Decálogo de quem não conseguiu escrever uma crônica

Decálogo de quem não conseguiu escrever uma crônica muito menos uma lista

Crônica de Julie Fank publicada originalmente na edição 212 da revista TOPVIEW

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  1. A idade pode ser um banho de água gelada. Mas também pode ser enciclopédica. E nem precisa ser regada a autoajuda e outros arrependimentos. É só saber exatamente o que se avizinha antes de se preocupar com a quantidade de velas no bolo. Falo isso tomando um chazinho de maçã e gengibre porque fiquei sem voz de novo. Comer mais maçã, anoto mentalmente.
  2. Esses dias recebi uma carta. Fiquei com vontade de responder a carta, porque um dia a gente já usou ampulhetas, mas ainda não tive tempo. Não sei nada sobre administração do tempo. Mandar mais cartas, escrevo como terceiro item. Como ter mais tempo, digito no google.
  3. Papéis, livros e rascunhos. Aquela pilha me espreita sem vergonha na cara quase como se me desafiassem a ser tão organizada com isso quanto sou com… não, não sou muito organizada com nada, acho. Aceita que dói menos. Dar ordem aos papéis que sobraram, organizar finalmente os livros, catalogar a biblioteca, metas prioritárias.
  4. Uma vez me disseram que a gente é de onde a gente vem por último. Vez ou outra economizo o verbo e falo que sou de Curitiba, cidade-origem da ponte aérea, rodoviária ou afetiva, que faz a gente chegar nesse assunto. A gente nunca tem tempo. De parar e olhar o caminho que a gente fez para chegar até aqui. Ser de onde estou, mais uma nota.
  5. Os ruídos da praça de alimentação me incomodam. Poderia fazer minha comida em casa, ter a geladeira sempre organizada, louças em dia e viver em paz com a balança, ter uma horta e um lixo bem bonitinho todo trabalhado na compostagem. Seguir o silêncio, idealizo. Aprender a cozinhar, priorizo.
  6. Organizo a estante e lá está a minha coleção de guias de viagem intacta. Egito, Cuba e Marrocos, só um manuseado exaustivamente. Abro um site de passagens aéreas e começo a cruzar com o meu calendário. Viajar mais, repito, como um mantra.
  7. Fui a um sebo comprar uma enciclopédia para uma instalação que estou planejando. Pedi ao atendente as letras M e C pra conferir se elas estavam em bom estado. Ele ficou me olhando com aquela cara de brócolis e continuou intacto, esperando um comando de ação mais claro até me confessar que nunca tinha aberto uma enciclopédia na vida. Preservar a memória das coisas, mas não ser uma acumuladora, checked.
  8. O mundo parece tão seguro atrás de planilhas, listas e cartomantes. Nós, seres humanos, curtimos uma certeza. Exceto pelo fato de que shit happens e normalmente para acabar com um planejamento que durou meses. Começar a planejar 2019, mas nem tanto. Planejar o próximo mês, finalizo. Saber que, em algum momento, Murphy aparece.
  9. Vou ao armário para escolher a roupa do dia e tento entender porque ainda preservo aquele bolero trazido de um brechó em Buenos Aires e um vestido comprado num brechó do centro que ainda não passou pela faca da costureira. Levar roupas na costureira, fazer aquela limpa no armário, metas para quando sobrar tempo. Procuro armário-cápsula no google.
  10. Escrever, por mais que seja meu ofício, ainda não entrou completamente na rotina. Separo as manhãs pra isso, mas separo também para organizar a casa, ir ao banco, lavar a roupa, ir ao sapateiro e dar um jeito em tudo o que ficou pra trás. Escrever mais, claro.

Ter um filho, plantar uma árvore, escrever um livro (pelo menos um na lista). E tirar um ano sabático. São quatro naipes de um mesmo baralho, mas ainda não aprendemos a jogar paciência spider nível difícil. Se eu priorizar aquela coluna quase completa de copas, possivelmente eu tranque a sequência de ouros que era a próxima da fila. Jogar menos paciência spider, pra ontem. Assim quem sabe eu consiga colocar em prática o resto da lista e entregar a próxima crônica no prazo. Ou não.

*Crônica publicada originalmente na edição 212 da revista TOPVIEW. 

Julie Fank (@juliefank) é escritora, professora e fundadora da Esc. Escola de Escrita. juliefank@gmail.com

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