa e continua atual. Se da década de 60 até hoje isso não se perdeu, não se datou, não vai ser em cinco, 10 ou 20 anos. Mas a ideia é sempre ter peças com produtos naturais e valorizar quem também tem isso alinhado com o nosso trabalho. A gente tem galerias de arte aqui como a SIM Galeria e a SOMA, por exemplo, que têm esse mesmo tipo de pensamento, que valorizam o artista local, acreditam no trabalho dele.

“Não sou um arquiteto bitolado em arquitetura. Prefiro ficar em volta disso: arte, moda, cinema, teatro, literatura, beber de outras fontes.”

Mas se tivesse que definir, qual seria o seu estilo?

De certa forma a gente vai no mobiliário moderno que é a nossa história, recente. Tem um pouco disso e um pouco da escola que eu tive principalmente com o Isay… Há um certo minimalismo, mas a gente tenta sempre dar calor a ele. Tem a ideia de buscar sempre a essência, valorizar o que precisa ser valorizado, tecidos naturais, pedra, madeira, proporção certa, luz certa, um pouco dessa busca por esses elementos que formam a arquitetura, é em direção ao essencial, de certa forma. Acho ruim rotular porque limita a gente. Existe uma linguagem, existem algumas soluções, detalhes pelos quais as pessoas já nos identificam e têm a ver com a identidade do escritório, como os puxadores.

 
 
 
 
 
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De quais fontes de inspiração você bebe?

Tem o cliente que é muito importante e a gente tenta envolver em tudo. Aquele cliente “tanto faz” é o pior, eu fujo dele um pouco (risos). Para fazer um projeto para você eu tenho que tentar entender quem é você. Eu não consigo fazer um projeto para qualquer um ou para ninguém. Existe uma identidade que precisa aparecer ali, no resultado final tem que ter a cara dessa pessoa. Não tem como ver o cliente como problema. Outro ponto é o que não está na arquitetura. Não sou um profissional vidrado, louco por arquitetura. Não conheço todos os arquitetos, todos os projetos. Tenho sim uma facilidade com o nome de peças, das minhas e dos outros, tenho esse HD (risos). Mas não sou um arquiteto bitolado em arquitetura. Prefiro ficar em volta disso: arte, moda, cinema, teatro, literatura, beber de outras fontes.

E a cena cultural curitibana não fica muito atrás de São Paulo, né? Quais suas descobertas por aqui?

É engraçado por que eu tinha acabado de mudar pra cá e no MON a gente tinha três exposições que aconteceram em São Paulo em momentos e lugares diferentes. Eu não dei conta de ver todas elas e quando cheguei aqui estavam todas no mesmo lugar, foi “uau!”. Para mim foi bem impactante isso. E e sou apaixonado pelo Paiol. Para mim é o lugar mais bonito de Curitiba. Tudo que tem lá eu tento ir. Festival de Teatro eu começo pelo que tem no Paiol. A construção, a iluminação, as cadeiras longarinas do Sérgio Rodrigues… Tem tanta coisa num lugar só. Sou meio viciado em pizza e em Curitiba há boas pizzarias. Sou fã da SIM Galeria. Conheci o Waldir [Simões de Assis] em SP, em um antiquário. Tenho uma ligação legal com eles. Acabaram me apresentando o André Nacli [fotógrafo e proprietário no Nomaa Hotel]…

A pergunta que não quer calar: você é mais paulista ou curitibano?

Não sei, tenho um pouco de crise (risos). Tem um lado bom que eu me sinto meio sem raiz. Tenho sim uma relação com SP, clientes lá, vou lá respirar um pouco daquela poluição (risos), mas aqui é um cenário que favorece de outra forma o trabalho, a produção. Com a globalização, a internet, essas barreiras estão muito mais frágeis. SP tem problemas e vantagens, aqui é a mesma coisa. Saber trabalhar com isso é o grande desafio.

A parceria com a Schuster Móveis & Design começou lá em 2013 e se mantém até hoje. Como é trabalhar para a indústria?

Quando a gente desenha para a indústria tem dois caminhos básicos: prestar o serviço para a empresa onde, basicamente, a gente só desenvolve, mas produção, custo, data de lançamento, controle comercial, é tudo por conta da indústria; e aí tem o outro caminho que é o da marca própria, onde a gente assume isso, desenvolve essa peça, vai atrás de empresas que executem isso, tem um controle sobre todas as etapas. As peças que geralmente a gente lança em Milão e na MADE em SP são desse caminho, um caminho que é interessante, onde eu assumo mais riscos. Normalmente com a Schuster eles nos mandam um briefing da coleção do ano às vezes mais detalhado, às vezes menos. Mas nos dão bastante liberdade para criar.

 
 
 
 
 
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E o que podemos esperar para 2019?

Existe essa ideia de aumentar as dimensões dos projetos de arquitetura, ir para edifícios, por exemplo. Há a possibilidade de projetarmos um hotel em breve. No lado do design a gente quer diminuir essa escala. Tem a bandeja Fita que é nossa menor peça, mas estamos trabalhando em acessórios menores ainda. Este ano a gente vai focar em peças de mobiliário fora do país. Então tem essa ideia de internacionalizar mais a marca, trabalhar mais eventos além da Milão. Em fevereiro lançamos na Paralela Design, em São Paulo, um conjunto de mesas de centro junto com a Schuster. Vamos participar da SP-Arte deste ano. Tem o desafio de ir também além da madeira, já tem a rocha ornamental acontecendo nas bandejas, materiais diferentes… É fazer aquilo que a gente não fez ainda, o desafio é sempre esse.

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