Jaime Lerner: o defensor das cidades

Jaime Lerner: o defensor das cidades

Uma entrevista exclusiva com Jaime Lerner, o arquiteto e urbanista que foi três vezes prefeito de Curitiba e duas vezes governador do Paraná

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Com um golpe de vento o Expresso passa ligeiro e abre espaço para que eu atravesse a canaleta que separa a igreja Bom Jesus, no Cabral, do escritório Jaime Lerner Arquitetos Associados, onde será conduzida a entrevista. Não vim de ônibus, mas de táxi. Cheguei a pensar que o mentor da revolução urbanística que projetou internacionalmente a cidade onde cresci – incluindo aquela canaleta com seus tubos de acrílico – não ficaria feliz com meus motivos.   É que meu escritório e o dele ficam separados por apenas 2,5 quilômetros, mas para ir de ônibus eu teria que tomar dois deles após caminhar um quilômetro até o ponto. Não fui de carro porque evito o trânsito intenso que dominou Curitiba nos últimos anos. Nem de bicicleta porque acho que Curitiba não é uma cidade amiga dos ciclistas. Normalmente eu iria a pé, mas a correria do dia a dia quase não deixa mais tempo para isso.

A falta de placa no portão do escritório me parece artifício para afastar o assédio que deve acompanhar quem foi três vezes prefeito de Curitiba e duas vezes governador do Paraná.  Entro disposta a perguntar a esse senhor tantas vezes apontado como o pai da cidade sustentável o que, afinal, aconteceu com a “Curitiba modelo” onde cresci. Jaime – como ele prefere ser chamado – chegou 15 minutos depois usando seu habitual conjunto de calça, camisa e blazer pretos.

O arquiteto, que foi criança na Barão do Rio Branco quando o Shopping Estação ainda era uma ferroviária no fim da rua, mora hoje, aos 75 anos, em um prédio ali em frente mesmo, obedecendo ao princípio que sempre defendeu: moradia, trabalho, diversão e todo o resto, um perto do outro. A ideia é simbolizada pela tartaruga, sua logomarca. “Minha imagem de qualidade de vida numa metrópole é a tartaruga. Ela tem a casa, o trabalho e o movimento juntos, no mesmo espaço”, explica. “Se você cortar o casco da tartaruga, vai matá-la. É exatamente isso que estamos fazendo com nossas cidades: morar num bairro, trabalhar em outro e buscar o lazer num terceiro. Gasta-se energia demais.”

Ele não simpatiza com condomínios fechados e centros comerciais afastados. Aliás, o terreno onde está seu escritório foi, por 40 anos, o lar onde viveu com a falecida esposa Fani e as filhas. Ali, naquele quintal verde rodeado de edifícios, construíram a casa já quando Fani lecionava em escola pública primária e Jaime iniciava sua carreira.

Inovação e sensibilidade

Aproveito que ele toca no assunto e pergunto por que o conceito da tartaruga não tem representado minha vida em Curitiba ultimamente – nem a vida da Luci, a moça que trabalha lá em casa e mora na região metropolitana. Quer dizer, pensando por outro lado, tem representado, sim, sob o ponto de vista da lentidão do trânsito. Eu não consigo ir aos pontos mais importantes da cidade de bicicleta. Só aos domingos, quando pego a ciclovia para passeio. E ainda acuso de sumiço a Família Folhas, que me ensinou o que é reciclagem, mas desapareceu deixando as crianças de hoje sem saber o grande significado do jingle “Lixo que não é lixo não vai pro lixo.” Será que o sonho do urbanista Jaime Lerner, nominado em 2010 pela revista Time como um dos 25 pensadores mais influentes do planeta, se perdeu?

“A inovação e a sensibilidade deixaram de existir em Curitiba. Ela foi vanguarda em muitas coisas, deu exemplos, foi copiada no mundo”, lamenta. “Antes todos queriam ser Curitiba, hoje é ela que está copiando coisas dos outros, como essa ponte estaiada”, alfineta e acrescenta desanimado que junto com isso veio a tal “religião do automóvel.” Fala que essa visão centrada no carro traz prejuízo a Curitiba e não leva a lugar nenhum.

Mobilidade, sempre

Jaime é um fã das cidades e seu assunto preferido é a mobilidade dentro delas. Ele sempre fala a mesma coisa: que a chave consiste em não ter meios de transporte competindo no mesmo espaço, que é preciso integrar um meio ao outro e dar condições para que o cidadão queira usar o transporte público. E em várias ocasiões ele já disse: “Falo sempre a mesma coisa porque é sempre a mesma coisa.” Assim ele insiste que cidades, sejam elas a Curitiba de 2 milhões de habitantes ou a São Paulo de 20 milhões, ainda podem vencer seus problemas de transporte.

Ele lembra que a mobilidade urbana só tem que enfrentar a burocracia, pode evoluir mesmo com poucos recursos e precisa do apoio do cidadão. “Eu acho que os paulistanos gostam de falar que a cidade deles não tem jeito. Nova York mudou. Não chegou definitivamente lá, mas seus cidadãos têm a sensibilidade de querer o bem da cidade.” Sim, ele acha que tudo é possível. E isso muito antes de Barack Obama dizer “Yes, we can.” Quando foi preciso montar o Sistema Integrado de Transporte Coletivo, mas não havia dinheiro, fez a iniciativa privada comprar a frota e a administração pública pagar por quilômetro rodado… Quando foi preciso dar uma opção para que os moradores das favelas não jogassem o lixo em vales e terrenos perto de suas casas, criou um programa que trocava lixo por vale-transporte e cestas básicas – assim, as crianças já não tinham que brincar em áreas tomadas por tanta sujeira.

Carro, o cigarro do futuro

“Dói quando vejo um ônibus expresso parado esperando o trânsito passar.” E ele presencia essa cena com frequência, afinal mora ao lado de uma canaleta e sempre anda por aí esbarrando e cumprimentando velhos amigos – e também fãs. A frustração é compreensível. Jaime Lerner inventou as canaletas exclusivas de ônibus para funcionarem quase como um metrô. “Metronizar os ônibus”, ele sempre diz. O modelo, que foi copiado em cerca de 80 cidades no mundo todo e se tornou referência internacional, está competindo com carros demais nos cruzamentos e tem sido alvo de críticas tanto de usuários como de urbanistas.

No canto do escritório observo a miniatura do Dock Dock, o carrinho elétrico idealizado por ele para ser alugado em terminais de transporte coletivo e percorrer pequenas distâncias. Sua inspiração vem do sistema de bicicletas públicas, como as de Paris, por exemplo. A ideia é que os veículos funcionem como complemento do sistema de transporte coletivo, possibilitando deslocamento mais rápido do que o permitido pela caminhada e mais confortável do que sobre uma bicicleta. Pergunto se isso daria certo no Brasil sem que haja depredação ou simplesmente que as pessoas torçam o nariz. “Dá certo, sim. Só que temos que mostrar que dá.”

Jaime acredita no conceito do transporte público individual. “Carro é de passeio. No itinerário de rotina temos que contar com o transporte público.” Crê numa conscientização e respeito pela coletividade que ainda está por vir. “O carro é o cigarro do futuro”, diz ele referindo-se ao hábito que vem sendo desmoralizado e caindo em desuso.

Desgosto e esperança

Apesar do leve desgosto com as falhas da cidade, Jaime acredita que a inovação em Curitiba será retomada e deposita esperanças no Ippuc, cuja nova equipe vem anunciando a intenção de uma administração mais humanizada. “Mas a prefeitura tem que querer”. Aliás, essa é a linha limite de Jaime para comentar política. Tomou sua despedida da política como definitiva e hoje só faz o que gosta. Polêmicas como as surgidas durante seus mandatos – e retomadas atualmente, como os contratos com as concessionárias de rodovias – não ganham espaço neste bate-papo e, no entanto, ele não demonstra mágoas nem toca em nomes de desafetos. “A vida na política aconteceu, foi profissão. Hoje só faço o que gosto.” E coloca ponto final.  Hoje ele viaja o mundo fazendo sua “acupuntura urbana”, nome que dá para intervenções em pequena escala para a melhoria nas cidades.

Cultura e pedreira

A Pedreira vazia não servindo a espetáculos é outra pontada no peito de Jaime. O fã de Millôr Fernandes, Chico Caruso, Ziraldo – e Niemeyer, é claro – acredita que área cultural em uma cidade tem que ser valorizada. “Quem tem a cultura, percebe a sociedade antes, tem visão, vai além. Ver a Pedreira vazia dói. Ver os equipamentos culturais não utilizados dói. Antes as pessoas brigavam para ter espaço para se apresentar no Paiol.”

Antes de me despedir, lembro que como prefeito em 1972, Jaime encabeçou o calçamento da Rua XV de Novembro proibindo a circulação de automóveis, uma medida que, inicialmente, desagradou à maioria dos comerciantes da região. Há anos quero saber se aquilo de colocar grandes rolos de papel com tinta guache e atrair a criançada – entre elas, eu – para pintar era mesmo uma estratégia para evitar manifestações com veículos vindas de quem era contra o calçadão. Semblante maroto e poucos segundos depois, ele diz: “Sim. No final das contas, foi uma ótima ideia!”, relembra. “Os adultos precisavam retomar esse momento. Acho que as crianças deveriam levá-los lá para conviver e recordar.” O defensor da vida nas cidades não quer que desistamos delas.

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