Texto não Enviado: coluna de literatura por Julie Fank

Carta não enviada [versão 2]

Quase apertamos a tecla enter algumas vezes nos últimos meses. Hesitamos. O universo brincou de jogo da memória comigo.

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Eu fui e voltei o cursor do mouse algumas vezes enquanto apertava o teclado letra por letra e decidia se este texto seria mesmo enviado. Nunca vou saber se terei tido coragem.

Como minhas mãos ao escrever este texto não enviado, fomos e voltamos. Quase apertamos a tecla enter algumas vezes nos últimos meses. Hesitamos. O universo brincou de jogo da memória comigo.

Eu era apenas uma carta embaralhada virada e desbotada esperando encontrar um par. Aconteceu. Espelho recém-desvirado como se nos reconhecêssemos. Intenso e estranhamente familiar. Virou nosso furacão predileto. Achávamos graça em saber quanto fomos passionais, uma vez a cada três horas.

Quase nos adaptamos ao que queriam de nós, achando que era o que queríamos de nós. Desencontramos sonhos, dormindo e acordados. Eu sempre soube. Guardei quietinha a senha com todos os apartamentos que nunca iria comprar num site de imóveis que me deu a opção “favoritos”.

Mal sabia o algoritmo que minha casa favorita, meu lugar no mundo, nunca seria residencial.

Eu até gostava da bagunça toda nossa, incrivelmente metódica e melódica, exceto pelo fato que me rendi ao bege, aos móveis planejados e às paredes em branco. Pelas manhãs, silêncio.

Logo eu e todas as minhas fichas de arquivo, gravuras e colagens espalhadas neste novo apartamento com as paredes da cor que eu quero, Elis Regina de companhia no café alternando com playlists que ganhei de presente.

Eu sentei às voltas da sala de casa, entre tapetes, tecidos e violões para ouvir vinho e beber poesia. Quase não me reconheci.

Também não me reconheceu o gerente do banco a última vez que eu fui lá, logo depois que voltei de férias, também não me reconheceram as pessoas que querem saber onde estava aquela eu – solar e à vista –, também não me reconheceram os degraus que me levaram ao seu apartamento quando estive aí só porque não fui capaz de lidar com seu silêncio.

Eu lembro da última vez que cantei uma música inteira aí no que chamávamos de nossa casa: foi há pelo menos quatro estações. Uma música inteira, voz e voz, seu violão e a gente.

E eu quase não me reconheci, de novo, cantando e anunciando aos quatro ventos um exagero de carinho bêbado por amigos, aquele amor de quem reconhece o presente, mesmo sem ter se reconhecido poucos meses antes.

Era eu mesma. A mesma de dois ou cinco anos atrás, nunca tão viva, nunca tão solar, mesmo numa noite chuvosa, a lua crescente e todo mundo descalço.

Sem a angústia do silêncio ou o peso das horas e dos tempos incompatíveis, sem o não-saber, sem um texto não enviado que não foi notado, sem as dedicatórias que nunca mais serão feitas, sem as viagens que sonhei sozinha, sem as conversas que ficam sem respostas, sem o que não vai ser dito.

Só a liberdade pôde me fazer ver o mundo sob um prisma sem os filtros das convenções e da dor. E só a música que sai da nossa garganta sem que a gente planeje nos coloca a passos mais rápidos em direção a nós mesmos. No meio disso tudo, a escrita liga os pontos.

Em nosso relacionamento, sabemos, liberdade e amor não coexistiram por muito tempo. Até que a liberdade ali do meu lado apareceu me convocando a existir. Existência não pode ter prefixo. Só a infelicidade, Guimarães Rosa dizia, é uma questão de prefixo.

E isso já está soando tão repetitivo quanto os passarinhos que preparam o concerto para daqui a pouco.

É madrugada aqui dentro. Sem promessas, sem prazos para dar certo. Sem a gente. No meu próprio silêncio, mas tão cheia de palavras e pessoas por perto, eu existo de novo.

Me desculpe, você vai entender, precisei colocar a máscara de oxigênio. Reaprender a respirar, me virar, sozinha, pra cima e ser carta de tarô – sempre fui péssima com jogo de memória.

Sabe como funciona o jogo? O louco, eu mesma – a louca que precisou de terapia e cuidou de si, no melhor estilo Sophie Calle –, vira mundo. E o trajeto é uma vida inteira. Uma vida tão bonita que eu seria irresponsável se não a vivesse plenamente, carta a carta. Sem ordem e sem par.

*Texto originalmente publicado na edição 221 da revista TOPVIEW. 

Julie Fank (@juliefank) é escritora, professora e fundadora da Esc. Escola de Escrita. juliefank@gmail.com

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