Postou… já era!

Postou… já era!

por Juliana Reis No dia em que sua vida mudou, a norte-americana Justine Sacco, diretora sênior de comunicações corporativas de uma grande empresa, tinha apenas 170 seguidores do...

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por Juliana Reis

No dia em que sua vida mudou, a norte-americana Justine Sacco, diretora sênior de comunicações corporativas de uma grande empresa, tinha apenas 170 seguidores do Twitter. E não vira perigo algum em tuitar “Partindo para a África. Espero não pegar Aids. Brincadeirinha, sou branca!” antes de embarcar rumo à Cidade do Cabo para visitar a família.

Mas um de seus seguidores, mais popular, era lido por mais 15 mil pessoas e, quando ele passou a frase adiante, o estrago foi feito. Quando pousou, Justine descobriu que enquanto dormia no ar, fazia inimigos em terra: milhares de pessoas criticavam nas redes sociais seu tuíte aparentemente racista.

Justine Sacco tornara-se o maior trending topic mundial do Twitter naquele dia. Sua reputação foi destruída, seu empregador a demitiu. Hoje, qualquer um que conheça Justine e queira namorá-la irá digitar seu nome no Google e provavelmente desistirá. O mundo parece odiar Justine. Se o voo não durasse longas 11 horas off-line talvez ela tivesse tido tempo para recobrar a consciência e apagar a frase antes que o assunto ganhasse proporção.

A história, que se passou em 2013, ilustra como as redes sociais, principalmente Twitter, Facebook e Instagram, têm poder sobre a vida das pessoas. E como a facilidade em postar um comentário malpensado ou uma foto mais comprometedora pode ter efeitos devastadores.

“Algumas informações podem ser apagadas da internet, mas não há garantia de 100%. Quando a difamação viraliza, temos um problema”, explica o especialista digital Wanderson Castilho, da E-Net Security, empresa curitibana especializada em crimes eletrônicos e limpeza de rastros na web. E o trabalho de empresas desse perfil tem aumentado. Afinal, cada vez mais recrutadores, headhunters e departamentos de Recursos Humanos também utilizam os posts em redes sociais como mais uma ferramenta de avaliação profissional.

“As fotos e imagens de profissionais no mundo digital, sugerindo comportamento inadequado, são de fácil acesso para o RH e comprometem uma continuidade nas posições que ocupam”, diz a master coach curitibana, Jane de Souza, que trabalha principalmente com treinamento para cargos executivos.

MOSTRE-ME O QUE POSTAS…

Para definir o impacto que o comportamento nas redes sociais pode ter na vida profissional de uma pessoa, o behaviour designer Paulo Crepaldi cunhou o termo karma virtual, baseado no conceito espiritualista que diz que para toda ação existe uma reação. “Tudo o que você fez até hoje na internet pessoas viram e compartilharam. E esse será seu karma virtual. As empresas e os recrutadores olham seu curriculum vitae, mas também avaliam o que você faz e diz nas redes sociais.”

Para Crepaldi, no entanto, isso não é motivo para ser desligar totalmente da internet. “Querer fazer parte de uma rede social para não postar nada é incoerente. Somos seres humanos e estamos acostumados a avaliar as imagens das pessoas. O que conta é o bom senso.”

Ou seja, também é possível usar a comunicação digital a seu favor abordando assuntos positivos e de inspiração para as pessoas. Que o diga o paulistano Alexandre Taleb. Ele é personal stylist e shopper do Grupo Jereissati Iguatemi, blogueiro de Caras Blogs, consultor de estilo e também professor no MBA de Gestão de Luxo na faculdade Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo. Um dia soube que um empregador que impulsionaria sua carreira observou seu perfil no Facebook durante dois anos antes de decidir contratá-lo.

“Não mudei meu comportamento quando soube, pois sempre tive um bom posicionamento nas redes”, diz. O perfil de Taleb é coerente com sua posição profissional e também tem pitadas da vida pessoal. “Colocar algo de sua vida em família mostra que você é uma pessoa além do trabalho.”

A curitibana Angelita Siqueira, coach e especialista em marketing pessoal, trabalha principalmente com profissionais em recolocação e concorda com Taleb. Mas lembra que fotos e frases de cunho pessoal podem ser uma faca de dois gumes.

“Todo mundo se diverte e tira férias. Foto de biquíni significa que você se descontrai também, mas eu aconselho a não sensualizar porque isso gera várias interpretações.” Angelita trabalha com seus clientes focando especialmente no LinkedIn, a rede social voltada para networking e negócios. “Mas dou alguns toques sobre como se colocar no Facebook e WhatsApp. As fotos ganham especial atenção.”

Sua coachee Anna Claudia Gomes, administradora, achou melhor seguir os conselhos quando percebeu que suas fotos nas duas redes a mostravam claramente de biquíni na praia, apesar do ângulo estar apenas do ombro para cima.

“As pessoas veem a foto como bem entendem. Trabalho em multinacionais e muitos dos meus colegas são homens”, afirma. Além de perceber que a foto comprometeria sua credibilidade, Anna Claudia notou que a vida de colegas que postavam muitas informações nas redes sociais era sempre comentada pelos corredores da empresa. Optou por colocar apenas referências e resumo profissional no LinkedIn e restringir o acesso a suas contas de Facebook e WhatsApp.

O BIG BROTHER EXISTE

Os brasileiros são uns dos que mais se expõem na internet, segundo Rômulo Machado, da De Bernt Entschev Human Capital, que recruta capital humano para empresas nacionais e internacionais com alto grau de exigência. Ele assume que redes sociais são consultadas, mas que a prova das competências comportamentais e técnicas é comprovada nas entrevistas presenciais.

No entanto, já aconteceu de a gafe ser tão grande que a fase presencial foi descartada. “Um profissional foi eliminado do processo de seleção por Skype porque sua foto era extremamente informal e não condizia com o que a empresa procurava”, diz Rômulo.

“Na Europa, a Lei do Esquecimento [que permite a remoção de links que façam referência a dados irrelevantes ou defasados sobre os cidadãos em mecanismos de busca na internet] é um conceito bem definido. Mas aqui ainda precisamos discutir o tema”, diz Wanderson Castilho, que ressalta o quão polêmico o assunto ainda é.

As redes sociais nunca estiveram tão perto de representar o Big Brother, a entidade que devassa a intimidade dos seres humanos na célebre obra 1984, de George Orwell. Juntas, podem facilmente construir prestígio ou destroçar a dignidade de um cidadão. Por isso, ter consciência de que tudo o que se posta fica registrado ainda é o melhor posicionamento.

#JÁERA

Especialistas dão exemplos de situações que custaram o emprego atual ou comprometeram a busca por um novo. O profissional, até então, estava de acordo com as diretrizes da empresa. Foi excluído quando, no momento da entrevista, o recrutador se deparou com sua foto de perfil no Skype: o candidato estava de sunga.

O profissional com networking interno forte reuniu-se com muitos pares e clientes internos em uma mesa durante comemoração corporativa. Todos bebiam e conversavam sobre vários assuntos quando, entre doses de bebidas, músicas e boas risadas, teve início uma sessão de selfies.

Uma colaboradora repentinamente o beijou, houve um clique e a foto foi postada no Facebook. A colaboradora era casada e ele também. A conduta foi considerada inapropriada e gerou comentários. A situação se agravou, estendeu-se para a família e o profissional perdeu energia e produtividade. Galgava uma elevação de cargo, mas o resultado não foi promissor, pois sua postura estava fragilizada.

Em uma seleção, o candidato deparou-se com uma antiga colaboradora com quem tivera convivência crítica, ele na posição de líder e ela subordinada. Ela, que tinha registradas mensagens dele assediando-a por celular, comentou a situação no RH apresentando as provas. O RH optou por outro profissional.

Uma colega enviou mensagem por WhatsApp para outras duas incentivando a abertura de processo trabalhista contra o gestor imediato, que, segundo ela, se comportava como um “carrasco”. Uma das colaboradoras mostrou a mensagem ao gestor. A autora foi desligada da empresa.


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