5 programas em Santiago para ir além da neve e do esqui

Comer centolla e beber vinho é o tipo de atração imperdível. Mas há muitas riquezas culturais na capital chilena fora do circuito convencional

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A capital chilena é incrível. Bem ao lado da Cordilheira dos Andes – que posa como pano de fundo no inverno e no verão – a cidade é a maior do Chile e o principal polo financeiro, cultural e administrativo do país. Também é repleta de atrações e lugares cheios de personalidade, história, cores, cheiros e sabores surpreendentes. Sensações que podem ser vividas com mais intensidade por quem escolhe fugir de roteiros convencionais e não tem medo de mergulhar no passado – e no dia a dia – dos chilenos. Uma experiência para poucos.

Da minha viagem ao Chile e os seis dias que passei na capital, entre maio e junho de 2017, destaco cinco programas em Santiago imperdíveis para viver a cidade e descobrir que ela vai muito além de vinhos, cordilheira e a casa de Neruda (embora estas sejam atrações must go em uma ida até lá).

O que fazer em Santiago: 5 programas diferentes

Beber as cervejas (sim!) chilenas

A terra do vinho também produz ótimas cervejas artesanais. A verdade é que há pelo menos três anos os chilenos têm investido nisso – prova disso são os inúmeros bares voltados exclusivamente à bebida tão apreciada pelos brasileiros. O Kross Bar, na região da Providencia, é o lugar-point do momento entre os chilenos. Vive cheio. Por isso, é bom ir com tempo e esperar por uma mesa, na área interna ou externa (mesmo no frio eles providenciam aquecimento). A espera vale a pena.

Fila para entrar no Kross Bar. Quando se consegue uma mesa, a espera é recompensada com bons rótulos artesanais, vindos direto da fábrica. (Fotos: Greyci Casagrande)

O bar representa a cervejaria Kross, uma das maiores do Chile, e se preocupa em oferecer pelo menos 10 opções de chope todo dia – alguns, inclusive, de outras cervejarias amigas. O ambiente é descolado, sem faixa etária definida, com decoração em estilo industrial, e o atendimento rápido e cuidadoso. Quem gosta mesmo da bebida ainda encontra uma geladeira lotada de garrafas inusitadas, com rótulos que provavelmente você nunca viu. Frequentadores turistas são raros. 

Se perder dentro do barulhento Mercado La Vega Central

Aqui você vai mergulhar na cultura local e ver Santiago por outros olhos. Bem diferente do tradicional Mercado Central de Santiago – onde os turistas se aglomeram para provar a centolla (caranguejo gigante) – o La Vega, também conhecido como Feria Mapocho, reúne especiarias, frutas e legumes do Vale Central do Chile. E vai muito além disso. O mercado se destaca principalmente por oferecer sabores trazidos pelos imigrantes coreanos, peruanos e asiáticos que chegaram a Santiago nas últimas décadas e povoaram a região de La Chimba, aumentando a pluralidade cultural do local. Passear por lá é se surpreender com os barulhos e cheiros que se misturam em uma experiência gastronômica ímpar.

Se emocionar no Museu da Memória e dos Direitos Humanos

Prepare-se para chorar. Se você puder visitar apenas um dos muitos museus de Santiago, esta é a minha indicação. Como o próprio nome sugere, o local resgata memórias e eventos que marcaram (e violaram) muitos chilenos durante o período de Ditadura Militar no país, entre 1973 e 1990. A exemplo do que acontece em outros países, como a Alemanha, o Chile tenta não esquecer o que passou – e este local, que presta uma homenagem e também um “perdão coletivo” às vítimas da Ditadura, é um exemplo do respeito que eles têm pela memória – mesmo sendo triste. Lá dentro você não pode tirar fotos, com exceção da exposição no térreo, por onde começa o tour – parte “tranquila” do museu.

A cada andar, o conteúdo se torna mais denso, pesado e sensível. Mexe com cada um de formas diferentes. Mas é muito provável que você deixe cair uma lágrima ou outra e sinta um frio na barriga ao ver e ouvir relatos dos sobreviventes, em vídeo; ouvir o último discurso de Salvador Allende no Palácio de la Moneda, minutos antes de morrer (ou ser assassinado, ninguém sabe). Tudo é muito interativo. Mas o momento mais emocionante, talvez, esteja no segundo andar. De lá você vê com exatidão um grande mural com fotos das pessoas que desapareceram durante aquele período. Por meio de uma tela, instalada em uma sala cercada por “velas”, você pode clicar sobre determinado retrato e descobrir nome, ocupação, quando e onde aquela pessoa desapareceu. É avassalador. Para facilitar o acesso de moradores e visitantes a tudo isso, não cobram a entrada.

Provar as sopaipillas chilenas e os terremotos

A primeira é uma receita muito popular, tão popular que não se encontra em restaurantes, mas nas ruas. Trata-se de uma espécie de pãozinho chato e redondo, frito, feito com abóbora, trigo e água. Nada mais. A iguaria está para os chilenos como o cachorro-quente está para os brasileiros. Em cada esquina há um carrinho vendendo sopaipillas, que podem vir acompanhadas de um molho picante, semelhante ao nosso vinagrete. É delicioso! Já o terremoto é um drinque inspirado, sim, nos tremores de terra tão frequentes no Chile. Leva vinho branco, sorvete de abacaxi, fernet e granadina. O sabor é doce e suave, mas não se engane. Os próprios chilenos advertem que a bebida é forte e faz “perder o chão”. Pode ser encontrada na maior parte dos bares, pubs e restaurantes de Santiago.

Visitar uma das vinícolas mais antigas do Chile – “a melhor do mundo”

Sim, estar no Chile e não visitar uma vinícola é quase um crime. Na minha estadia, conseguiria conhecer apenas uma e não queria errar. Segui o conselho da Elis Cabanilhas Glaser, da Revista Vinícola, e entrei em contato com o pessoal da Santa Carolina, a marca com a qual comecei a tomar e a gostar de vinhos. Fui muito bem recebida por Macarena, Maria Jose e Felipe, que me guiaram por um tour que resgata a história da vinícola, uma das mais antigas do Chile, com 142 anos de tradição – eleita em 2015 a Melhor Vinícola do Novo Mundo pela influente revista norte-americana Wine Enthusiast. 

A cave subterrânea foi projetada pelo arquiteto francês Emile Doyeré com a técnica de Cal y Canto (tijolos ligados com argamassa à base de cal e ovos). (Foto: Divulgação)

A vinícola surgiu como principal hobby do ex-senador Luis Pereyra. Em 1889, ganhou uma medalha de ouro na Exposição Universal ocorrida na França com o Reserva de Família Cabernet Sauvignon, primeiro vinho chileno a alcançar um prêmio internacional desse porte. Em 1974, com a morte de Pereyra, foi adquirida pela família Larraín, atual proprietária. O passeio pela vinícola é um mergulho fundo ao passado e resgata essas e outras histórias, e inclui visitação à cave subterrânea, projetada pelo arquiteto francês Emile Doyeré com a técnica de Cal y Canto (tijolos ligados com argamassa à base de cal e ovos) e degustação dos principais rótulos da Santa Carolina. 

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