Seres invisíveis

Seres invisíveis

Crônica de Julie Fank sobre a infância, publicada na edição de julho de 2017 da revista TOPVIEW

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Foto: VisualHunt

Marco Polo, interrogado por Kublai Khan a respeito dos minisseres que habitavam a cidade de Infância, hesitou. Não queria admitir que já havia sido um deles, mas tinha dúvidas de que um imperador o pudesse ter sido. Foi a primeira vez que Kublai quis saber mais dos habitantes do que das possíveis extensões do reino. Do que eles são feitos?

Ainda não são feitos de passado e detêm histórias por terminar. São especialistas em começos e a ampulheta é um brinquedo que manuseiam sem responsabilidade. Mesmo sabendo que essa palavra existe mais que se pensa. Lidam com o tempo como se cata-vento. E nunca é possível saber se você já esteve lá ou algum dia será capaz de produzir um desses seres. É tudo memória e pantomima.

Os narizes de uma criança são capazes de fabricar cheiros que ninguém inventou ainda. Seus sonhos são de giz de cera. Os olhos também contêm uma lente organizada pelo afeto com uma bússola que aponta sempre para a sua cor predileta. Azul, normalmente. Os ouvidos são capazes de desouvir voluntariamente. E as mãos e os pés tateiam o próprio tato sem se saber. As mãos que plantam bananeiras e fazem estrelinhas e os pés que correm e fogem da pressa são os mesmos que não têm medo do chão, nem como ponto de partida, nem como ponto de chegada. De vez em quando, moram em formigas e, tamanha a amorosidade do tratamento, saem sem picadas. Também não sabem decantar segredos, mas têm a habilidade de transformá-los em provocações.

É inútil tentar dissuadi-los de brincar, seu passatempo predileto. São incapturáveis quando estão criando mundos sem merthiolate. Não se sabe se já aprenderam a voar, mas entre hematomas e nuvens, seguem tentando. Dividem as pessoas entre as que têm medo da chuva e as que não deixam de atravessar as pontes porque perderam o guarda-chuva mais uma vez. Ninguém esquecia os sonhos nessa cidade. E seus habitantes faziam questão de os contar com detalhes. São capazes de virar tapetes, pães, escadas, carros e qualquer animal da ordem da imaginação e em pouco tempo se recompor.

Aqui, não há paredes, não há meu/seu, não há mães, pais e diferenças entre quem gosta de azul e quem gosta de rosa. Há diferentes cores da pele. Mas não há diferenças entre cores da pele. Descobriu-se recentemente que seus olhos não reconhecem a hierarquia de cores plantada pelos adultos não muito longe dali. Por isso, cada adulto-viajante que chega à cidade recebe um par de pálpebras invisíveis que desfazem esses sentimentos de trás pra frente até você se sentir criança novamente. E é só assim que somos capazes de acreditar que já carregamos essa ingenuidade dentro da gente. Se dissessem, nem eu mesmo acreditaria.

Existe uma contínua vibração em Infância à qual ninguém passa ileso. Nada existe e nem acontece ali sem que os olhos com a lente do afeto se pronunciem – mas nem ouvidos, nem narizes, nem bocas, nem mãos têm menos votos que os olhos, todos os sentidos testemunhas sensíveis de uma vida com regras para o fantástico. Tudo é possível em Infância e é possível criar condições para o que não seja ser. E, a despeito dos narradores em terceira pessoa, o que comanda seus habitantes não é a voz, é o ouvido. Penso que, mesmo que eu não queira, se recomeçar o trajeto, acabarei aqui.

Julie Fank (@juliefank) é escritora, professora e fundadora da Esc. Escola de Escrita. juliefank@gmail.com

*Crônica publicada originalmente na edição 201 da revista TOPVIEW.

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