As várias facetas do mercado de luxo atual - sai o ter, entra o ser e sentir

As várias facetas do mercado de luxo atual – sai o ter, entra o ser e sentir

A TOPVIEW destaca seis tendências de consumo que ganham força neste cenário de ruptura constante e tendências geracionais distantes

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Retorno ao passado

Não se assuste se na próxima refeição o cogumelo da sua salada tenha sido cultivado nos fundos do restaurante. Alimentos produzidos localmente, menus simples e os preparos centrados em vegetais estão entre as tendências da gastronomia. Esse é um setor no qual o desejo é impulsionado por experiências. Isso vale mais do que o “ter”, principalmente para os millennials (geração nascida na década de 1980). Muitos setores da economia já estão se obrigando a mudar. Hotéis investem em conceitos de hospitalidade, gastronomia e bem-estar, algo muito além de oferecer um quarto para dormir, uma academia ou um spa padrão. A viagem de luxo mudou de coisas caras para experiências únicas, como conhecer uma mesquita em Teerã ou conviver alguns dias com moradores de Ruanda.

Contato com a natureza

A Iberostar Hotels & Resorts, por exemplo, tem um navio-hotel com o sistema All Incluse em Manaus: o hotel Iberostar Grand Amazon. Com todo o luxo e sofisticação de um 5 estrelas, ela navega pelo rio Amazonas e vai parando em diferentes pontos da selva para que os tripulantes explorem a vegetação, gastronomia e cultura locais. Já em Fernando de Noronha, a Pousada Maria Bonita tem o conceito de “enxergar o belo nas coisas simples”, e busca trazer em cada ambiente a brasilidade e a cultura do Nordeste.

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Equilíbrio

A vida conectada impõe mudanças para o estilo de vida e as pessoas estão bem mais dispostas a cuidar de sua saúde física e mental. Isso inclui práticas esportivas e alimentação mais regrada e saudável, abrindo espaço para o mercado vegano-orgânico. Há uma busca para estreitar o contato com o ser de cada um em detrimento do ter. E, ainda que haja a necessidade de permanecer socialmente conectado, o desejo de entrar em contato com pessoas no mundo real e a natureza é crescente. Equilíbrio passa a ser uma palavra-chave para o futuro.

A beleza para mente

No mundo da beleza, a marca italiana Philip Martin’s – com unidade no Jardim Social, em Curitiba – utiliza em seus produtos “biocompatíveis” ingredientes naturais e orgânicos – e figura como o primeiro Hair Spa 100% orgânico do Brasil. Na gastronomia, Curitiba está prestes a receber o Bee.O, um espaço que vai reunir empório, café, bistrô e enoteca na Avenida Batel “para amantes de um estilo de vida saudável”. O foco é oferecer produtos naturais vindos de produtores próximos, de Campo Magro, Colombo e Bocaiúva do Sul.

 

Veganismo

A busca do termo “vegano” no Google cresceu mais de mil por cento nos últimos cinco anos, provando que o consumidor está cada vez mais cauteloso com os ingredientes químicos. Além da alimentação, o veganismo avança em vários setores. Um dos mais interessantes é o boom da beleza vegana – produtos sem ingredientes de proveniência animal e cruelty-free (não testados em animais). É o momento de defender a beleza ética e consciente. A marca britânica de maquiagem de luxo Hourglass prometeu tornar cada um de seus produtos 100% veganos até 2020. A L’Óreal, principal player do mercado global de produtos para cabelos, lançou a primeira coloração 100% vegetal em dezembro passado.

CineVegan

A Netflix tem um bom acervo de filmes e documentários que tratam do assunto, como o Food Choices (2016), no qual a dieta global é abordada e apontada como a culpada pelo declínio da saúde e mudanças climáticas. Em Cowspiracy: O segredo da sustentabilidade (2014), Kip Andersen mostra como a agropecuária intensiva está dizimando os recursos naturais do planeta e por que essa crise tem sido ignorada por grandes grupos ambientalistas. O documentário ganhou diversos prêmios, incluindo melhor filme estrangeiro na 12ª edição do Festival de films pour l’environnement, na França. Na categoria filmes, destaca-se o delicado Okja – produção Netflix, inclusive – no qual uma garota luta para resgatar seu melhor amigo, um animal mutante criado em laboratório.

 

AutoVegan

Uma nova empresa automotiva norte-americana chamada Fisker lançou um carro elétrico de luxo e vegano para competir com os modelos da já conhecida Tesla. O EMotion pode ter acabamento vegano e uma nova tecnologia capaz de armazenar muito mais energia do que os carros elétricos conhecidos até então. Deve chegar ao mercado norte-americano em 2019 por US$ 129 mil, cerca de R$ 412 mil.

Home

Na era pós-luxo a casa passa a ser o local para nos aquietar e repor energias. “O mundo está megatecnológico e acelerado. Então o lar é um refúgio, o ambiente para nos reconectarmos com a gente mesmo e com as pessoas mais próximas”, comenta a arquiteta Alessandra Gandolfi. É por isso que, cada vez mais, a casa ganha atenção e elementos de acolhimento. Embora o minimalismo, a força motriz da decoração doméstica na última década, ainda reine, se observa nas casas de alto padrão uma apreciação maior por história, fotografia e arte. As décadas passadas estão mais valorizadas, assim como a cultura e o apreço pelo design original e vintage. A luz pode ajudar a compor, assim como móveis de linhas mais orgânicas e texturas. Madeira, tecidos em linho e veludo, mármore e metais são combinados para criar diferentes efeitos nas superfícies e composição do mobiliário.

Conforto de casa fora de casa

Esse é um desejo cada vez mais presente hoje. Levar para o ambiente de trabalho, por exemplos, elementos pessoais que caracterizem sua mesa como o seu lar e encontrar em restaurantes e bares uma atmosfera tão aconchegante quanto a sua sala de estar. Um cinema no Japão foi além. O Let’s Cine Park, na cidade de Tokorozawa, tem
assentos “premium” que oferecem não só um aconchegante e acolchoado camarote – onde é possível esparramar-se entre travesseiros e almofadas – como cobertores.

 

 

Co-branding

Segundo a consultoria WGSN, a chave para as marcas se manterem relevantes no futuro é uma compreensão dos consumidores a nível local – suas diferenças e semelhanças. Isso permite criar uma comunidade em torno da marca. A estratégia de associar-se a uma outra personalidade (co-branding) permite que a marca possa inovar sem deixar de lado suas raízes no que diz respeito a coleções, edições limitadas e parcerias. Marcas maiores e mais conhecidas estão se associando às menores, fortalecendo-se na produção local e focando nos consumidores que estão mais conscientes do que é fabricado ao seu redor e preocupados com a economia regional.

6 co-brandings atuais

Mônica e Hello Kitty: Mauricio de Sousa Produções e Sanrio lançaram, juntos, uma série de produtos infantis que devem chegar ao mercado no segundo semestre deste ano.
Raf Simons + Eastpak: em janeiro, chegaram às lojas da marca de mochilas Eastpak uma coleção-cápsula de Raf Simons inspirada em Blade Runner.
David Byrne + Fondazione Prada: o músico britânico mediou no início deste ano o Reasons to Be Cheerful, evento da marca italiana que está vinculado ao novo álbum dele, American Utopia, que chega ao mercado neste mês.
Gosha Rubchinskiy + Burberry: a label russa se uniu à tradicional inglesa em uma coleção cápsula inspirada pela cultura jovem e no legado do futebol britânico.
GoPro + Red Bull: em 2016, ar marcas dividiram os direitos autorais das co-produções e distribuíram o conteúdo relacionado pelos canais de ambas.
Nike + Apple: também em 2016, a Apple lançou um smartwatch em parceria com a Nike, o Apple Watch Nike+ que continha a marca da brand esportiva no exterior.

Tecnologia

Cada vez mais, a tecnologia irá desempenhar um papel importante no consumo de produtos de luxo. Bens de luxo e ferramentas tecnológicas se tornam mais estreitamente ligados para oferecer atualização e personalização em busca da lealdade do cliente. Empresas de luxo estão em parceria com marcas de tecnologia para oferecer produtos premium, como relógios que incorporam recursos tecnológicos de ponta. Com o Finery – plataforma de planejamento virtual do guarda-roupa – já é possível organizar e gerenciar as peças do closet, transformando dados de compras passadas em um catálogo de itens. Embora as vendas de produtos de luxo em comércio eletrônico continuem a aumentar, 63% deles, em média, ainda são adquiridos em lojas físicas. Os millennials compram 58% de seus bens de luxo em lojas físicas e 42% por meio de computadores ou dispositivos móveis. Em contraste, entre os baby boomers, 72% das compras de produtos de luxo são feitas nas lojas.

Há controvérsias
Em visita ao Harlow College, em Essex, um dos 70 centros de educação da Europa que adotará o programa da Apple para aprender a programar dentro do seu plano de ensino, o CEO da Apple, Tim Cook, afirmou: “não quero meus sobrinhos nas redes”. Mesmo sabendo que a declaração vai contra os interesses da sua empresa, Cook não crê que o uso de dispositivos seja necessário em todas as matérias. “Não acredito no uso excessivo da tecnologia. Eu não sou daqueles que acreditam que você será bem-sucedido usando-a o tempo todo”.

Falando em Apple…
Recentemente, a marca de cosméticos Neutrogena anunciou que está lançando uma espécie de scanner que pode ser acoplado a um iPhone para detectar mudanças na pele. De acordo com o The Verge, o aparelho funcionaria ligado à câmera do smartphone, utilizando fotos capturadas bem próximas ao rosto para identificar mudanças no tecido ao longo do tempo.

A volta dos logos grandes
O movimento cíclico da moda traz com força total roupas e acessórios com logotipos impressos de forma nada discreta. Se a tendência surgiu como valor agregado para um consumidor que desejava mostrar status social, agora volta com pegada retrô, identificada com a diversidade do street style. Marcas tradicionais como Valentino, Gucci, Balenciaga, Fendi, Louis Vuitton e Moschino resgataram a referência do arcabouço do cafonismo para colocar novamente suas letterings em looks glamourosos, divertidos e irônicos. Uma forma de restaurar o desejo dos antigos consumidores e de se aproximar de um novo.

Fontes: Carlos Eduardo Souza, publisher do Habitus Brasil, e Adriano Tadeu Barbosa, consultor de marketing.

 *Matéria publicada originalmente por Dani Brito na edição 209 da revista TOPVIEW.

 
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