Top View entra na casa e na vida de Beto Madalosso

O chef do Forneria Copacabana fala sobre sua paixão por esportes, viagens e mapas

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Ele chega atrasado, ofegante e suado, no auge de um intenso verão curitibano, em uma sexta-feira pós-almoço. “Estava nadando”, justifica. Entramos pela sala, um enorme cômodo vazio .Feitos os cumprimentos, ele segue apressado pelo corredor para me apresentar a casa e eu saio em disparada atrás dele, tentando acompanhar o ritmo quase frenético desse impaciente geminiano que é um dos chefs mais carismáticos de Curitiba.

Carlos Roberto Madalosso Filho, o Beto, vive há quatro anos neste lugar – embora a sensação que se tem é de que acabou de se mudar. Sem cadeiras ou poltronas – apenas um sofá preto no centro do cômodo –, o espaçoso imóvel localizado entre o Parque Barigüi e a Universidade Positivo, no Mossunguê, foi presente dos pais, mas para ele é apenas um depósito, onde dorme e acorda, um “lugar de passagem”.

“Eu não tenho relação com a casa”, admite. O que tem no apartamento, foi a mãe quem colocou. Uma vez por semana uma diarista limpa e lava as roupas. “Até convidei uns arquitetos a criarem um projeto legal pra cá, mas no meio da conversa percebi que não é isso que eu quero.” Na verdade, o desejo dele é mais bucólico: morar em um contêiner ou uma casa simples no meio do mato com um grande jardim.

Quase um nômade

Do alto do 22º andar, tem-se uma vista incrível de uma das regiões mais bonitas da cidade. Ele admite que a localização é um fator importante na sua agitada rotina. Corre pela canaleta dos ônibus; pega a estrada para pedalar; nada três vezes por semana; treina pesado quando surge uma competição de triátlon ou Iron Man… Não para. Enquanto mostra as medalhas e troféus na estante do quarto, conta da mais recente viagem, de Buenos Aires a Vinã Del Mar, no Chile.

Aos 38 anos, não teve dúvidas sobre casar ou comprar uma bicicleta. Tem três e algumas motos também. É com elas que o chef-empresário faz suas viagens pelo Brasil afora, ora na companhia de um amigo, ora sozinho. Para o Alasca, em 2008, ele levou o irmão, Lorenzo. Foram 100 dias viajando de moto até lá. “Gosto de viagem que te faz sofrer. Não vejo graça em viagem convencional”, explica.

De vez em quando, o quarto de hóspedes é ocupado por algum estrangeiro que o encontra no  Warm Showers, uma comunidade online de hospedagem para turistas ciclistas. “Recebo o cara que esteja passando por Curitiba e não tem onde dormir”, conta o chef, que já hospedou argentino, chileno, indonésio, austríaco e dois noruegueses.

Prefere viajar de bike. “É muito mais interessante. A cabeça muda e você aprende a ser muito mais simples”, mesmo, com direito a desapego total da vaidade. “Quando você está viajando não tem a obrigação de ser lindo”, brinca. Seja pedalar de Curitiba a Buenos Aires ou viajar sozinho de moto pelos Estados Unidos por 45 dias.

O chef multitarefas

O sobrenome entrega a sina do empresário. Criado em meio às panelas do maior restaurante da América Latina (tá lá no Guiness!), Beto Madalosso abriu, há cinco anos, a Forneria Copacabana da Itupava e, há dois, a da Iguaçu. O trabalho não é fácil. “Normalmente as pessoas têm sócios, mas eu sou sozinho.” E se já é difícil cuidar de uma casa, imagine duas. “Tudo é muito no olho, não tem planilha”, afirma.

Foi em um de seus restaurantes que Beto conheceu sua namorada – sim, ele está comprometido! –, a empresária Júlia Loyola, responsável pela clínica Estética Los Angeles. Antes dela, admite, já foi paquerado por clientes – e cedeu a algumas delas – “mas não é o lugar para isso”.

Com uma aptidão incrível para a comunicação, Beto não tem paciência para ler ou assistir TV – exceto pelos seriados Pablo Escobar e Homeland – e sempre achou as revistas de gastronomia extremamente caretas. Até encontrar, em uma das suas viagens para os Estados Unidos, a publicação norte-americana Lucky Peach. Foi a partir dela que decidiu criar a Tutano, sua descolada revista gastronômica, no mercado há quatro anos. Neste mês, ela migra para o virtual em forma de portal – reflexo da crise econômica, “mas uma forma de manter ela viva”, diz.

Geladeira vazia

Da colorida cozinha ele grava os vídeos gastronômicos que em breve estarão no site da Tutano. E é basicamente isso. Em casa, Beto Madalosso não cozinha. Ao ouvir isso, corro até a geladeira e encontro uma embalagem de mostarda escura, muitas cervejas, vinhos e um pote gigante de creme de leite – “eu pego dos restaurantes”.

Ele não se empolga em cozinhar só para si. Prefere – e curte muito – comer fora sempre que pode. Dia sim, dia não lá está ele postando uma foto em um bistrô concorrente. Quase uma lição de casa para quem trabalha com gastronomia, “sem contar que ajuda a fortalecer o relacionamento com outros chefs”.

Em seu quarto, entre os troféus e a coleção de mapas (trazidos de cada lugar que já visitou), estão porta-retratos que carregam registros das viagens e amigos. Um deles traz uma figura conhecida dos curitibanos: o chef Dudu Sperandio, proprietário do Ernesto Ristorante. A amizade já beira os 20 anos. Juntos eles compartilham o gosto por esportes e estão sempre tirando sarro um do outro. “É legal porque ele não consegue rebater direito”, provoca Beto.

#Betosincero

No Instagram, é possível tirar a prova dessa relação divertida que ele tem com Dudu e outros amigos – e também se surpreender (ou se chocar) com as fotos que ele posta. Já teve Beto sentado na privada, no dentista, correndo de sunga e, para citar uma mais recente, o chef em uma de suas viagens de moto usando cueca fio dental. “Meu humor é contra mim mesmo”, defende-se.

As brincadeiras não interferem na credibilidade dele diante dos funcionários. O que difere Beto Madalosso de outros chefs é justamente essa autenticidade. Ele não deixa de ser engraçado por causa do trabalho. “Não sou o meu trabalho”, dispara, seco.

Apesar da fama pela cidade, ele não se considera uma pessoa pública. “Se eu for, bem por isso não posso esconder nada.” Segundo ele, é preciso mostrar suas fraquezas, mostrar que é uma pessoa real. Dessa ideia surge um desconforto com a realidade paralela criada pelas redes sociais. “É claro que eu também queria ser a Gabriela Pugliesi [blogueira fitness brasileira com mais de dois milhões de seguidores do Instagram], mas eu nunca vou ser, pois nem ela é quem acredita ser. Essas pessoas iludem a gente, fazem um trabalho contra a sociedade”, defende.

Um inocente da política

Em agosto do ano passado, essa franqueza toda veio à tona quando um de seus clientes fotografou e publicou no Facebook a primeira página do menu da Forneria, onde Beto escrevera “políticos corruptos não são bem-vindos”. A frase estava no cardápio há pelo menos três anos e era um protesto dele contra a corrupção no país. Viralizou em minutos.

A iniciativa é só uma amostra da relação quase íntima que o chef tem com a política, que começou quando ele assumiu, em 2004, a vice-presidência da Associação do Comércio e Indústria de Santa Felicidade (Acisf) no lugar do pai. Hoje, faz parte do conselho administrativo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel-PR) e sempre está envolvido nas ações da associação.

Em 2012, foi por quatro meses presidente da Paraná Turismo, Secretaria do Governo do Estado, de onde não guarda boas lembranças. “Trabalhar lá era difícil, o tempo [para concluir um projeto] é diferente da iniciativa privada. Foi frustrante perceber que não tinha autonomia para fazer o que eu queria”, confessa.

A experiência o fez perder o ânimo, mas não a esperança. “Eu sempre acho que a intenção da pessoa é boa quando ela entra na política, mas a estrutura corrompe muita gente. Geralmente ou você é inocente ou é malandro.” Ele torce para que tenhamos representantes com valores melhores e para uma mudança no próprio ambiente político. “Entrei lá com um pensamento de mudar o mundo, mas descobri que não é tão fácil assim.”

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