A arte como esperança para refugiados sírios

Rimon Guimarães foi ao país em conflito para realizar oficinas de arte com os refugiados sírios

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Os Cosmic Boys deram uma nova cara ao maior muro da Síria com a ajuda de crianças | Foto: Rimon Guimarães.

Há mais de seis anos que a Guerra Civil da Síria causa mortes, milhares de pedidos de refúgio e muita destruição no país. Muitas crianças nasceram em meio à guerra e não conhecem outra realidade a não ser a de conflito. Para levar outra visão de mundo e um pouco de esperança aos refugiados sírios, o artista visual curitibano Rimon Guimarães foi até a Síria e Líbano.

Ele e Zéh Palito formam a dupla Cosmic Boys e viajaram juntos por meio de um convite do projeto Conexus. Foram dois meses viajando e pintando murais em Dubai, no Líbano e na Síria, destino final da viagem e que só foi confirmado dia antes – devido a inúmeros conflitos, a entrada no país é regulamentada e, muitas vezes, impedida. Com o auxílio da embaixada brasileira na Síria, os Cosmic Boys pintaram o maior mural do país, com 270 m², e viveram uma lição de humanidade e experiência única.

Arte como escapismo para os refugiados sírios

Além da Síria, Rimon contou com ajuda de refugiados sírios na fronteira com o Líbano| Foto: Rimon Guimarães.
Além da Síria, Rimon contou com ajuda de refugiados sírios na fronteira com o Líbano| Foto: Rimon Guimarães.

A lição vivida por Rimon foi um marco necessário, já que nunca tinha pintado em região de conflito. Para ele, conviver em uma situação em que as pessoas têm muito pouco o fez valorizar cada momento. “Eu aprendi muito com eles. Aprendi a ter essa felicidade em situações muito ruins, aprendi a estar aberto e ajudar, porque mesmo sem receber nada, a gente acaba recebendo em humanidade e amor”, comenta.

Para ele, a viagem não serviu apenas para fazer mais um trabalho, pintar mais um mural. É uma esperança que ele conseguiu levar para os sírios. “Acredito que eles conseguiram enxergar outra realidade, ver que na arte tem uma esperança, que você pode, com suas próprias mãos, mudar o seu espaço. No início estava tudo meio destruído e, no final, foram eles que mudaram aquilo”, conta o artista.

Os Cosmic Boys começaram pintando muros e salas de escolas sozinhos. Aos poucos, as crianças foram chegando e a ação se tornou um workshop prático com várias crianças colocando a mão na massa e enxergando outra perspectiva. “Ali eles estavam tendo que lidar com coisas muito pesadas, como guerra, trabalho e perda de parentes. Então, a gente conseguiu tirar aquela realidade triste. Foi um escape, uma outra visão de vida e uma nova forma de expressão. A gente coloca a semente e não sabe no que vai dar, mas sabe que o potencial é muito maior do que a gente imagina”, explica Rimon.

Apesar de ouvir o som de bombas enquanto dormia e ver muita fumaça no céu, a surpreendente tranquilidade dos sírios também tranquilizou Rimon. “Para eles é uma situação normal”, relembra. As revistas a cada esquina, a água e luz precárias chocavam o artista, que chegou a pensar que não conseguiria sair do país. A pior lembrança foi a de fotografar um prédio e, dois dias seguintes, passar pelo mesmo local e vê-lo destruído.

Mesmo com momentos chocantes, o resultado final, segundo eles, foi satisfatório e tornou essa viagem a mais significativa da carreira do artista. Agora, de volta a Curitiba, Rimon acompanha os conflitos de longe e pretende voltar – mesmo que a Guerra ainda não tenha acabado. “Quero rever as pessoas. A gente cria laços e voltar lá traz aquela sensação de não abandono. A intenção é mostrar que me preocupei e penso neles”, conclui Rimon.

Arte de rua

Além de entreter as crianças, Rimon levou uma nova perspectiva de vida aos refugiados sírios | Foto: Rimon Guimarães.
Além de entreter as crianças, Rimon levou uma nova perspectiva de vida aos refugiados sírios | Foto: Rimon Guimarães.

Por pintar em uma região em conflito e com bombardeios constantes, a preocupação de desabar o muro que pintou na Síria não existe. “Como faço arte de rua, estou acostumado com a efemeridade das coisas, já não tenho tanto apego”, explica Rimon.

Para ele, o que importa é o trabalho realizado e a oportunidade de levar cor, esperança e um ensino prático para pessoas que precisam de arte. “A arte é transformadora e geralmente muito elitizada. Galerias de arte e museus não são lugares que as pessoas que realmente precisam de arte frequentam. Este trabalho foi muito importante porque a gente levou arte para quem realmente precisa e isso pode mudar o futuro deles”, comenta o artista.

Apesar de grande importância para a população, a arte, principalmente a de rua, ainda sofre preconceito e resistência. Para Rimon, impedir o trabalho, como está sendo feito recentemente, é um retrocesso. “A arte de rua está evoluindo muito no Brasil e tem potencial muito forte. É uma pena esse retrocesso, mas o grafiti nunca precisou de respaldo nem do apoio de ninguém. Ele acontece, é um sintoma, se você não der o espaço, a pessoa cria o próprio espaço”, conta.

Sobre o futuro, Rimon espera a expressão livre, sem normas estipuladas, para que não perca a identidade de transgressão.

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