30 anos não são o suficiente, por Julie Fank
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No Brasil, é possível, nem todos sabem, ter vários registros de identidade. Eu tenho duas, por exemplo, uma tocantinense e outra paranaense, a última perdida em alguma viagem pela América do Sul e ainda pendente de retirada da segunda via. Logo explico. E isso, mais um passaporte vencido, já denunciam meu poder de procrastinação. Posso ser uma em Alagoas, outra no Rio Grande do Sul. E, dependendo de minha capacidade nômade, conseguir 27 documentos com numeração diferente, exercitando o potencial de criação de personagens que só um país incapaz de criar uma numeração unitária pode propiciar. A questão é que, exceto o acaso de eu já ter morado em três estados, quase quatro, de três regiões completamente distintas, eu jamais teria sonhado, em minhas pretensiosas bucket lists de viagens, conhecer o Tocantins, por exemplo. Ou Goiás. Ou Roraima. Ou o Piauí. Devo os dois primeiros estados à curiosidade e ao desbravamento da minha família, de origem gaúcha, mas capacidade torácica de deixar os primeiros seres humanos a atravessarem o Estreito de Gibraltar com inveja. Na década de 1970 ainda, eles foram subindo – saíram de Três Passos e, desculpem, mas o trocadilho é irresistível, deram muito mais até chegar ao norte do país.

Bem, na época, um meme nos diria, era tudo mato. E o máximo que havia por perto era um mundo inteiro de novas-velhas terras indígenas prestes a virarem mais uma unidade federativa, uma história alguns anos distante das antigas capitanias hereditárias, pensaríamos – ingênuos. Foi lá que, em 1989, eu, que dividia o número de dígitos de idade com o estado, aprendi a andar. Eles, minha família, que se estabeleceram na simpática e curiosa cidade de Cristalândia, a alguns quilômetros da agora capital Palmas, gostavam muito de pescar e nos levavam para passear num dos pontos turísticos da região: um lugar chamado Lagoa da Confusão. O nome curioso batiza uma lagoa cuja borda é difícil de identificar por conta de uma pedra de calcário, hoje já bem desgastada, fixada em seu centro. A impressão que o visitante tem é de que a pedra é o fim, quando na verdade é o centro da lagoa. Aliás, quando penso no nome desse local e entendo que foi lá que dei meus primeiros passos, reconheço a coerência e a linearidade como aspectos não lá muito frequentes na minha vida.

Em alguma quinta-feira de maio, completo 30 anos. Em alguma tarde da minha adolescência, sonhei rasurar num quadro, nesta data, meu trigésimo país explorado. Não deu. Nem a conta, redonda e simbólica, bateu, nem a vida deixou. Um atravessamento de vida acadêmica mais agenda incompatível, mais uma empresa em construção gritaram para que eu ficasse. Obedeci. A feita me rendeu, ao longo desses quatro anos, desde que decidi empreender, uma bússola virada pra dentro: de Roraima ao Rio Grande do Sul, colecionei mais estados do que eu fui capaz de planejar e mais embates com o mundo do que toda a sorte de museus europeus seriam capazes de realizar. De um apassionamento pela cultura amazônica fronteiriça com a Venezuela à felicidade quase ingênua de pegar na mão a primeira estrela do mar numa praia deserta do meio do estado de Alagoas. Um ônibus tomado às pressas no interior de Pernambuco e uma peça de artesanato indígena confiscada no aeroporto de Boa Vista. Ela imita o barulho da chuva, era meu argumento para convencer, inutilmente, o pessoal da Infraero. Logo eles. Na estante, não puderam figurar as conchas que esqueci pelo caminho. Uma coleção de livros de autores e artesãos piauienses, no entanto, insistiu o seu espaço na mala e figura triunfante ao lado de uma boneca indígena que coube no orçamento. Meu passaporte vencido não dá conta de, simbolicamente, registrar meus carimbos rodoviários para guardar todos esses cantos compatriotas no meu inventário afetivo. A estante, no entanto, me repete, com seus livros e periódicos independentes recolhidos pelo caminho, que não atravessam mais o Brasil por uma mera questão de CEP, que é ali que as narrativas de viagem se calcificam. Nos diários, nas fotos e nos autores, agora conhecidos, alguns tantos amigos, me dizendo, como a lagoa onde aprendi a andar, que, quando a gente acha que chegou ao fim, o Brasil, como a vida nos seus retornos saturninos, nos mostra que ainda temos muito a remar para chegar à borda. E é essa a hora de olhar pra margem do rio que ainda não atravessamos.

Julie Fank (@juliefank) é escritora, professora e fundadora da Esc. Escola de Escrita. juliefank@gmail.com

*Crônica publicada originalmente na edição 210 da revista TOPVIEW.

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