As palavras em tempos de redes sociais

O texto prêt-à-porter

As palavras seguem desempregadas, procurando bicos em pronunciamentos imediatos no Twitter e aceitando qualquer emprego lexical.

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Nas janelas transparentes do Instagram, na vida íntima do WhatsApp ou no nosso inventário facebookiano, a demanda é sempre a mesma: que palavra usar hoje? Escrever nunca foi sobre etiqueta, mas a moda agora é escrever pelado. Assim, sem o sutiã estruturado a ferro que aperta nosso peito linguístico. Entre as maiúsculas imponentes de uma tecla caps lock ativada ou um TOP invencível vestido de arial black nos jantares de executivos, podemos usar qualquer coisa: memes, figurinhas de nós mesmos e emojis, nossos hieróglifos pós-modernos.

As palavras seguem desempregadas, procurando bicos em pronunciamentos imediatos no Twitter e aceitando qualquer emprego lexical. Não à toa, a palavra “verdade” visitou o psiquiatra semana passada com queixas de vazio existencial. Disse que tem aceitado até prefixos: nunca me imaginei usando boné, doutor, e sempre me orgulhei de ser uma das únicas palavras que não usa maquiagem – exceto em biografias e olhe lá.

Na agenda, a próxima visita era da palavra “eu”, exaurida, próxima de um burnout, um caco. Reclamou de sua pasteurização. Antes, alta-costura, agora, fast-fashion. Em cada arara, qualquer um pode escolher um eu de malha, um eu de linho, um eu jeans pra vestir hoje e descartar amanhã. Nunca fui tão outro, doutor, me orgulhava de poder ser uma das únicas que diziam tão pouco em duas peças.

As palavras, sempre tão atrizes, têm estado cansadas desses papéis para ontem. Não dá nem tempo de ensaiar e já são requisitadas de novo. Não deveriam reclamar, nunca foram tão necessárias. Fomos reduzidas a contrarregras, estamos maltrapilhas, rasgadas. Por dentro e por fora. Nosso lugar era o palco. Cadê nosso figurino?

As vírgulas também protestam contra seu desuso, mas comemoram a liberdade que o Twitter lhes trouxe. Não somos purpurina para sermos espalhadas por aí, dizem seus cartazes. Os verbos, jeans obrigatórios, têm reclamado de falta de tempo. “O verbo precisa pegar delírio”, alertava Manoel de Barros.

Quando é preciso manter a sanidade, não podemos nos dar direito à loucura, argumentam. Não dá nem tempo de se montar. E lá vão eles de novo com a clássica camiseta branca, mesmo querendo vestir um arco-íris. Os pontos de exclamação pedem os dias de folga acumulados, enquanto algumas frases de autoajuda são carregadas à força direto para estúdios de tatuagem.

Os artigos se dizem confusos, mas admitem que têm preferido essa vida corrida e festiva à outra, cartesiana demais para uma língua tão subversiva. Assistem às reclamações as mesóclises sentadas do sofá de casa se sentindo imponentes de gola vitoriana: os textos, com a gente, sempre foram um brinco.

Texto não é sobre roupa, palavra não é acessório. É sobre corpo, sobre pele, sobre causar eletricidade com palavras fundamentais. Silviano Santiago nos lembra: “As palavras não estão em perigo, os corpos estão.” Não importa o que veste, o bom texto, mesmo descalço, continua impecável. E a salvo. Desde que não faça silêncio.

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