Crônica: quinquagésima casa, quinta cidade, a nossa primeira

Julie Fank é escritora, professora e fundadora da Esc. Escola de Escrita

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Lembro da primeira vez que vi uma casa sendo carregada por um caminhão. Também não esqueço o cachorro que corria o risco de ser atropelado esbravejando contra a mudança do layout da rua em que costumava ladrar. Ele certamente não era um dos moradores. Se levaram até a casa, pensei, não teriam deixado um cachorro.

Minha vó, aliás, dia desses, mudou de casa. A primeira vez que a visitei na nova, me mostrou as margaridas recém-plantadas e as melancias que cresciam próximas do portão. Foram quarenta anos e um tanto a mais inteiros deixados para trás. Algumas quadras e um caminhão de plantas a separavam dos móveis velhos, do depósito em que se converteu a antiga fábrica de bebidas do meu avô e dos vizinhos que acompanharam uma vida – as árvores de mais raiz possivelmente chorando o abandono para os empreiteiros responsáveis por botar acima um prédio com porcelanato de um metro quadrado e umas samambaias na fachada unidas por um sistema de irrigação automático.

Penso que, se fosse de madeira e as goteiras não tivessem fundado um coletivo que a expulsasse chuva sim, outra também, a teria levado num caminhão, essa casa que foi minha e de meus irmãos, dos meus primos, dos meus tios e pertenceria à memória de algumas próximas gerações. O que me separa de minha vó é a quantidade de casas e a quantidade de cabelos em que moramos, eu, íntima de São Longuinho a cada troca de endereço, ela, tão certa sobre onde ficam as coisas.

Tropeço num livro aberto no chão e constato, depois de verificar a geladeira abastecida não mais de congelados, que a história deste novo apartamento para o qual me mudei há pouco mais de dois meses puxa assunto comigo: tem certeza de que vai continuar com essas paredes brancas? Você não é de casa bege, Julie, e vejo que ela resolveu pegar no meu ponto fraco – não sem antes me perguntar mentalmente quantas gerações de brócolis eram capazes de viver na minha geladeira. Devolvo o samba, lavando a louça suja e anotando que preciso-precisamos, mudo o número desses verbos: de mais toalhas, mais lençóis, agora trocados com mais frequência, mais almofadas porque o sofá não vai se enfeitar sozinho afinal, a manta-mantas já a postos.

Aqui e agora chamando de novo, com um miado de um dos gatos dizendo que eu ainda não dei comida para ela hoje. A configuração cuidada a dois me permite andar descalço sem me sentir num cenário de The Walking Dead livresco, a tese por terminar de braços abertos na escrivaninha. Uma voz na cabeça faz eco e concorda, enquanto rego uma das plantas que trouxe na bagagem da última ida para casa, verbete agora abraçando uma cidade inteira como destino de feriados torrenciais, mas também significado do que agora construímos ele e eu. Estão entediados, concluo – sobre os móveis. Não têm o que fazer para ficarem conversando comigo a esta hora da madrugada? Reclamam dos amigos na garagem e dos outros que nem mesmo vieram com a gente. Eles ainda vêm?, suplicam. Explico sobre a falta de espaço e prometo: não os substituirei por móveis planejados, a Riachuelo é minha pastora e nada me faltará.

Um diário íntimo não é tão confidencial quanto a disposição dos móveis e o nosso método para guardar cotonetes,

mas uma mudança feita pela metade está prestes a dizer que estamos na primavera

Um diário íntimo não é tão confidencial quanto a disposição dos móveis e o nosso método para guardar cotonetes, mas uma mudança feita pela metade está prestes a dizer que estamos na primavera. É aquele momento em que o caminhão velho se recusa a fazer viagem. É hora de colocar o primeiro tijolo, argumenta ele, com a casa de madeira que se recusa, a contragosto, a sair do chão. A memória quer sempre vir com a gente, a solidão também, esse vício. Retiro algumas ripas, a casa de antes reclamando de dor. Com quantas tábuas se faz uma estante? Cinco, ele me diz, já abrindo a caixa de ferramentas e mostrando desenvoltura com o uso da lixa. Comprei uma samambaia semana passada para a ponta mais alta dessa mesma estante. Separação total de livros, aviso. Não há negociação, a essa hora os gatos já com a estante tomada e eu postando no Instagram. Bagunça fixada, abrimos um vinho, uma noite inteira para decidirmos as cores das paredes, uma vida inteira para definir quem lava a louça. As paredes, nossos cúmplices, numa geometria esculpida a quatro mãos, ainda em branco. Não por muito tempo.

*Crônica escrita por Julie Fank e publicada originalmente na edição 204 da revista TOPVIEW. Julie é escritora, professora e fundadora da Esc. Escola de Escrita. Escreve para a TOPVIEW bimestralmente. juliefank@gmail.com

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