A Europa fica ao lado: conheça (e desbrave!) as colônias do Paraná

A Europa fica ao lado: conheça (e desbrave!) Carambeí, Castrolanda e Witmarsum

O verão chegou, as férias também. Que tal seguir na direção contrária às praias e conhecer as riquezas das colônias de imigrantes no Estado?

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Eles falam, além do português, alemão, holandês e um dialeto chamado de plattdeutsch. Parecem viver em outro país, mas não estão muito longe de Curitiba. As colônias de Carambeí e Castrolanda (de imigrantes holandeses), e de Witmarsum (de menonitas germano-russos) recebem visitantes para mostrar sua cultura, história e gastronomia e para transportá-los pelo tempo e por outros países. As duas primeiras ficam a cerca de 150 quilômetros de Curitiba, enquanto Witmarsum a pouco mais de 60 quilômetros. Visitá-las durante o fim de semana, ou mesmo num bate e volta, é um superprograma para essa época do ano.

CASTROLANDA

Um gigante moinho dá as boas-vindas a quem adentra esse bucólico mundo chamado Castrolanda, colônia holandesa onde vivem 3 mil pessoas espalhadas em casas com jardins impecáveis e belas propriedades rurais.  Fica a sete quilômetros do centro de Castro, antigo reduto tropeiro nos Campos Gerais, e a 160 quilômetros de Curitiba.

Entre 1951 e 1954, quando a Europa ainda sofria com os traumas da Segunda Guerra Mundial, 50 famílias holandesas buscaram vida nova no Brasil atraídas pelo sucesso da colônia de Carambeí, instalada no Paraná anos antes. Entraram no navio rumo ao Brasil trazendo juntos tratores, equipamentos agrícolas e mil cabeças de gado holandês! Criaram a próspera colônia e cooperativa agropecuária que hoje é um dos mais importantes produtores de grãos, leite e derivados do Brasil.

Luiz Costa
Tamancos são usados na Holanda há séculos por fazendeiros e outros trabalhadores. Foto: Luiz Costa

Na pitoresca área central estão a sede da cooperativa, os bancos, a escola e a igreja (onde se fala holandês) e algumas casas de moradores – tudo à sombra do grande moinho. Também chamado de Memorial da Imigração Holandesa, tem 39 metros de altura, é feito em madeira, sem uso de pregos, e ainda funciona moendo grãos. Abriga uma exposição que conta a saga dos colonos até o desenvolvimento da cooperativa.

Luiz Costa
No museu, uma anfitriã da colônia apresenta a vida dos pioneiros. Foto: Luiz Costa

Anexo, há o pub Caffe de Molen e uma lojinha com produtos made in Castrolanda – incluindo os tamanquinhos holandeses. Ali perto, a vida dos imigrantes é retratada no Museu do Imigrante Holandês. É uma réplica de moradia dos pioneiros com móveis e utensílios trazidos da Holanda.

Acolhida holandesa

Café da manhã típico holandês com waffles feitos na hora, jacuzzi coberta com vista para o moinho, decoração impecável em laranja (a cor da Holanda) e branco… Willemien Strijker, a filha de holandeses que transformou a antiga casa da família na Pousada Oosterhuis, recebe os visitantes com tanto carinho que já ganhou até apelido: We, simplesmente. Além de organizar passeios pelos Campos Gerais, We aluga triciclos e bicicletas para percorrer esse pedaço holandês no Brasil.

COMO CHEGAR
De Curitiba até Ponta Grossa pela BR‑376 e depois pela PR-151 até a cidade de Castro.

ONDE IR
Moinho: De sex. a dom. e feriados, das 14h às 18h | (42) 3234-1231 | www.moinhocastrolanda.com.br

Pousada Oosterhuis: Rua das Flores, 127 | (42) 3234‑1566 | www.oosterhuisturismo.com.br | A partir de R$ 150 em quarto duplo com café da manhã (preço pesquisado em dezembro/2013).

A vila histórica mostra o dia a dia dos imigrantes pioneiros no início do século. Foto: Luiz Costa
A vila histórica mostra o dia a dia dos imigrantes pioneiros no início do século. Foto: Luiz Costa

CARAMBEÍ

A linha férrea da Brazil Railway Company começava a cortar a região entre Castro e Ponta Grossa e um loteamento era aberto na localidade de Carambeí num ambicioso plano de colonização para a área. O ano era 1911. Os irmãos Leonardo Verschoor e Jan Vriesman farejaram ali uma oportunidade que não tiveram quando, em 1905, o governo brasileiro os convenceu a deixar a Holanda e seguir um primeiro plano de colonização que se revelaria desastroso.

A ferrovia e o loteamento em Carambeí eram uma segunda chance e os irmãos neerlandeses a agarraram. Convencidos da viabilidade da colônia dessa vez, Verschoor e Vriesman chamaram novos desbravadores diretamente da Holanda – as famílias Voorsluys, De Geus, Harms e Los. Cem anos depois, o laranja da bandeira holandesa, o falatório com sotaque, a gastronomia e até a organização geral urbana revelam outra pátria inserida em solo tupiniquim.

Luiz Costa
As tortas de Carambeí são famosas e ganharam até festival próprio. Foto: Luiz Costa

Sustentados em Educação, Religião e Cooperativismo, os imigrantes dos Países Baixos construíram ali uma cidade de 17 mil habitantes baseada na pecuária leiteira e fundaram a primeira cooperativa do país, a famosa Batavo. A história toda é contada no Parque Histórico Carambeí, na Casa da Memória, e até mesmo nas koffehuis (casas de café, na tradução do holandês), que dão água na boca com suas saborosas tortas doces herdadas dos caderninhos de receita das famílias holandesas.

Outro tempo, outro país

A visita ao Parque Histórico começa na Casa da Memória – se resistir e não parar antes na koffehuis que fica ao lado para devorar tortas. Instalada no antigo curral da família de Geus, o lugar tem expostos: mobília, utensílios e réplicas de imóveis da época da imigração. A maquete gigante e as fotos antigas completam a aula de história. Após cruzar uma curiosa ponte levadiça – doada pelo governo holandês e que passa sobre um canal, como os de Amsterdã – o cenário se transforma mais uma vez.

Em uma pequena área envolta por um horizonte de terras a perder de vista, a vila histórica simula os primeiros anos de Carambeí. Imóveis da época – igreja, escola, casa dos pioneiros, estábulo e leiteria – foram todos reproduzidos ali.

Depois da visita, se a fome bater e for fim de semana, a koffehuis do parque serve uma farta mesa de almoço com toque holandês de purês de maçã, batata e chucrute; carnes ensopadas com molhos variados; maionese de beterraba e até frango ao curry – herança dos imigrantes vindos das ilhas holandesas da Indonésia.

COMO CHEGAR
De Curitiba até Ponta Grossa, pela BR–376 e depois pela PR-151 até a cidade de Carambeí.

ONDE IR
Parque Histórico Carambeí: Av. dos Pioneiros, s/n | (42) 3231-5876 | www.aphc.com.br | De terça a domingo, das 11h às 18h | Ingresso R$ 10 (adultos).

Restaurante e cafeteria Koffehuis: entrada do Parque Histórico | (42) 3231-5876 | De terça a domingo, das 11h às 19h; sexta até 21h.

Hotel de Klomp: Av. dos Pioneiros, 1.306 | (42) 3231-1708 | www.hoteldeklomp.com.br | Diárias a partir de R$ 60 por pessoa, com café da manhã*.

Taman Batoe: Rua Jan Verschoor s/n / (42) 3231-1535 | www.tamanbatoe.com.br | Almoço: R$ 50 por pessoa, somente para grupos e com reserva*.

* Valores pesquisados em dezembro/2013

COLÔNIA MENONITA

Na paisagem dos Campos Gerais, a 60 quilômetros de Curitiba, está a Colônia Witmarsum, fundada em 1951 por imigrantes germano-russos e que hoje é formada por alguns dos mais importantes produtores de leite e queijos finos do Brasil.

A história desses colonos tem contornos complexos: são menonitas, um grupo étnico-religioso de ideologia pacifista vindo da Europa. Com origem secular no norte da Holanda e Alemanha, eles foram para a Rússia em 1788 a convite da imperatiz Catarina, a Grande – que implantara uma política de colonização onde hoje é a Ucrânia.

O Museu do Imigrante conta tudo sobre a colonização. Foto: Luiz Costa
O Museu do Imigrante conta tudo sobre a colonização. Foto: Luiz Costa

No século 20, fugindo do comunismo, espalharam-se pelo mundo. Os que vieram para Santa Catarina na década de 1930, mudaram-se depois para a região dos Campos Gerais dando início à formação da colônia. Quem se lembra dos isolados Amish, dos Estados Unidos? Os menonitas de Witmarsum são nossa versão desse povo, embora não vivam isolados da vida urbana e da tecnologia e nem usem roupas diferentes como os “primos” americanos.

Para bikers e gulosos

Em dia de sol, o passeio pelas estradas entre as propriedades rurais fica ainda mais cênico. Não é à toa que o lugar recebe tanta gente que vem pedalar pela área. Gulosos também têm seu lugar cativo. Café colonial, com delícias típicas como tortas e linguiças artesanais defumadas, é servido na confeitaria Kliwer, no café Sabores da Colônia e na simpática pousada Campos Gerais.

Luiz Costa
O passeio a cavalo é um superprograma de fim de semana. Foto: Luiz Costa

Os queijos finos de Witmarsum, além de embutidos defumados e outras delícias são vendidos em vários estabelecimentos e no supermercado da colônia. O restaurante Bauernhaus serve pratos alemães como Einsbein (joelho de porco), Kassler (bisteca de porco), chucrute… Tudo vindo do fogão à lenha.

Outra atração da colônia é o Museu Histórico. Heinz Philippsen, filho de imigrantes, recepciona os visitantes e não poupa palavras para explicar didaticamente a história de como surgiram os menonitas e como eles se espalharam pelo mundo. Ele mesmo nasceu em um dos aposentos do museu, instalado em uma antiga casa que já serviu de alojamento e hospital.

Quem também não economiza simpatia é Evelyn Janzen Hamm, uma jovem de sotaque forte que transformou a casa da família em pousada. Enquanto fala em alemão e no dialeto plattdeutsch com os filhos loirinhos que brincam no quintal, ela atende com vivacidade quem chega para se hospedar, passear a cavalo e de trator, visitar a fazenda leiteria, mergulhar nas águas claras do rio que passa pela propriedade e, claro, abocanhar as delícias de seu autêntico café colonial em uma sala repleta de fotos históricas da saga familiar.

GASTRONOMIA

Queijos para todos os gostos!

Luiz Costa
Os queijos especiais são o cartão de Witmarsum colônia afora. Foto: Luiz Costa


Um dia a soja encareceu as terras das redondezas e a colônia ficou sem espaço para crescer. A era Collor prejudicou financiamentos e a cooperativa Witmarsum quase faliu há 15 anos. Apoiando-se na qualidade de seu leite, convidou o mestre queijeiro suíço Josef Lotscher para um projeto de industrialização de queijos nobres que teve início em 2002. Foi o renascimento. Hoje, a Witmarsum fornece queijos a pontos de venda de alto padrão do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul.

Os queijos Witmarsum são os curados suíços Appenzeller, Emmental e Raclette; frescos como Minas Frescal e Ricota; semimoles como o italiano Asiago, os maturados por fungos, como os famosos franceses Camembert e Brie; e o Colonial. Um pedaço irresistível do Velho Mundo produzido ao lado de Curitiba.

COMO CHEGAR
Pela BR-376 entrada no km 549 ou pela BR-277 entrada no km 146.

ONDE IR
Museu Witmarsum: (42) 3254-1347 | sábados, domingos e feriados, aberto a partir das 14h. Durante a semana com agendamento.

Confeitaria Kliewer: (42) 3254‑1278 | Terça a domingo das 8h às 18h.

Restaurante Bauernhaus: (41) 3254-1112 | Sábado, domingo e feriados das 11h30 às 14h30. R$ 30 por pessoa*.

Pousada Campos Gerais: (42) 3254-1508 | www.pousadacamposgerais.com.br | A partir de R$ 225 para o casal, com café da manhã e passeios de trator, cavalgada e visita à fazenda de leite. Day use por R$ 50*.

* Preços pesquisados em dezembro/2013.

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