Cinemagine: o filme que ninguém viu

Conhecemos o projeto de cinema sem imagem, criado pela Cinépolis. Com os olhos vendados, somos convidados a ver o filme por outros sentidos

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Imaginem uma sala de cinema cheia de pessoas comendo pipoca, bebendo refrigerante e empolgadas com a história contada – porém, nenhuma imagem está sendo exibida na telona. Esta é a proposta do Cinemagine, um projeto realizado pela rede Cinépolis, no qual o público tem a experiência de ouvir e sentir um filme, sem vê-lo.

Público recebe vendas ao entrar na sessão. A ideia é usar outros sentidos para imaginar as cenas.

Ao entrar na sala, você recebe uma venda para tapar os olhos e aproveitar “apenas” a tecnologia das salas 4DX – que faz com que as poltronas se mexam, o vento sopre e até água seja esguichada no público, tudo de acordo com a história, que é narrada em áudio. A ideia é aguçar a imaginação das pessoas por meio de estímulos sensoriais, que vão além do visual. E, claro, oferecer uma sessão de cinema que seja inclusiva a deficientes visuais.

Como é uma sessão do Cinemagine

Em Curitiba, a segunda edição do Cinemagine foi realizada no sábado, 5 de agosto, no Cinépolis do Pátio Batel, e nós fomos conhecer a novidade. Com cerca de 45 minutos, a apresentação foi dividida em três partes.

A primeira, narrada por Fernanda Lima, funcionou como um prólogo à apresentação, para que o público entenda como funciona a sessão e tente imaginar cenas como um passeio de montanha-russa ou um combate de gladiadores. “Subindo, subindo, subindo!”, a atriz narra, e as poltronas da sala se inclinam para trás, tremendo, como se de fato o público estivesse dentro de um carrinho de montanha-russa.

Após esta apresentação inicial, vem a segunda e principal parte da sessão, o filme Titanic – Uma Aventura Gelada. História de amor e aventura ambientada durante o trágico naufrágio do Titanic, ela é narrada pelo protagonista Robert, um dos engenheiros do famoso transatlântico, que durante a viagem se apaixona pela alemã Anabelle e, enquanto o navio afunda, precisa ir de um lado ao outro para garantir que ambos se salvem.

E quando você acha que a sessão terminou, eis que “entra em cena” o comediante Fábio Porchat. À princípio, parece que ele vai apenas dar os créditos da sessão – “direção de…”, “roteiro de…”, “estrelado por…” -, mas ele resolve apresentar a si mesmo. “Imaginem um homem bonito, alto, musculoso, não me imaginem gordo e… Ai, vocês me imaginaram gordo, não?”. Essa é a desculpa para Porchat iniciar uma série de brincadeiras na qual faz o público imaginar cenas hilárias – e que adquire proporções psicodélicas quando ele “beija” um sapo alucinógeno.

Em uma cultura tão visual quanto a contemporânea, a realização de um projeto como o Cinemagine soa quase transgressor: uma sessão de cinema que retorna à antes da existência do próprio cinema, quando as pessoas tinham poucas referências visuais, e histórias tinham que ser contadas ao invés de mostradas.

A inclusão da tecnologia 4DX, porém, traz uma experiência imersiva que seria impossível de outra forma. Quando Robert comenta sobre a noite fria na área externa do Titanic, sentimos um vento frio enquanto as poltronas balançam para frente e para trás com as “ondas”; quando Fábio Porchat tenta matar um mosquito com inseticida, sentimos o spray sendo espirrado em nossas orelhas. Quem participa da sessão não está vendo a ação acontecer, mas fazendo parte dela, lado a lado de quem quer que a esteja narrando.

Pontos negativos do Cinemagine

Em sua segunda edição, porém, o projeto ainda possui alguns problemas, principalmente relacionados ao roteiro, que em muitos momentos perdeu-se em descrições que acabaram por distrair-nos do objetivo principal do Cinemagine.

Quando Robert descreve em detalhes técnicos o tamanho do Titanic, suas cores, suas janelas, a impressão acaba sendo mais a de se estar ouvindo alguém lendo uma descrição do Titanic do que a de se estar “vendo” um filme imaginário. Com tantos detalhes dados de uma só vez, é difícil construir mentalmente a imagem e mantê-la ao longo da sessão; e quando o personagem corre pelo navio e constantemente diz “só mais 150 metros! Só mais 75 metros!”, acaba por distrair da ação, que seria mais fácil de se imaginar com passos e outros sons de ambientes.

Curiosamente, os momentos mais empolgantes e que mais incitam a imaginação são justamente aqueles em que poucos detalhes são dados, ou estes são dados aos poucos, não apenas mantendo a ação constante como também ajudando a narrá-la. Um exemplo é o combate narrado por Fernanda Lima: “gladiadores em armaduras de metal batem espadas uns contra os outros, o público grita… E você? Está sem armadura nenhuma, e apenas com uma espadinha de madeira”.

Ainda assim, a experiência de (não) assistir um filme é única e criativa, e quando bem escrita leva o público a se soltar de forma surpreendente – respondendo em voz alta as adivinhas de Fábio Porchat como se este realmente estivesse na sala e pudesse ouvi-los; ou gritando empolgados quando as poltronas viram de um lado para o outro, como as curvas de uma montanha-russa. E, com uma terceira edição em Curitiba já confirmada, será possível viver esta experiência novamente, e possivelmente com um roteiro ainda mais atraente.



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