Como fazer do ócio seu aliado

Buscamos as origens do ócio para fazer seu elogio em tempos hiperconectados: mais do que nunca, ele é fundamental para a qualidade de vida

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Em um mundo acelerado e hiperconectado, a necessidade de estar sempre em movimento e em produção é quase uma imposição social. São os compromissos profissionais, sociais, a necessidade de atualização constante, além de uma série de outras obrigações. Por outro lado, parar por alguns momentos para respirar e não fazer nada também contribui para melhorar a saúde, uma vez que níveis intensos de estresse podem desencadear diversos problemas de saúde, físicos e psicológicos.

Ócio é diferente de lazer

Ao contrário do que se costuma imaginar, conceitualmente, o ócio não é um tempo de diversão e entretenimento. Segundo o filósofo e psicanalista Daniel Omar Perez, pós-doutor em Filosofia e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na Grécia Antiga, o ócio era o que diferenciava os homens livres dos escravos.

Para os gregos, o ócio era um elemento fundamental para impulsionar a produção artística e o pensamento filosófico. De acordo com pensadores como Aristóteles e Platão, o trabalho estava ligado ao campo da necessidade – comer, vestir –, uma oposição entre o mundo do trabalho e o mundo das ideias, da razão. O ócio era uma atividade digna dos homens livres, que eram considerados cidadãos e exerciam direitos na Grécia. “Não era o tempo dedicado ao entretenimento e à diversão, já que até os escravos podiam se divertir”, afirma o filósofo. Originalmente, tratava-se do tempo destinado a ficar só, buscar a reflexão.

Segundo Daniel, isso é possível a partir de técnicas como meditação, yoga, a prática do budismo ou artes marciais como muay thai, pois são atividades que levam à introspecção e à escuta do próprio corpo.

Produtividade e inadequação social

Mesmo que em outro grau, ainda hoje o tema está ligado à questão da liberdade. De acordo com o psiquiatra e professor de Saúde Mental da Universidade de Ponta Grossa (UEPG), Marcelo Kimati, permitir-se não fazer nada por alguns momentos é fundamental na elaboração das experiências afetivas e cognitivas e isso deve ser visto como uma grande conquista. “O modelo econômico atual, no entanto, valoriza a produtividade e o ócio é apontado como sinônimo de inadequação social”, analisa.

Segundo Kimati, é cada vez mais frequente nos consultórios psiquiátricos trabalhadores jovens em busca de drogas que os auxiliem a aumentar a produtividade. “Estão imersos de tal forma na competitividade do sistema que se tornam incapazes de refletir sobre sua relação com o trabalho”, comenta.

Crianças precisam de tempo livre


Boa parte das crianças de hoje já cresce com agendas repletas de compromissos. O foco, para a maioria dos pais, é a formação, visando ao futuro profissional. A psicóloga e psicanalista Bárbara Ferraz de Campos destaca a importância de permitir que as crianças tenham o direito de ficar ociosas, sem atividades direcionadas por pais ou monitores, para que possam brincar livremente e construir sua própria agenda de interesses.

De acordo com a psicanalista, são nesses momentos de livre brincar que a criança tem a oportunidade de se descobrir como ser humano, elaborar suas vivências, entrar em contato com os seus limites e gostos. O ócio estimula, ainda, a criatividade e outras habilidades importantes.

*Matéria publicada originalmente por Danielle Blaskievicz na edição 208 da revista TOPVIEW.

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