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Um novo olhar para a arquitetura corporativa

Entre o home office integral e a readaptação dos escritórios, a arquitetura corporativa ganha um novo papel na flexibilização dos espaços de trabalho

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Dentre todos os impactos causados pelo novo Coronavírus, a necessidade de evasão dos escritórios certamente mudou para sempre a forma de ver e se comportar no ambiente de trabalho. A rápida ação frente à pandemia colocou 43% dos colaboradores de grandes corporações em home office, como apontou uma pesquisa da consultoria Betania Tanure Associados (BTA), sendo que 74% das empresas já pensam em adotar integralmente o trabalho flexível, segundo estudo da Cushman & Wakefield.

No setor imobiliário, segundo estimativas da Consultoria Imobiliária JLL, a taxa de imóveis comerciais de alto padrão vagos pode chegar a 23% até o final do ano, uma vez que as empresas estão reavaliando as estruturas de trabalho, e se preparando para ocupar espaços menores, com rotinas e espaços mais flexíveis.

Aos profissionais da arquitetura cabe a missão de realizar uma profunda análise antropológica – quais são as novas tendências comportamentais, como elas podem afetar a nossa relação com o ambiente de trabalho e como podemos contribuir para que tudo isso se dê de maneira segura e harmônica para os usuários são questões em voga. Identificar as novas necessidades, geradas pela pandemia, traz uma nova luz à arquitetura corporativa, que, a partir de agora, deve ter seu papel de consultora e aliada estratégica dos negócios destacado. A atuação irá muito além da concepção de espaços flexíveis, confortáveis, funcionais e bonitos, que compreendam e respeitem a relação emocional-laboral. Normas sanitárias, recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), adaptação física e tecnológica dos espaços a momentos de pandemia e até a consultoria e treinamento para ajudar na transição comportamental dos colaboradores no uso dos espaços serão indispensáveis.

Um exemplo dessa nova postura é o Workplace Adjustment Program (WAP), programa de adaptação dos espaços de trabalho, criado pelo Studio BR Arquitetura especialmente para o momento atual. Especializado em arquitetura corporativa, o escritório desenvolveu um guia com mais de 50 medidas a serem tomadas em três grandes categorias que abraçam o modelo físico e o funcionamento dos espaços corporativos, considerando todo o processo de transformação e reestruturação que assola os moldes convencionais de trabalho, reunindo estratégias que se aliam a ferramentas tecnológicas, comportamentais e logísticas.

A iniciativa se alia, ainda, à metodologia patenteada pelo escritório – o Workxperience® – que tem como diferencial conduzir toda conceituação e o desenvolvimento do projeto  com base em ferramentas de workplace strategy, que inclui diferentes técnicas de pesquisas e análises, resultando em soluções customizadas e funcionais para todos os departamentos de cada empresa. Baseado no conceito americano Activity Based Working (ABW), o modelo de desenvolvimento de projetos é pautados pela rotina e estilo de trabalho das pessoas, em diferentes momentos e circunstâncias, e agora ganha um reforço no âmbito da qualidade ambiental, da saúde e da neuroarquitetura.

Para a arquiteta e sócia do Studio BR Arquitetura, Bruna de Luca, a necessidade de se reinventar acompanha a necessidade de estar atenta, principalmente, à criação de ambientes que irão promover a segurança e o pertencimento. “O tema da Covid-19 trouxe à tona o olhar atento dos colaboradores acerca dos cuidados e benefícios que as empresas irão aplicar no espaço físico deste novo futuro. A partir daqui a produtividade e bem-estar somente serão atingidos se conseguirmos unir a flexibilidade e o conforto dos modelos de trabalho atuais à segurança sanitária e saúde nos espaços corporativos.  A flexibilidade, caminho sem volta, pede que olhemos a situação sanitária e de qualidade ambiental com mais ênfase, pois todo espaço flexível, rotativo e colaborativo requer mais cuidados neste momento e no novo futuro. Rever questões como adensamento, ferramentas de higiene, práticas de uso e regras de compartilhamento de cada ambiente de um escritório é o que garantirá ambientes mais capacitados para atender as novas demandas mundiais”, conclui.

Paralelamente, cabe também ao arquiteto avaliar como a cultura da empresa se encontra com os novos valores estabelecidos para a implementação de um ambiente flexível por meio do branding aplicado à arquitetura. Para Bruna, o profissional da arquitetura corporativa é um dos principais elos na execução de tais mudanças. “Esses ajustes e implementações para as adequações dos espaços de trabalhos requerem o planejamento estratégico de times especialistas em workplace, que pensem nas soluções de layout e design além da estética de tendências, mas com olhar crítico acerca do comportamento e das necessidades fundamentais humanas.

“Em nossos projetos, contemplamos todo o planejamento e treinamento de líderes e colaboradores para uso dos novos espaços, e nos unimos desde o início conceitual do design com os times de RH e saúde dos clientes, pois se trata de uma mudança física que deve ser sustentada pela cultura da organização. É importante compreender que cada companhia possui seu perfil, tendo diferentes valores e costumes. Portanto, não existe uma fórmula mágica”, afirma Bruna, acrescentando que “muito se especula a respeito do futuro dos escritórios, mas a realidade é que enfrentamos hoje uma grande transição e mudança comportamental, que guiarão os modelos físicos dos espaços a partir daqui, e agora em intensidade e velocidade inéditos. Mais do que nunca, o setor da arquitetura, sobretudo da arquitetura corporativa, precisa estar atento ao que consideramos como um modelo corporativo sólido e sustentável, adequado ao ‘novo normal’, que hoje demanda uma atenção vital aos cuidados com higiene e, certamente, surpreenderá com mais demandas e adaptações, a cada novo ciclo”.

 

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