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Sustentabilidade e soluções ecoeficientes

Confira a terceira e última parte da matéria principal "Os possíveis caminhos da construção", na edição #238 da revista TOPVIEW

Já que as nações precisarão investir na indústria para aquecer a economia, por que não dar preferência às tecnologias verdes? Esse é o questionamento do artigo How to Grow Green, publicado na revista Bloomberg, em que são elencadas 26 maneiras de alavancar um futuro com energia limpa após nos recuperarmos da pandemia.

Para José Marques Filho, professor doutor do departamento de Construção Civil da UFPR, esse é o momento perfeito para dar passos importantes na consolidação da sustentabilidade. “Já que a gente tem que desenvolver a economia, que a gente desenvolva para encontrar soluções pensando nas gerações futuras. Nós já perdemos duas oportunidades grandes de fazer isso: a Copa do Mundo e as Olimpíadas. O governo poderia ter feito um trabalho maior nessa questão, em termos até de marketing”, analisa.

Em termos acadêmicos, o Brasil é destaque na pesquisa sobre sustentabilidade. Então o que falta para aplicar os conceitos na indústria? “Temos que criar uma cultura de sustentabilidade. Formar bem nossos engenheiros, arquitetos e afins. Temos que ter pessoas com essa visão holística, pensando no ciclo de vida da construção, desde o projeto até o final da vida útil. Há muitas soluções simples que poderiam ser usadas e as pessoas não usam por desconhecimento”, resume o professor.

A visão da obra deve abranger todos os detalhes para que as emissões de gases de efeito estufa possam ser diminuídas em cada etapa. “Uma construção tem como único objetivo a melhoria da vida das pessoas, então, que este material, esta obra, esta edificação tenham menor impacto ambiental, sejam o mais econômicos possíveis – para não penalizar a sociedade – e tragam benefícios para todos do entorno”, afirma.

Outro desafio é a ideia de que soluções sustentáveis aumentarão o custo da obra. “Hoje, no país, a gente ouve muita coisa de achismo. Nós não temos que ‘achar’, temos que fazer o que é tecnicamente e eticamente correto e que está dentro dos valores comuns de todos os seres humanos. Sustentabilidade representa o aumento de consciência e de capacitação técnica”, conclui Filho.

O aeroporto de Singapura, frequentemente elencado como o melhor do mundo, abriga uma floresta e a maior cachoeira interna do planeta. (Foto: Unsplash)

A pegada de carbono da indústria
A emissão global de dióxido de carbono por meio de combustíveis fósseis atingiu um novo recorde em 2019, segundo um novo relatório do Global Carbon Project. Os gases de efeito estufa, entre eles o gás carbônico, mantêm a atmosfera aquecida, que, por consequência, causa mudanças climáticas. 

A maior fonte de emissões de gases de efeito estufa é o consumo de energia, responsável por 73% do total global, de acordo com dados do Climate Watch. O setor de energia engloba eletricidade, transporte, edifícios, fabricação e construção, entre outros. Apenas o setor de construção responde por 39% dessas emissões.

De 1990 a 2016, a fabricação e a construção foi um dos três setores que mais cresceram no que diz respeito a emissões desses gases, com aumento de 55%. No setor de energia, a área responde por 12% do total de emissões. Entre as atividades, os edifícios residenciais correspondem a 10,9% do total e os edifícios comerciais, 6,6% – incluídas as emissões diretas e indiretas. Todos os dados são do Climate Watch.

Os números, por si só, são preocupantes, mas a situação piora ao se colocar na conta as demandas futuras: as construções tendem a crescer cada vez mais, para dar conta do crescimento populacional. Um relatório da ONU Meio Ambiente de 2017 aponta que, ao longo dos próximos 40 anos, teremos mais 230 bilhões de metros quadrados de área construída no planeta. Para conseguir dimensionar essa extensão, é como se, todos os anos, uma área equivalente ao Japão fosse construída. Ou uma nova Paris por semana.

O segmento da construção precisará melhorar em 30% sua eficiência energética até 2030 para atingir as metas do Acordo de Paris. (Foto: Unsplash)

A ONU mostra, também, que o segmento de construção precisará promover uma melhora de 30% em sua eficiência energética até 2030 para que o planeta possa atingir as metas do Acordo de Paris. “Nunca vai existir um prédio totalmente sustentável, mas o papel da arquitetura é perceber onde podemos diminuir o impacto ambiental e a pegada de carbono”, pondera Patrícia Brenner, arquiteta mestre em arquitetura sustentável e especialista em gestão urbana.

“A arquitetura sustentável começa em pensar desde o terreno, a posição da casa, a análise dos ventos em cada
estação para otimizar a circulação de ar até os elementos naturais, como a luz. É pensar nos materiais e na questão dos resíduos, em buscar o uso consciente da água e a eficiência energética… tudo o que vai beneficiar a saúde e ter menor impacto ambiental”, exemplifica Brenner.

O Brasil conta com a vantagem de ser um grande fornecedor de madeira, o que deixa resíduos pouco agressivos à natureza. “Temos que desmistificar esse material. Às vezes, fica-se com aquela ideia de casa de fazenda, com cheiro forte, mas envolvendo tecnologia e novos processos de tratamento, torna-se outra madeira”, defende a arquiteta.

(Foto: Shutterstock)

O cimento, na contramão, é um dos maiores emissores: fonte de cerca de 8% das emissões globais de
CO₂, de acordo com o instituto de pesquisa Chatham House. A título de comparação, caso o setor de cimento fosse um país, estaria na terceira posição entre os emissores. Brenner aponta o sistema construtivo steel frame como uma alternativa mais sustentável.

Outras estratégias incluem pensar projetos arquitetônicos com estruturas de múltiplas funções, para evitar os gastos com reformas, além de incentivos governamentais. “Sustentabilidade requer um grau muito grande de inovação. O trabalho da comunidade acadêmica em parceria com a indústria tem mostrado bons caminhos. E também é necessário incentivo em termos governamentais, regulamentos e até diminuição de impostos para as obras sustentáveis”, indica Filho.

“(…) o papel da arquitetura é perceber onde podemos diminuir o impacto ambiental e a pegada de carbono.” – Patrícia Brenner

*Matéria originalmente publicada na edição #238 da revista TOPVIEW.

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