Elisa Orth: uma cientista premiada em defesa da ciência e da tecnologia

Elisa Orth: uma cientista premiada em defesa da ciência e da tecnologia

A pesquisadora fala sobre sua trajetória reconhecida internacionalmente, os cortes de verba nas universidades públicas e a nova onda de agrotóxicos liberados no país

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Quem entra no campus Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR) vê a vida universitária pulsando a todo vapor. Logo na entrada do Departamento de Química, são dezenas de estudantes com livros e cadernos ocupando as mesas do espaço. No final do corredor, do lado esquerdo, está o gabinete da doutora Elisa Orth.

Aos 35 anos, Elisa já foi uma das vencedoras do prêmio Para Mulheres na Ciência, promovido pela L’Oréal, Unesco e Academia Brasileira de Ciência (ABC), e Rising Talents, também da parceria L’Oréal—Unesco. No fim do ano passado, viajou até a Tailândia para receber mais um título importante: agora é a única mulheres das Américas a ganhar o Green Chemistry for Life Research Grant, da Unesco. A química voltou para sua sala com R$ 100 mil para investir nas pesquisas do grupo que coordena na universidade.

Em meio aos cortes de verbas das universidades federais, Elisa não sabe se conseguirá utilizar todo o dinheiro. Isso porque o reitor da UFPR, Ricardo Fonseca, garantiu que a universidade vai fechar as portas no segundo semestre, caso o corte aplicado pelo Governo Federal continue nos próximos meses. “Não é falta de dinheiro, é estratégia. Mesmo se estivéssemos passando por uma crise, todos os países, nesses casos, fazem como primeira estratégia investir em ciência, tecnologia e educação – nunca cortar”, enfatiza Elisa. “Não se corta os pilares do desenvolvimento do país, é isso que o faz crescer.”

A catarinense cresceu em meio às salas e laboratórios da universidade em que o pai lecionava. Ele dava aulas na área da agronomia e a mãe, na rede pública. Foi graças à influência de ambos que Elisa decidiu que seria professora. Seu tema de pesquisa também remonta à infância: agrotóxicos. Quando era jovem, via seu pai procurando novas maneiras de usar agrotóxicos de forma consciente. Com a nova onda de produtos liberados no país – 169 ao todo –, a pesquisadora se preocupa com os problemas que podem acompanhá-los. “Agrotóxico é um caso de saúde pública. É a segunda maior causa de envenenamento no mundo, só perde para remédios. Já trabalhávamos com uma cartela de agrotóxicos bem mais ampla que muitos países permitem”, reforça.

Foto: divulgação.

Elisa, que já representou o Brasil em encontros da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq) no mundo todo, conta, no bate-papo a seguir – feito pouco mais de uma semana após os protestos contra os cortes de verba nas universidades – sobre o panorama da ciência brasileira no atual cenário, suas pesquisas e sua trajetória científica.

Desde 1901, 97% dos ganhadores de prêmios Nobel de ciência foram homens. O que resulta em apenas 18 mulheres na lista de 590 prêmios já entregues. Na sua área, a Química, a diferença é ainda maior: 98%. Por que as mulheres ainda são menos reconhecidas na ciência?
Essa pergunta é difícil, não tem uma resposta simples. Esse número é bem alarmante. Vemos alguns números que são bem promissores, como um relatório de dois anos atrás que mostra que 49% dos pesquisadores no Brasil são mulheres. Isso é ótimo, temos que comemorar. No Japão, esse número é 20%, é absurdo. Mas o que percebemos, em todas as esferas, mas especialmente na ciência, é que vai afunilando ao subir ao topo da carreira. Hoje, na Química, apenas 11% dos bolsistas A são mulheres. A Academia Brasileira de Ciência é o topo para qualquer cientistas e hoje tem apenas 14% de mulheres. Na Química, esse número é menor. A gente forma estudante e pensam que só os melhores chegam lá em cima – e quem chega sempre são os homens. Mas não é verdade! Acho que são fatores que estamos mudando com o passar do tempo. Um deles é criar referências. Enquanto não tiver mulheres lá em cima, não vão ter mulheres que vão querer estar lá. Ou, muitas vezes, nem sabem que podem chegar lá. Não é só o efeito que o homem não deixa a mulher chegar – claro que ainda tem preconceito –, mas, às vezes, esse preconceito vem enraizado na própria cultura. A gente não tem referências [femininas]. Vemos reportagens de ciências e sempre tem homens de jaleco e não mulheres. Temos que mostrar que as mulheres sabem fazer e dar oportunidades. Temos que continuar debatendo isso, mostrando para os jovens e as crianças. Esses estereótipos começam lá na infância, então precisamos começar a criar referências na TV, nos jornais, nos desenhos, nos jogos. Jogos de ciência ainda têm meninos na capa. Precisamos que todos percebam que podem fazer isso. Os homens têm que dar essa oportunidade para mulheres também. Mas as coisas já estão mudando. No [prêmio] Nobel do ano passado, na Química e na Física mulheres foram premiadas. E, mais importante, o Nobel da Paz foi dado à causa das mulheres.

Quais os principais desafios para elas na carreira científica?
O primeiro é provar que, apesar de sermos mulheres, conseguimos fazer ciência. Agora, mais recentemente, começou a surgir esse preconceito de que “ah, agora está na moda falar de mulheres, então ela está sendo convidada só porque precisa ter uma mulher”. Está errado. Tem uma questão de que parece que a gente tem que se provar mais do que um homem teria para estar em uma função. Mas vejo que estamos em uma época muito boa, a mídia e os alunos estão engajados nisso. Quando vou dar palestras sobre mulheres na ciência, vejo que não tem só mulheres na plateia, tem vários homens que estão interessados. Tem desafios para mulheres como tem para outras minorias na sociedade. Precisamos estar juntos.

Sobre os cortes em ciência, tecnologia e educação: “O mundo inteiro está assustado com o que está acontecendo no Brasil. Temos que ficar confiantes no papel que temos e ter a clareza que a universidade, a ciência, a tecnologia e a educação são pilares da sociedade.”

Você vê mais investimento para as mulheres na área? Ou ainda falta?
O tema, falar sobre as minorias, estava muito quente. Hoje em dia, quando vamos a um congresso, por exemplo, a gente olha os palestrantes e a primeira coisa que todos notam é se tem poucas mulheres. Vemos que já se tornou mais natural as pessoas se questionarem quando tem poucas mulheres no evento ou ganhando prêmios. Ainda tem muita coisa que podemos fazer. Um avanço recente foi o aumento do tempo de licença-maternidade nas bolsas do CNPQ para pesquisadoras. Mas temos que entender, também, que estamos em uma época muito escura para isso. Estamos entrando na época que tudo que estávamos progredindo e debatendo pode ir por água abaixo. Tudo isso depende da nossa liderança e nossa liderança suprema acha que mulher tem que ganhar menos e é inferior. A gente não pode ficar alheio e cego para política, tem que entender que é isso que vai decidir nosso futuro. Temos que nos unir mais e mostrar que somos fortes e tomar cuidado com as futuras gerações. As próximas meninas talvez sofram um preconceito absurdo por vir enraizado que ela é inferior. Estamos indo para um lado bem perigoso. Estamos preocupados com os investimentos na educação e ciência no Brasil, mas mais que isso, é com o papel que as minorias vão ter: as mulheres podem perder esse incentivo, assim como os negros, os pobres.

Na contramão do que comumente acontece com as cientistas na sua área, você já ganhou importantes prêmios nacionais e internacionais, como o Para Mulheres na Ciência, promovido pela L’Oréal, Unesco e ABC, e Rising Talents, também da parceria L’Oréal—Unesco, com outras 15 pesquisadoras do mundo todo. Você esperava esse reconhecimento?
A gente quer isso, o reconhecimento, mas não espera. É indescritível explicar o quão motivador é isso. É claro que o dinheiro ajuda a fazer a pesquisa, mas é muito mais motivador. A parte de ser reconhecida, as pessoas virem falar com você, a visibilidade que o pesquisador ganha, é isso que mais me motiva e tem me dado gás para batalhar mais ainda e conseguir melhores resultados. Quando a gente recebe esse reconhecimento é a coisa mais motivadora que podemos ter.

Elisa e as outras vencedoras no Mulheres na Ciência 2015. Foto: Aline Massuca/divulgação.

Você também foi a única mulher das Américas a ganhar o prêmio Green Chemistry for Life Research Grant, da Unesco…
Foi muito legal, porque é algo que estou fazendo há menos tempo. Estamos pegando materiais que são um problema no Brasil, como a casca de arroz, e transformando em materiais que podem ter utilidade para solucionar um problema que é a toxidade dos agrotóxicos. Pegamos um lixo para resolver um problema que é mais tóxico ainda. Esse prêmio veio em um momento super importante porque é recurso [financeiro] para o laboratório, já que estamos tendo cortes enormes na pesquisa. Com essa desvalorização absurda da ciência no Brasil, ir lá fora e ganhar um prêmio de R$ 100 mil mostra que estão tirando dinheiro da pesquisa aqui, mas lá eles estão reconhecendo a gente.

Recentemente, o governo anunciou cortes de verba para as universidades federais. O reitor da UFPR havia declarado que, a partir disso, a universidade não conseguiria nem finalizar o ano letivo. Como fica sua pesquisa neste cenário?
A gente já vinha sofrendo cortes absurdos desde 2016. Tivemos o fim do Ministério da Ciência e Tecnologia, que já mostrou que essa deixou de ser prioridade no governo. Mas apesar de termos ganhado esses prêmios, nada disso adianta se não tivermos a universidade. Isso [os cortes] é um projeto, não é porque estamos passando por uma crise. Vemos a quantidade de recurso que estão sendo pagos para partidos e dívidas de empresas privadas que estão sendo perdoadas. Temos que abrir os olhos. Não é falta de dinheiro, é estratégia. Mesmo se estivéssemos passando por uma crise, todos os países, nesses casos, a primeira estratégia é investir em ciência, tecnologia e educação – nunca é cortar. Não se corta os pilares do desenvolvimento do país. Mostramos que mais de 90% das pesquisas são feitas em instituições públicas, é de qualidade e somos reconhecidos no mundo inteiro por isso. Só aqui que estamos difamando e demonizando as universidades, fazendo parecer que não dá retorno e não faz o que tem que fazer, mas a gente usufrui o retorno da universidade diariamente. A própria descoberta do Zika Vírus foi brasileira, além de vários outros avanços a partir de pesquisas feitas com dinheiro público. É um projeto para as pessoas pararem de pensar e questionar e, talvez, quando todos perceberem vai ser tarde demais.

“Estamos preocupados com os investimentos na educação e ciência no Brasil, mas mais que isso, é com o papel que as minorias vão ter: as mulheres podem perder esse incentivo, assim como os negros, os pobres.”

Por que o país ainda vê o dinheiro injetado na ciência e tecnologia como um gasto e não, efetivamente, como investimento? Essa mentalidade é uma onda recente?
Eu acho, em primeiro lugar, que isso não é o Brasil, é uma minoria [que pensa assim]. Estamos sendo enganados por várias redes e fontes. Como falei, é um projeto e faz parte dele demonizar a universidade e fazer acreditar que a gente não dá retorno, que é um gasto e não um investimento. Tivemos um estudo que mostrou que a maioria da população acreditava que a ciência e tecnologia são importantes para o país, então as pessoas têm a percepção correta. A maior parte das pessoas, depois da expansão dos campi da universidade, está envolvido – conhece alguém ou tem uma pessoa na família. E elas viram o avanço que trouxeram para o Brasil, a possibilidade de muita gente estudar. Infelizmente essa minoria tem muita importância no atual governo. O mundo inteiro está assustado com o que está acontecendo no Brasil. Temos que ficar confiantes no papel que temos e ter a clareza que a universidade, a ciência, a tecnologia e a educação são pilares da sociedade. Não é a gente aqui dentro contra todo o resto, estamos todos juntos. Tenho muita esperança no povo brasileiro, eles estão do nosso lado.

Você estudou na Universidade Federal de Santa Catarina e agora dá aulas na Universidade Federal do Paraná. Qual o papel das universidades públicas hoje e como ela influenciou na sua trajetória?
Influenciou tudo na minha trajetória. Eu fiz tudo dentro da universidade. Tive o prazer de estar sempre dentro, desde muito pequena. Meu pai era professor da universidade, minha mãe era professora da rede pública, então participei muito desses meios. Todas as minhas atividades de extensão eu participava. Sinto enorme orgulho de saber que sou fruto disso. Sinto que tenho o dever de dar essa possibilidade para outras pessoas. É muito injusto eu, agora, pensar em ir embora porque já fiz minha carreira aqui e vou conseguir um emprego em outro lugar. Eu me sinto na obrigação de possibilitar que outras pessoas tenham acesso a isso. Eu vi as universidades crescendo. Eu vi primas que não teriam como estudar ingressando na universidade, tem bolsas para os estudantes. Eu vejo o quanto melhor e como todos tiveram mais oportunidades. Sempre enalteço o privilégio de estar aqui dentro. Nós, que estamos aqui, temos o dever de passar isso para outras pessoas. Todos têm que ter esse acesso.

Sobre a liberação de quase 200 novos tipos de agrotóxico: “Todas as coisas estão levando a gente para uma era muito obscura.”

Sua pesquisa é na área dos agrotóxicos. Só neste ano foram aprovados mais 169 agrotóxicos no país. Você vê isso como um avanço ou um retrocesso?
Um enorme retrocesso. Os agrotóxicos são proibidos baseado em estudos. Tem vários que foram proibidos seguindo uma vertente mundial, com estudos que mostram relação com má formação [do feto], câncer e outros problemas sérios de saúde pública. Agrotóxico é um caso de saúde pública. É a segunda maior causa de envenenamento no mundo, só perde para remédios. Já trabalhávamos com uma cartela de agrotóxicos bem mais ampla que muitos países permitem – tanto em produtos quanto em quantidade. Agora a gente libera e os números são absurdos. Alguns desses [que foram liberados] já são comprovadamente ruins e fazem mal. De novo: faz parte de um projeto. Isso porque tem pessoas que vão ganhar dinheiro com essa liberação. Temos que ter essa consciência. Tem pessoas falando que a gente precisa de agrotóxicos para a produção porque nossa economia depende disso. Mas a gente já vinha fazendo isso. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos mundialmente, e a agricultura mais rentável para conseguir suprir a demanda ainda é com uso de agrotóxicos. Ainda não existe uma agricultura sustentável sem agrotóxicos para essa produção em larga escala. Mas a gente já vinha fazendo isso, não precisa ampliar os agrotóxicos. Temos muitas pesquisas e muita gente trabalhando justamente para tentar diminuir o uso e criar outros que sejam menos tóxicos – não liberar os proibidos. Estava funcionando bem. Antes de liberar [os novos tipos de agrotóxico], nós já éramos os terceiros maiores produtores de alimentos e com projeção de sermos o primeiro ano que vem. Esse pretexto é falso. Todas as coisas estão levando a gente para uma era muito obscura.

Qual o impacto disso na população?
Eles foram proibidos por um motivo. Cada um pode levar a uma anomalia específica. Isso gera impacto direto na sociedade. Vamos consumir alimentos que estão mais intoxicados e [a partir disso] muitas doenças vão surgir, que podem ser percebidas só a longo prazo. Acho que nossa produção também vai sofrer. Vários países têm exigido que tenhamos um mínimo controle de agrotóxicos. Então não adianta liberar para satisfazer uma bancada ruralista, a gente vai começar a perder dinheiro. Não adianta aumentar a produção se ninguém vai comprar.

Você já representou o Brasil em encontros da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq), que tem como objetivo promover a paz mundial por meio da suspensão da produção de armas químicas e da destruição dos estoques das já criadas – e que já ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2013. Há avanços expressivos nessa área?
A preocupação deles é diminuir qualquer agente tóxico no mundo – isso envolve armas químicas, que são usadas em guerras, os agrotóxicos e, também, a indústria química. A nossa problemática é muito parecida, porque as armas químicas foram criadas a partir de agrotóxicos, a molécula química é muito parecida, a forma de atuar também. O jeito que tentamos detectar e monitorar o uso de agrotóxicos nos alimentos talvez seja o mesmo mecanismo para identificar se teve um ataque químico terrorista. Temos atuado nisso. Tenho participado de eventos no mundo todo representando o Brasil para mostrar que o que a gente faz com agrotóxico poderia ser ampliado nessa área, minha contribuição é essa. Estamos avançando muito. Agora vamos começar a testar em armas químicas de verdade, estou começando a trabalhar com isso agora, em colaboração com eles. É uma vertente nova no meu grupo.

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