100 anos de artigas

100 anos de artigas

por Raquel Marçal Rua da Paz,479. Quem passa pelo endereço, próximo ao Mercado Municipal de Curitiba, estranha, intriga-se e se admira com o caixote de concreto armado pintado...

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por Raquel Marçal

Rua da Paz,479. Quem passa pelo endereço, próximo ao Mercado Municipal de Curitiba, estranha, intriga-se e se admira com o caixote de concreto armado pintado de vermelho incrivelmente apoiado sobre finos pilotis. As imensas vidraças da fachada e da lateral deixam a luz entrar à vontade, e também um pouco da curiosidade vinda da rua. A casa projetada em 1949 para o pneumologista João Luiz Bettega destoa de tudo o que a elite curitibana da época estava acostumada. Não só é um raro exemplar da arquitetura modernista na cidade como saiu da prancheta de um gênio: o curitibano João Batista Vilanova Artigas (1915-1985), que completaria 100 anos no dia 23 de junho.

A data está sendo lembrada com o lançamento de um documentário, a publicação de dois livros, um site dedicado à memória do arquiteto, além de duas grandes exposições simultâneas – marcadas para abrir no dia 23 de junho no Itaú Cultural, em São Paulo, e em julho no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba. Autor de mais de 700 projetos, Artigas criou o estádio do Morumbi, o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP) e a antiga rodoviária de Londrina, hoje museu de arte. Em Curitiba, foram nove obras, seis delas infelizmente demolidas. Além da casa Bettega, sobraram a casa Niclevicz (1978), no Seminário, e o Hospital São Lucas (1945), no Juvevê. 

 

Tanto a residência Bettega quanto a Niclevicz foram salvas por dois arquitetos que, por acaso, compraram os imóveis no mesmo ano, em 2003. A arquiteta, pesquisadora e professora da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Giceli Portela, tornou-se a proprietária da casa de 500 metros quadrados na Rua da Paz – e fez dela o tema de sua dissertação de mestrado na Universidade de São Paulo (USP). Em seus estudos, descobriu que o mestre reproduziu em suas obras traços típicos das casinhas do Paraná, como as madeiras verticais impressas na fachada da casa Olga Baeta, projetada em 1956, em São Paulo. “Artigas muitas vezes é tido como o maior arquiteto paulista, mas ele é do Paraná, teve aqui suas origens intelectuais e transporta sua cultura de berço para suas obras”, ressalta Giceli, que rebatizou seu imóvel de casa Vilanova Artigas.

No lugar, agora restaurado, ela mantém seu escritório, um centro cultural – com livraria especializada em arte e design – e o recém-inaugurado Virginia Bistro, batizado em homenagem à mulher de Artigas, a ilustradora Virgínia Camargo. O cômodo onde ficava o consultório do doutor Bettega virou um memorial onde estão expostos objetos pessoais do arquiteto, como uma gravata borboleta e uma caneta, a planta da casa e o manuscrito original de “O Desenho”, texto escrito por ele para uma aula inaugural em 1967 na FAU/USP.

A sala da casa Vilanova Artigas, que acomoda livraria especializada e as mesas do recém-inaugurado bistrô.
A sala da casa Vilanova Artigas, que acomoda livraria especializada e as mesas do recém-inaugurado bistrô.

A casa é hoje tombada pelo Patrimônio Histórico Estadual e Municipal, está aberta a visitação (com hora marcada) e, ao lado do Museu Oscar Niemeyer, é uma das obras mais visitadas por arquitetos e estudantes do mundo inteiro em Curitiba. O interesse se explica. “Esta casa antecipa procedimentos do Artigas que ele vai desenvolver de uma maneira mais acentuada nas obras da década de 1950”, diz Miguel Antonio Buzzar, pesquisador da USP em São Carlos e autor do livro João Batista Vilanova Artigas – Elementos para a compreensão de um caminho da arquitetura brasileira, 1938-1967 (Editora Unesp), lançado em 2014. “Nela, a estrutura resume e revela o conjunto da arquitetura e todos os ambientes estão condensados em um mesmo volume. A ideia desse grande volume é intensificar as relações entre os moradores”, explica. Segundo o pesquisador, essa característica é um marco na obra de Artigas, que reverberou na chamada Escola Paulista, a versão brasileira do movimento Brutalista, conhecido pelo uso de estruturas de concreto armado colossais, com vigas e pilotis aparentes, sem acabamentos como reboco e pintura. O movimento surgiu nos anos 1950, com obras do franco-suíço Le Corbusier. 

O Brutalismo pode ser lido claramente na concepção da residência Niclevicz, o último projeto residencial de Artigas. Feito para uma sobrinha em 1978, hoje pertence ao arquiteto Marcos Bertoldi, que mora e trabalha no imóvel. A casa já foi publicada na revista TOP VIEW em setembro de 2011 e, em janeiro deste ano, saiu nas páginas da revista Summa+, a mais importante publicação latino-americana de arquitetura e design. “Esta é uma obra única em Curitiba, da terceira fase do Artigas, a mais nobre, quando o trabalho dele tinha maior relevância nacional e internacional”, diz Bertoldi, sentado na enorme sala de estar/jantar cujas vidraças do chão ao teto, nas duas laterais, transformam os jardins externos e o pátio com pergolado onde fica a piscina em extensões do interior.

O acesso aos andares superiores é por rampas – elemento quase onipresente nas casas de Artigas –, responsáveis pela sensação de continuidade entre os ambientes. É como se os diferentes níveis estivessem em um único plano. “Quando subo a rampa não tenho de olhar para baixo, posso ver o balanço das folhas lá fora, as nuvens, um passarinho na árvore. Tudo está a minha disposição porque estou passeando pela casa”, diz Bertoldi. Da forma como foi desenhado, como se estivesse de costas para a rua, o projeto parece criar um mundo à parte. Seria o comunista Artigas expressando em um projeto introspectivo sua insatisfação com a ditadura lá fora? Bertoldi não acredita. “O projeto original não tinha portão, ele queria que a cidade entrasse no terreno. A garagem, inclusive, é uma espécie de praça”, descreve.

A escada helicoidal nos fundos da casa é uma escultura que dá acesso ao quarto de empregada.
A escada helicoidal nos fundos da casa é uma escultura que dá acesso ao quarto de empregada.

Fato é que, para Artigas, uma construção era mais do que uma construção: era um discurso. “A gente percebe o tempo todo que ele mostra, em sua obra, como interpreta o momento político-social brasileiro”, afirma o professor Miguel Antonio Buzzar. O tal concreto aparente, por exemplo, serviria para expressar o estágio ainda bruto e primitivo da construção civil brasileira da época. Sua intenção era defender “a verdade dos materiais”, sem esconder as imperfeições do processo construtivo. Já na casa Elza Berquó (1967), em São Paulo, ele substitui as colunas de concreto por troncos de madeira, recurso que havia empregado, anos antes, na casa de praia do irmão Giocondo, em Caiobá. “Diante do endurecimento do regime militar, ele quase duvida da possibilidade de um projeto democrático que resolva as contradições entre o arcaico e o moderno no Brasil. Os troncos no lugar dos pilares é o arcaico sustentando o conjunto”, explica Buzzar.

E o que dizer da escada helicoidal – uma verdadeira escultura – nos fundos da casa Bettega? Considerada um dos elementos mais belos e complexos da obra, dá acesso ao quarto… da empregada! Uma decisão muito coerente para o gênio que via a arte arquitetônica não como um privilégio e, sim, como um direito humano.

HOMENAGENS AO MESTRE

Com estreia prevista para o dia 25, o documentário Vilanova Artigas — As Cidades como as Casas, as Casas como as Cidades traz, em 90 minutos de duração, depoimentos de várias pessoas que conviveram com Artigas, incluindo a filha dele, a historiadora Rosa Artigas, e ex-alunos como Paulo Mendes da Rocha, único brasileiro a ganhar o Pritzker, o Nobel da arquitetura. O roteiro é assinado por Laura Artigas, neta do arquiteto. “Fazendo o documentário, descobrimos que ele tinha um grande amor pelos professores dele no Paraná, um carinho enorme por essa formação. Daí veio o interesse dele em ser professor”, conta a roteirista, que tinha quatro anos quando o avô morreu. O longa será exibido em salas do Espaço Itaú de Cinema em todo o país (em Curitiba, no Shopping Crystal), mas já é possível assistir a trechos no site www.vilanovaartigas.com, dedicado ao arquiteto.

Ao mesmo tempo, chegam às livrarias os títulos Vilanova Artigas, uma curadoria dos 43 projetos mais relevantes do arquiteto, e A mão livre do vovô, uma seleção de desenhos que ele fazia para divertir os netos. Estão programadas a abertura de duas exposições: uma no Itaú Cultural, em São Paulo, que abre no dia 23 de junho, e outra em Curitiba, no MON, no final de julho. Também haverá homenagens em Londrina, onde, além da antiga estação rodoviária, Artigas projetou o Cine Teatro Ouro Verde (1948) — que pegou fogo em 2012 e está na etapa final das obras de recuperação — e a Casa da Criança (1950), que está sendo restaurada e abrigará uma biblioteca infantil.

 


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