ESTILO

Banda Tuyo aborda ciclo de tentar e fracassar no segundo volume de novo álbum

Em oito canções, o trio paranaense traz participações de Lenine, Drik Barbosa, Jonathan Ferr, Shuna e RDD

Chegamos sozinhos em casa é uma obra una, dividida em duas partes que, juntas, formam um mapa no qual podemos observar por quais lugares passamos para chegar até aqui”. Essa é uma das definições possíveis para o segundo disco da banda Tuyo – trio formado por Lio Soares, Lay Soares e Machado –, que dividiu o próprio processo de “adultecimento” em um álbum de dois volumes. Enquanto o primeiro, lançado em maio, traçou as transformações territoriais que inspiraram expectativas nos integrantes, o segundo, lançado na semana passada, se aprofunda nos sentimentos que atravessam a vida adulta independente do lugar.

A inevitabilidade do fracasso, do fim de relações e da saudade que algumas rupturas deixam são alguns dos elementos que servem de combustível para as oito faixas de Chegamos sozinhos em casa vol. 02. Com patrocínio de Natura Musical, o disco chegou dia 22 de julho, na última quinta-feira, às plataformas de streaming, e trouxe parcerias com Lenine, Drik Barbosa e Jonathan Ferr. O DJ e produtor musical RDD (Rafa Dias, do ÀTTØØXXÁ) está presente na faixa Do lado de dentro, disponível com um videoclipe no canal oficial da Tuyo no YouTube.

Encarregada de iniciar o disco, Do lado de dentro traz versos que exaltam a possibilidade de uma pessoa se encontrar na outra (romanticamente ou não) e de se conectar sem filtros sociais. A sensação de intimidade se traduz no registro audiovisual – com direção de Lio e Marcão. “A gente, atualmente, até comemora algumas coisas, mas sempre debaixo da sombra de que algo difícil está acontecendo. No clipe, a gente mostra que dá pra comemorar e dançar, mesmo que seja só com o ombrinho e dentro de casa”, comenta Lio.

O clima intimista não se limita à primeira música. Ele é, inclusive, um dos elementos que costura a relação entre todas as composições. “Se o EP Pra doer (2017) e o disco Pra curar (2018) já aproximaram a gente de quem ouve Tuyo e acompanha a nossa trajetória, Chegamos sozinhos em casa leva isso a outro nível por ser ainda mais íntimo”, destaca Lio ao falar das músicas, que versam sobre assuntos densos. É o caso de Saudade impura”, faixa escrita por Machado sobre a falta que sente do irmão que perdeu há quatro anos.

As temáticas que esbanjam sensibilidade se desdobram por outras canções. Em Fracasso, por exemplo, o trio fala sobre a necessidade de se responsabilizar pelas coisas que dão errado na vida. Para isso, contam com vocais do cantor pernambucano Lenine. “Sinto que essa música conversa com os trabalhos dele, com o jeito que ele fala verdades densas, mas de um jeito muito bonito e carinhoso”, observa Lay.

O repertório de Chegamos Sozinhos Em Casa vol. 02 também tem seus respiros, um deles com a participação da rapper Drik Barbosa, na música Tem dias. Carregada de afeto, a canção  mostra que o fim de  relacionamento não é sinônimo de deletar momentos vividos. “É um final feliz pra uma história que podia terminar de forma triste. A gente tem aquela ideia de ficar junto pra sempre, mas, às vezes, esse prazo diminui”, explica Lio. “A Drik é a personificação do carinho e do sorriso, então a presença dela funciona como um ponto de luz no meio de um disco firme, de duras verdades”, complementa.

As dualidades contidas nas relações – até mesmo na conexão consigo – ganham ainda mais espaço em Turvo. “Ela fala sobre a contradição de só nos percebermos quando temos os outros pra comparar”, define Lay. Sentimentos contrastantes também permeiam a canção Hoje eu quero chorar. Iniciada a partir de um acontecimento que despertou em Lay uma associação com o filme O auto da compadecida (2000), a letra ganhou mais camadas de interpretação quando ela mostrou o refrão a Lio. Com versos como “Hoje eu quero chorar, hoje eu quero dormir com medo”, a música entoa a libertação que é poder se sentir vulnerável.

Próxima ao fim, a faixa-título mergulha na sensação de se perceber em meio ao caos e se ver apenas “replicando o que seu meio faz”, como explica Machado. O trio encerra Chegamos sozinhos em casa vol. 02 de forma sucinta, com a experimental Pouco espaço. Em colaboração com o pianista carioca Jonathan Ferr e Shuna, da dupla YOÙN, todos dividindo a produção, o grupo destrincha as possibilidades sonoras de uma única frase: “pouco espaço, pouco tempo, sem tempo irmão”. As reflexões percorridas no disco se encerram, assim, como um apelo para “normalizar a ideia de que as pessoas adultas também têm os seus momentos de desequilíbrio”, como conclui Lio.

Tuyo foi selecionado pelo programa Natura Musical, por meio da lei federal de incentivo à cultura, ao lado de nomes como Elza Soares, Emicida, João Donato e Letrux. Ao longo dos 16 anos, Natura Musical já ofereceu recursos para mais de 140 projetos no âmbito nacional, como Lia de Itamaracá, Mariana Aydar, Jards Macalé e Elza Soares. “Nós acreditamos no impacto transformador que a música pode ter no mundo. E os artistas, bandas e projetos de fomento à cena selecionados pelo edital Natura Musical têm essa potência de mobilizar o público na construção de um mundo mais bonito, cada vez mais plural, inclusivo e sustentável”, afirma Fernanda Paiva, Head of Global Cultural Branding.

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