FASHION

Artigo: você tem vergonha de quê?

Confira o artigo escrito por Mila Silbermann

Eis que, um dia, você abre seu armário e se dá conta de que tem mais roupas, sapatos e bolsas do que consegue usar no dia a dia. Algumas você comprou por impulso e jurou que ia usar, outras estavam com um preço bom, e ainda aquelas que ganhou de presente mas nunca teve uma boa ocasião para estrear o look. Essa cena é mais comum do que se imagina. Nesta nossa sociedade de consumo, não demora nada para que as mulheres (e homens também!) se vejam nessa situação.

Uma das possibilidades para liberar espaço no armário e colocar as peças que estão paradas de volta em circulação é a negociação com brechós. Nos últimos anos, mais e mais lojas e e-commerces de roupas seminovas estão surgindo, e a ideologia da reutilização vem crescendo nos corações e mentes dos brasileiros. Mas, quando se trata de peças de luxo, ainda existe um certo tabu em vender para brechós. Imagina se fosse assim com outros bens, como os carros… Haja espaço de garagem!

E daí se alguém souber que você desapegou daquela bolsa Prada maravilhosa? Ou daquele casaco Burberry chiquérrimo? As roupas que compramos não precisam necessariamente ficar conosco para sempre. Se algo deixou de servir, se você não usa mais porque já não combina com seu estilo, se foi uma compra feita meio sem pensar, por que não passar para frente? Por que ter vergonha?

Uma busca rápida na internet mostra até vídeos ensinando a perder o medo e a vergonha de vender para brechós, quando, na verdade, esse é um processo tão simples e tranquilo. Quando as peças são colocadas à venda, seja em brechós físicos ou em sites, é tudo anônimo. O novo dono jamais vai saber de onde veio aquela bolsa ou aquele óculos, não terá como rastrear. Se a vergonha é o problema, já está resolvido.

Uma suspeita que tenho é de que muita gente tem receio de colocar as roupas de grife de volta no mercado por não querer ser julgada. “Ih, olha lá, soube que a fulana está vendendo a Chanel…” No mundo consumista em que vivemos, marcas são status, um indicativo de poder. Então, isso significa que um vestido Gucci deve ficar parado no armário, pegando poeira, só para dizer que ele está lá? Mesmo que ele já não sirva mais ou não combine mais comigo?

Mais legal do que acumular marcas no guarda-roupa é saber a hora de passar para frente. Fazer um “detox” no closet libera espaço, renova as energias e faz com que a gente olhe para
algumas peças de uma forma diferente, encontre novos jeitos de usar, combinações que nem imaginávamos. Comprar produtos seminovos é um desafio superado no Brasil. Demorou, mas abrimos os braços e os armários para o vintage, o thrifted e os garimpos. Agora é o momento de normalizar o desapego.

E aí, você tem vergonha de quê?

*Escrito por Mila Silbermann, influenciadora digital e sócia-fundadora da INFFINO, e-commerce de second hand de luxo

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